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O fogo sobe, arde e acaba por queimar

O conflito do mais conhecido califado continua, em países do Médio Oriente, tendo já atingido alguns países africanos; basta relembrar o tiroteio na cidade de Sousse, na Tunísia, à luz do dia, em plena praia. O Estado Islâmico continua a promover a guerra e a querer levar a sua ideologia além-fronteiras, bem como preservar a sua influência nos seus principais pontos sírios e iraquianos. Na verdade, os ataques multiplicam-se e deixam rastos de violência, com a promessa para mais futuros exemplares.

De acordo com um mapa divulgado pelo Washington Post, original do ‘The Soufan Group’, que pode confirmar aquela afirmação, a influência do Estado Islâmico está a aumentar gradualmente. No artigo onde este objecto de análise se encontra, noticia-se o lançamento, por parte dos Estados Unidos da América, de um drone secreto com vista a eliminar os líderes daquele califado na Síria. Com esta notícia, do passado dia 1, uma pergunta vem, após alguma reflexão: Como são os tempos de paz por aquelas andanças, se é que estes verdadeiramente existem?

Aquela pergunta tem a sua razão de ser. No passado dia 13 de Agosto, o periódico The New York Times publicou um artigo de nome ‘ISIS Enshrines a Theology of Rape’, que, traduzido para português de forma sugestiva, significa ‘Estado Islâmico Desenvolve uma Teologia de Estupro’. No segundo parágrafo desta reportagem, pode ler-se as seguintes simbólicas palavras, sugestivamente traduzidas: “ele agarrou as mãos dela e amordaçou-as. Depois, ajoelhou-se ao lado da cama e prostrou-se numa oração antes de subir para ela.” No parágrafo anterior, o soldado militante do EI explica que o Corão dá-lhe não só o direito de violar a rapariga que se encontra consigo como tolera e incentiva tal ato. Com os seus 12 anos, após 11 meses de cativeiro e num campo de refugiados, conta, na mesma reportagem: “eu insistia com ele que aquilo doía – por favor para. Contou-me que, segundo o Islão, estava autorizado a violar uma descrente. Disse-me que, violando-me, aproximava-se de Deus”.

Este é uma das práticas que se cometem em tempos onde a tortura deixa de ser estrutural e passa a pessoalizar-se, tanto física, como psicologicamente. Na verdade, essa pessoalização desenvolve-se paralelamente num mercado do sexo. Aí, os objectos de venda são mulheres, jovens e crianças essencialmente da ideologia religiosa minoritária Yazidi, pelo seu politeísmo associado a uma crença desenvolvida oralmente. Um membro da Amnistia Internacional, Donatella Rovera, fala, num relatório do mesmo movimento, de Dezembro do ano anterior, em “violência sexual e escravidão sexual”. Mais, como forma de mostrar as ilimitações existentes, a partir de um panfleto publicado na página do Twitter, no passado Dezembro, o Middle East Media Research Institute traduz algumas palavras: “é permitido ter relações sexuais com uma escrava mesmo que ela não tenha atingido a puberdade, importando estar apta para o ato”. Como funciona esta comercialização? Uma das vítimas explica que, após capturadas, são presas, sem tempo definido, sendo, posteriormente, introduzidas em autocarros donde seguem para outros sítios do Iraque e para a Síria. Nestes locais, efectua-se a compra e a venda destas mulheres, jovens e meninas, cuja finalidade corresponde à sua exploração sexual.

Analisando este fenómeno à luz dos pensamentos de liberdade e do espírito democrático, trata-se de uma ideia inviável na prática. Pense-se um pouco, no lugar destas vítimas: saúde debilitada e frágil, incorrendo no risco de contracção de doenças infecciosas e de retardamento no crescimento; educação forçada sem capacidade de expansão e baseada no uso da violência; religião entendida de forma rígida e encrespada sem barreiras nem aberturas interpretativas; filosofia de vida enlameada e alagada, por se revelar quase impossível criar uma linha de pensamento. As verdadeiras palavras são de libertação e de vontade de crescer, algo que encontram numa sociedade democrática, logo, livre.

Ao nível dos Direitos Humanos, o fundamentalismo islâmico atinge dimensões escandalosas, onde predomina a prepotência e a rouquidão com aroma a Inferno. O fogo sobe, arde e acaba por queimar. Assim, a pura essência do ser humano perde o seu verdadeiro instinto: viver para descobrir.

Como será que esta situação poderá ser resolvida?

Vários activistas tentam fazer a diferença no sentido de alertar para estes acontecimentos verídicos bem como no sentido de tentar mudar realidades. O mundo lê e ouve, os media fazem chegar mais além, se bem que numa ação insuficiente e sustentada pela captação de audiências. Em particular, esta realidade em torno do Estado Islâmico tem poucas abordagens, fazendo com que persista a necessidade de atentar neste tipo de ocorrências.

Quanto ao grande conflito, os EUA já têm um historial significativo, só deste ano, relativo à sua acção mortífera. Em maio, foi notícia um pouco por todo o planeta, muito embora não tenha tido a recepção relativa à captura do ex-líder da Al Qaeda, Bin Laden, que o líder do Estado Islâmico foi morto, Abu Sayyaf, após a entrada das forças norte-americanas na Síria. Em Agosto, mostrou-se a vez de outro dos líderes do afirmado califado: vitimado por um ataque aéreo no Iraque, Fadhil Ahmad al Hayal acaba por ser abatido.

A União Europeia já tentou tomar as suas medidas, especialmente, ao nível da segurança. O atentado à redacção do jornal satírico francês, em janeiro, levou a que muitas pessoas protestassem “Je Suis Charlie”. Poucos dias depois, houve também outro atentado, no decorrer de um debate sobre o fundamentalismo islâmico, na capital dinamarquesa. De facto, exerceu-se um esforço no sentido de repensar o espaço Schengen, bem como de reforçar a segurança, com maior incidência nos aeroportos e nas fronteiras dos países afectados. Porém, apesar do trabalho militar das mãos de vários países, a combater contra este Estado, ainda pouco foi feito. Talvez o acolhimento dos refugiados de guerra seja o melhor que consigamos fazer, enquanto um conjunto de Estados-membros que procura a sua afirmação e a sua quota-parte na cooperação com o Mundo.

Qual o caminho? Seguir em frente com estas estratégias? Até quando se dará este grande conflito e continuarão a ser sacrificados seres humanos por causa de interesses económicos? Será com pactos que tudo se comporá? A questão é essa: tudo se resume a economia e a propensão.

Associada à exuberância de uma visão marcadamente avassaladora, a exaltação islâmica não tem limites, chegando a transmitir uma certa imagem de inconsciência conturbada. O pior de tudo é mesmo o destino da Humanidade, o destino daqueles seres que ascendem dos ventres de suas mães à Terra e que vivem esta realidade sem a compreenderem e que, como Aylan, acabam mortos na praia…

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal ‘ComUM’, no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal ‘Académico’, juntamente com a sua participação semanal no ‘Repórter Sombra’, onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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