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O Flash

Uma das melhores descrições que encontrei para identificar o que diferencia a série The Flash das restantes centradas no mundo dos super-heróis foi lançada no Twitter em Novembro, por Christopher Dole, que escreveu:

“The DC spectrum:

Gotham: “One day this lil’ tyke will be Batman!”

Arrow: Developing powers over time

Flash: FUCK IT HERE’S A PSYCHIC GORILLA”

De forma geral, a primeira temporada desta série conseguiu corresponder ao que o tweet referiu. The Flash conseguiu recriar na televisão todos os deleites da época de ouro da DC Comics, apresentando os super-poderes, a ciência estranha, os vilões com fatos coloridos e, sim, até um gorila, sem nunca ser demasiado exagerada. E conseguiu ser um sucesso desde o seu início, fazendo-me desejar que as representações na televisão dos super-heróis da DC Comics fossem mais… como irei dizer isto… divertidos.

Dado o sucesso que os filmes baseados nas personagens da Marvel e da DC conseguiram alcançar, torna-se um pouco complicado apontar algumas falhas a este género de cinema. Porém, existem dois pontos que penso que poderiam ser revistos nas abordagens cinematográficas: excesso de seriedade e um excessivo uso de temáticas.

A minha principal queixa é relativa ao primeiro ponto. A atmosfera meio Emo que as imagens e os pequenos vídeos que circulam na Internet sobre Batman V Superman: Dawn of Justice têm sido alvo de piadas e o mesmo acontece, quando se fala do rumor de que existe uma política de “nada de piadas” nos filmes da DC. Gotham e Arrow podem ter momentos de maior leveza, mas ambas são, maioritariamente, negras e violentas. A Marvel tem conseguido um melhor trabalho no que toca à adição de humor nos seus filmes e nas suas séries, mas também tem a sua dose de violência com a série Daredevil e as versões cinematográficas dos X-Men não foram propriamente uma barrigada de risos (excepção feita ao melhor filme sobre mutantes alguma vez feito, X-Men: First Class).

O problema levantado com as questões da temática é mais complexo de explicar sem revelar informação sobre algum filme, mas aqui vai a minha tentativa: apesar de filmes como Avengers: Age of Ultron e The Dark Knight Rises serem bastante bons, ambos aparentam estar a esforçar-se em demasia para inspirarem as pessoas a fazerem dissertações críticas sobre eles, tentando reivindicando o seu direito a serem considerados uma forma séria de fazer cinema. Relevância cultural é algo a que todos os filmes de super-heróis deveria aspirar, mas também existe alguma virtude em simplesmente contar uma história e deixar que os temas surjam de forma natural e orgânica, em vez força-los a acontecer.

The Flash conseguiu resolver de forma satisfatória as tendências que estão na base da criação de séries e de filmes sobre pessoas com super-poderes. O primeiro episódio apresentou-nos a Barry Allen (Grant Gustin), um cientista e CSI em Central City, que ganha poderes de super-velocidade, depois de um acidente que envolveu um acelerador de partículas nos laboratórios S.T.A.R. e que foi criado pelo Dr. Harrison Wells (Tom Cavanagh). A partir deste ponto, a série desenvolveu-se rapidamente, introduzindo novos vilões com poderes todas as semanas. Esta temporada também apostou na revelação do mistério em torno do Dr. Wells, que ajudou Barry a controlar os seus novos poderes e a derrotar alguns vilões, com o auxílio dos seus assistentes Cisco Ramon (Carlos Valdes) e Caitlin Snow (Danielle Panabaker). Porém, é também revelado que Wells é um vilão manipulativo vindo do futuro.

A velocidade a que a série se desenvolve está directamente relacionada com a sua bem construída estrutura. Grande parte das linhas narrativas não foi construída para durar uma temporada inteira, demonstrando que não há uma grande aposta em arcos muito longos. Em vez disso, desenvolve episódios soltos com um vilão da semana, enquanto renega para segundo plano as histórias que envolvem Wells e as relações pessoais de cada personagem e que acabam por tomar a sua centralidade na série sempre que são necessárias. Só esta questão faz de The Flash uma série mais leve e com mais acção do que a maioria das séries actuais deste género.

Existem ainda dois factores que fazem da série muito divertida: os efeitos especiais e o elenco. Como The Flash não tem um grande orçamento, não consegue ter grandes momentos de efeitos especiais, mas os produtores conseguem fazer magia com o pouco que têm, usando animações digitais para alcançar o que pretendem transmitir. Os actores, pelo seu lado, divertem-se a encarnar as suas personagens, como Wentworth Miller no papel de Leonard “Captain Cold” Snart e Mark Hamill a interpretar James “The Trickster” Jesse, ou enchem-nas de pormenores significativos, como faz Jesse L. Martin com o seu Joe West e Rick Cosnett a encarnar Eddie Thawne.

Grant Gustin marcou o tom para o seu Flash desde início, encontrando-se num meio-termo entre Cisco (com o seu entusiasmo contagiante, a sua inteligência para resolver problemas e o seu enorme prazer em saber de memória todos aqueles que o Flash enfrentou) e Wells (com a sua presença gravitacional e o seu padrão de discurso). A série soube incorporar toda a loucura e excentricidade que existia na antiga banda desenhada do Flash, ao mesmo tempo que se manteve contemporâneo. O Flash não é o Batman e, apesar de ter alguns elementos em comum com o universo de Buffy e dos Vingadores de Joss Whedon (principalmente o conceito de que a equipa é como uma família e a vontade de que a história seja gradualmente maior do que parece), a abordagem é menos consciente do que a que Whedon normalmente aplica. As personagens desta série reconhecem o quão fora do comum são as suas vidas, mas isso não as impede de estarem entusiasmadas com o que vivem diariamente.

É muito fácil exagerar, quando falamos sobre esta série (e possivelmente fiz exactamente isso nos parágrafos anteriores). Por isso, vamos ser claros: The Flash não é The Americans, ou Mad Men, ou Game of Thrones. E, mesmo sendo igualmente agradável como Jane the Virgin, não consegue ser tão criativa, ou hábil. A série não é especialmente complexa a nível emocional e, não tendo produzido um mau episódio, as suas melhores semanas também têm pontos fracos de bradar aos céus.

O maior obstáculo que existe é a relação de Barry com a filha de Joe West, Iris, a sua melhor amiga e a personagem com quem ele casa na banda desenhada. Tal como acontece em Gotham, que nunca foi capaz de perceber o que fazer com Barbara Kean, o amor que a mitologia obriga o herói a ter, The Flash conseguiu destruir por completo Iris e talvez nunca consiga resolver o problema que criou, se quiser manter-se fiel aos comics. Gotham decidiu ver-se livre de Barbara logo no início da temporada, dando a oportunidade a Jim Gordon de criar um laço com a mais interessante Dr. Leslie Thompkins (Morena Baccarin). No entanto, se os criadores da série pretendem manter-se ligados à mitologia do Batman, em algum ponto Jim e Barbara terão de casar. The Flash decidiu manter a personagem de Candice Patton, mas não lhe soube dar o interesse e a maturidade que a versão de banda desenhada tem. Na próxima temporada, a equipa criativa terá de fazer um reboot à personagem, ou, então, fazer alterações radicais à história do Flash.

Este é um género de problema que pode afectar muito uma série que não tem a aspiração de ser de elite. O enredo pode ter alguns furos e a premissa geral pode tornar-se demasiado de nicho para que uma grande audiência pretenda acompanhar. The Flash é principalmente para pessoas que querem acompanhar as aventuras desta personagem, independentemente de serem fãs da BD, ou novatos que gostam de uma personagem veloz e que guarda a sua máscara num anel.

Contudo, existe algo de bastante refrescante na vontade que a série tem de, primeiro, acertar em todos os detalhes do que faz um super-herói, em vez de tentar encaixar esses mesmos detalhes numa afirmação maior do que a vida. Isto não significa que The Flash seja algo inferior, ou que não é ambiciosa. Os produtores simplesmente pretendem contar uma história que envolve viagens no tempo e raios lazer, em vez de usarem a série como uma forma de analisar as questões de segurança do século XXI (mais uma vez: não existe nada de errado em fazê-lo).

Ao longo da temporada, vários fãs começaram a questionar-se sobre as opções mais arriscadas que a série tomou, entre as quais, a decisão de Barry e da sua equipa ter decidido prender os vilões numa instalação de confinamento, em vez de os entregar às autoridades civis e ao sistema de justiça. Quando menos se esperava, o penúltimo episódio decidiu demonstrar as ramificações que esta escolha criou de uma forma bastante satisfatória. The Flash seria uma série bastante diferente, se decidisse abrandar o ritmo para ter um debate ético e pessoal, tal como Arrow faz. O seu sucesso advém do elevado ritmo em que desenvolve a sua história. Afinal de contas, esta é uma série que sabe que é melhor ter um gorila maluco do que perder tempo a falar sobre um gorila maluco.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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