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O Grito da Humanidade

O mundo em que vivemos hoje, e basta olharmos por breves instantes à nossa volta, parece saído de um daqueles filmes non-sense que nos habituámos a ver no cinema. Muitas coisas parecem estar viradas ao contrário, não nos identificamos com os sistemas, com os regimes nem com as ideologias, as atitudes das pessoas na sociedade estão desreguladas, os crimes hediondos proliferam, sentimo-nos revoltados mas, ao mesmo tempo, impotentes perante as já não tão bem oleadas, para além de muito obsoletas, máquinas do sistema.

No entanto, como já tantas vezes escrevi, há que compreender que tudo o que vivemos é reflexo de uma escolha nossa, enquanto cidadãos, enquanto gerações com um grave problema de contínua desresponsabilização. Quando não exercemos a nossa escolha, existe uma outra escolha que se coloca como nossa, tomada por outro alguém que nem sequer conhecemos, mas que ganha poder no momento em que esquecemos que também o temos.

O mundo em que vivemos hoje, de crises financeiras, guerras de poder, crise de refugiados, onde coabitam toneladas de comida desperdiçada e milhões de pessoas a passar fome, casas vazias e abandonadas e milhões de pessoas sem um tecto, tanto para se fazer e construir na sociedade e, ao mesmo tempo, tanto desemprego, este mesmo mundo, é totalmente responsabilidade nossa, pois, tão simplesmente, esquecemo-nos que somos pessoas, seres humanos, irmãos, e aceitámos, alimentámos e ainda reforçámos sermos números, dinheiro, posse.

Desenganem-se aqueles que vêem nestas palavras algum apoio a um sistema ou a alguma facção política. Esse tempo já passou, esse tempo é uma casa em ruínas em que uns quantos insistem em meter remendos atrás de remendos. Basta pensar um pouco, sentir e tomar consciência do que nos rodeia e facilmente se verá que tudo o que fizemos foi desrespeitarmo-nos a nós mesmos, ao nosso corpo físico, às nossas emoções, à nossa integridade moral, mental e intelectual.

Tudo o que construímos nestas últimas centenas de anos foi a prisão em que vivemos hoje. O pior, de facto, é que fomos nós mesmos que a construímos, sem portas nem janelas, ao mesmo tempo que nos mantínhamos lá dentro, onde hoje estamos. Desligámo-nos e desfizemos as comunidades, passando a viver centrados no nosso próprio umbigo, tornámo-nos egocêntricos, egoístas, focados na posse, nos bens, no dinheiro, no estatuto e na imagem. Criámos impérios e desenvolvemo-nos à velocidade da luz, preterimos o olhar em prol de um telemóvel ou de um computador. Vemos pessoas que já não se riem, dizem “lol”, não comunicam cara a cara numa relação, mas enviam emails quando existem problemas a resolver. Criámos coisas maravilhosas, que poderiam e deveriam ser usadas de forma útil e transformadora, mas adaptámo-las aos nossos hábitos, com medo de perder alguma coisa que, como estes últimos anos bem nos mostraram, nunca chegámos a ter.

O ponto de ruptura a que chegámos hoje, que nos coloca a braços que tantas questões no mundo, mas também dentro de nós, que nos confronta com tantos fantasmas e que nos faz pensar sobre quem somos e quem queremos ser, é o grito de uma humanidade que pede mudança, que pede uma profunda transformação, que pede uma tomada de consciência desta tão profunda realidade, a de que o mundo que temos é, a cada momento, construído por nós. Mudá-lo está nas nossas mãos, depende apenas da nossa força e da nossa vontade. Não é preciso uma revolução ou uma guerra, até porque, como em tudo na vida, não é de fora para dentro que mudamos seja o que for. A mudança, primeiro que tudo, tem de vir de cada um de nós, na sua forma de pensar, de estar, de agir, consigo mesmo, com os que o rodeiam, com a família, os amigos, os empregados, os patrões. Se cada um de nós mudar e compreender o que precisa para ser mais feliz, mas feliz de verdade (e perdoem-me, ninguém é feliz porque tem um determinado carro de marca, um telemóvel topo de gama ou uma casa com 4 ou 5 assoalhadas), então, com a maior das facilidade, mudaremos o mundo e este grito tornar-se-á uma melodia de paz.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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