CrónicasLifestyleTelevisão

O Final da Estrada de Sons of Anarchy

Lembram-se que, há aproximadamente 7 anos, quando estreou uma série que contava as histórias de um clube de motoqueiros que vivia numa pequena cidade chamada, ironicamente, de Charming? Lembram-se de como, na altura, raros eram os elogios que não eram lançados a um certo protagonista loiro e no potencial que a sua personagem tinha? Ele tinha planos de tornar o clube num negócio limpo, conquistar a rapariga que amava e, finalmente, livrar-se do ciclo de violência que sempre foi a maldição da sua família. Lembra-se de tudo isto? Bem, 7 anos depois, tudo não passa de uma memória distante, tendo em conta o quanto Sons of Anarchy e o seu personagem principal mudaram.

Quando conhecemos Jax Teller pela primeira vez, na primeira temporada, tudo o que o envolvia era, de alguma forma, mais leve do que a realidade que o envolvia. Ainda tinha um melhor amigo em Opie. A sua paixão do liceu, Tara, tinha voltado para a cidade e a relação entre os dois parecia estar a voltar ao que fora. O seu clube de motoqueiros parecia ser composto de adoráveis desajustados, principalmente por causa dos homens a personificar o Elvis Presley que frequentavam o bar. Nessa altura, até o cabelo loiro de Jax parecia mais claro.

A pouco e pouco, a história começou a mudar. O produtor Kurt Sutter colocou Jax num caminho destrutivo, levando-o a transformar-se de um gangster esperançoso no homem sem fé que tem a sua última volta no episódio final de Sons of Anarchy, que foi para o ar em 2014. Não é um engenho narrativo novo, já que vimos o mesmo a ser feito, quando Vince Gilligan pegou em Walter White e transformou-o no Scarface da Droga. A diferença está no facto de Jax nunca ter sido verdadeiramente bom, principalmente se o compararmos com muitas das pessoas que o rodeavam, e no facto de que ele tinha o desejo de se tornar numa melhor pessoa. Nos primeiros episódios, ele tinha um código de ética pessoal, protegia a sua família e o seu clube e aspirava a futuro que não terminasse em crimes sanguentos, da mesma forma que o seu pai tinha idealizado nos seus diários. No entanto, esta ligação ao seu falecido pai entra em conflito directo com Clay, o então presidente do clube e padrasto de Jax, que, mais tarde, descobrimos ter sido o responsável pela morte do pai do protagonista. Com Clay por perto, era fácil para Jax ser o bom da fita, mas isto mudou, quando ele pagou por todas as mortes que causou.

No início, quando Jax tinha de matar, era uma acção que era feita pelo bem do clube e nunca era algo excessivamente violento. Na primeira temporada, ele matou o ex-namorado e perseguidor de Tara e, apesar dos dois terem partilhado uma cena de sexo esquisita ao lado de um cadáver, não foi uma morte planeada, ou acto de vingança. O pior que essas primeiras temporadas mostraram dele foi, enquanto tentava convencer todos os membros do clube a tornarem o negócio em algo legal, ser indicado que ele poderia ser o informador da Agente Stahl. Porém, até isso se veio a comprovar ser uma armadilha e a agente federal acabou por ser morta, ao mesmo tempo que se ouvia a voz de Jax a afirmar que nunca seria capaz de trair o clube. Claro que nunca chegou a estar na mesma liga que Clay, no que toca a assassinatos, já que este último matava para manter os seus segredos. Ou ainda na liga da sua própria mãe, que fez de um bebé refém, ao apontar-lhe uma arma à cabeça.

Quando chegámos à quarta temporada, no entanto, Sons of Anarchy começou a revelar uma mudança de tom, ao colocar a personagem principal entre duas opções: ficar com o lugar vago de Clay e tornar-se no presidente da SAMCRO, ou esquecer tudo e partir com Tara e os filhos de ambos, para começarem uma nova vida. Jax acabou por ser forçado a escolher a primeira opção, acreditando ainda que poderia tornar o clube num projecto legal, apesar das movimentações de determinados elementos do grupo e das alianças feitas com outros clubes. No entanto, à medida que ia conseguindo limpar a SAMCRO, tudo o que o rodeava parecia estar a desmoronar, especialmente a sua família.

No momento em que a sexta temporada estreou, muitos dos acontecimentos mais esperados aconteceram. Jax mata, finalmente, Clay, com um tiro no pescoço, e começou a demonstrar a sua natureza violenta, depois da violenta morte de Opie. Mata violentamente o sargento que permitiu o assassinato do seu melhor amigo. Pede à sua mãe para ter relações sexuais com o seu abusivo ex-marido, para conseguir que ele revele os seus segredos. Entrega Tig a um homem que pretende matá-lo. Diz a Juice para matar uma mãe inocente. Tenta matar a sua ex-mulher, Wendy, que se encontrava a recuperar do seu vício em droga, só para conseguir impedi-la de ajudar Tara a criar os seus filhos. Ao mesmo tempo, o grau de violência perpetuado pelas pessoas que se encontravam à sua volta aumentava substancialmente. O tiroteio numa escola, ou a forma como Otto foi violado na prisão e cortou a sua própria língua com os dentes, para não dizer o que não devia, são exemplos disso. Também é possível referir a cena em que a filha de Tig é queimada viva, dentro de um buraco, ou a forma como Clay arranco o nariz ao seu companheiro de sela, ou ainda o modo como Otto mata uma enfermeira com um crucifixo.

Quando ocorre a morte de Tara, Jax já estava mais do que pronto para começar uma guerra. O início da sétima temporada demonstra perfeitamente o seu estado de espírito, ao torturar brutalmente e esfaquear a cabeça de Chris Dun com um garfo, enquanto fuma calmamente um cigarro. Neste momento, soubemos que já não havia salvação para aquela personagem por que torcemos outrora. A caminhar a passos largos para o final da série e com as mortes de Gemma e de Unser nas suas mãos, esta personagem criou um rasto de mortes violentas e, por vezes, sem qualquer sentido.

Papa’s Goods”, o último episódio de Sons of Anarchy, deu a Jax e ao criador da série o espaço necessário para criar o fim que tanto o clube, como a história merecia. Podemos ver a personagem central a resolver as suas questões com Wendy e os seus filhos e passou por locais muito importantes para toda a narrativa: o antigo quartel-general do clube, as sepulturas de TM, Opie e de Tara, passar de mota ao lado do sinal de boas vindas de Charming e seguir pela auto-estrada 580. Ele despediu-se da SAMCRO, da Redwoody e de Lyla, assim como de Chucky, do que sobrou das suas mãos e de Nero. Os negócios com Barosky, Marks e os Irlandeses ficaram resolvidos e terminou dando a Patterson todas as informações que sabia sobre a morte de Tara e de outras mortes mais recentes, incluindo as que ainda estavam por acontecer.

Durante esta última volta, Jax também conseguiu ser um momento de consciencialização, ao conseguir perceber a luta interna por que Tara passou desde que o conheceu e admite, finalmente, que “um bom pai e um bom bandido não podem existir no mesmo homem”. Apesar do que deseja e assumindo que Wendy é capaz de se manter sóbria e de educar os seus filhos, o modo como Abel interage com o anel do seu pai sugere que este ciclo de morte e violência ainda não terminou. Jax queria que os seus filhos soubessem que ele não era uma boa pessoa, mas o que irá Abel aprender com todas as acções do seu pai? O que aprendemos nós como espectadores?

Jax, antes de se despedir, diz a Nero que aquela “é a pessoa que ele é. Eu não consigo mudar quem sou.” Porém, durante várias temporadas, foi exactamente isso que ele pretendeu fazer – ser mais parecido com o JT e menos como Clay. Depois, toda a sua existência centrou-se na sua busca para se tornar num líder único, até que a vingança conseguiu cegá-lo e a traição da sua mãe o ter desfeito por completo. Não conseguiu fugir à sua natureza de criminoso, que o tornou num género de anti-herói. Foi com esse perfeito conhecimento sobre si mesmo e sobre o que estava a abandonar que terminou com a sua vida, já que esta escolha era a melhor que alguma vez tomou, ao ser feita de forma altruísta e em benefício da sua família. No fim, decidiu escolhê-los em vez do clube. Decidiu que, mesmo amando o clube mais do que à sua própria vida, este teria de terminar com ele (ou pelo, menos a influência da sua família nele). O que coloca a série toda numa perspectiva muito interessante. O final shakespeariano que o argumentista deu à série está em consonância com a morte e a tragédia em que ela se baseou. Como escreveu, Shakespeare: “Dúvida que as estrelas são feitas de fogo. Dúvida que o sol é capaz de se mover. Dúvida que a verdade pode ser uma mentira. Mas nunca duvides da minha capacidade de amar.”

Tags
Show More

Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Check Also

Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: