ContosCultura

O orfanato

A excursão do colégio de freiras levava as meninas a locais desconhecidos e perturbadores. Eram da classe média e da alta, meninas com casas, quintas, famílias e rede de relações. Meninas que viviam num mundo fechado, amparado por almofadas e braços fortes e potentes. Brincavam em bandos, alegres, despreocupadas e felizes. Fui ao jardim da Celeste giroflé giroflá. De batas brancas, puras e simples, como aquelas almas que ainda não sabiam sentir. Davam as mãos, brincavam à roda e todas eram iguais. Depois voltavam para a sala, para as aprendizagens que faziam falta e sentido para o futuro. Sentadas, atentas e concentradas. Meninas bem-comportadas.

Dia de excursão era sinónimo de novidade, de alteração de rotina, de descontracção total. Senhor condutor ponha o pé no acelerador, cantavam em coro. Era uma camioneta simpática que acolhia aquelas gaiatas que estavam prontas a viajar. Só que desconheciam que aquela viagem as levava a outros destinos, diferentes do que poderiam imaginar. Pararam. Que se passa? O senhor chauffer vai ver as suas meninas. Já não venho a casa há uns dias e quero dar-lhes um beijo e um abraço. Enternecedor. Bom homem e bom pai.

Havia uma praia a ser descoberta. Que teria de diferente das outras? Areia, água, sal e sol era-lhes comum. Mulheres vestidas com 7 saias e um chapéu engraçado no alto da cabeça. Ondas muito fortes. Não se afoitem. O mar é bravo e não se brinca com ele. D. Fuas Roupinho olha lá do alto, no Sítio, onde parou para ver a Senhora. Ah! Admiração total!

Próxima paragem: uma casa grande, um casarão, com ar austero e másculo. Muitas crianças sorridentes e brincalhonas. Todas diferentes. Para elas também era novidade. Quem és tu? De onde vens? Tens mãe e pai? Que pergunta descabida para umas e adequada para outras. És bonita. Brincas comigo? E a tarde foi de brincadeiras, de giroflés, rodas, elásticos e barra do lenço. O lanche, espartano, café com leite e pão com manteiga, servido em taças e pratos de inox, surpreendeu as meninas do colégio. Porém, o apetite foi mais forte e comeram ao mesmo tempo que falavam.

De que falariam estas meninas? Umas de tudo aquilo que tinham ou que fizeram, as outras das vontades, dos sonhos e dos desejos, de verdades e de quereres. Das bonecas, dos jogos, das casas, da solidão, da orfandade, do contacto, do carinho e do amor.

Hora de partida. Lágrimas, mãos que se dão, abraços apertados e muita, muita saudade. Não vás, fica connosco. Gosto de ti. Tens mãe e eu não. Tens pai e eu não. Leva-me contigo, para a tua casa, para o teu quarto, para comer contigo, para ter o calor que tu tens. Como se pode viver sem mãe e sem pai? Quem as tapa à noite, quem lhes conta as histórias, quem lhes ensina a viver, quem lhes compra as roupas, os miminhos que todas as meninas precisam? Quem? Quem lhes dá amor?

Tinha 5 anos e nunca mais me esqueci daquela menina de cabelo encaracolado, curto e olhos de águia. Ela leu-me e percebeu a minha fragilidade. O meu mundo não era o dela e estava a aprender o que era a vida. Aquele olhar, aquela súplica tão profunda e sentida, leva-me contigo, ainda hoje está no meu peito, no meu coração, em ferida aberta. Soltei todas as lágrimas que tinha, reparti com ela o único bem que possuía, e aprendi a viver. Foi nesse dia que percebi o que era a tristeza e o abandono.

Voltámos silenciosas, metidas connosco, analisando todos os acontecimentos do dia. Praia, brincadeiras e meninas sem quartos nem brinquedos só seus. Demorou uma eternidade até regressar ao colégio. Umas muito pensativas, outras distraídas e eu a chorar por dentro. Tínhamos os pais à espera. Sortudas. Então como foi a excursão? Ó pai podemos ir buscar a minha amiga ao orfanato? E o pai, apanhado desprevenido, pegou na sua menina ao colo, sorriu e disse: “Ó filha, as coisas que tu imaginas.”

Tags
Show More

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: