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O fenómeno da indignação em Portugal

Os portugueses são vistos, habitualmente, como um povo pacífico. As manifestações ocorrem, por conseguinte, com pouca frequência, associando-se a climas de fraca intensidade. Expressões revolucionárias mais recentes a apontar só existe mesmo a Revolução dos Cravos, do dia 25 de Abril de 1974. O alvo de questionamento, aqui, será a indignação.

Indignação. Do latim indignatio, esta palavra pode significar fúria, raiva, ira, ódio, desprezo, resultados de uma atitude, ou de um comportamento ofensivo, injusto, ou incorreto. O que pode ser visto no panorama português?

a) Indiferença para com a política;

b) Assolação do moralismo.

O aspeto a) é, claramente, visível. Existem estudos que comprovam que o interesse e a participação política da população portuguesa pecam por serem bastante reduzidos. Basta ver, recorrendo à plataforma Pordata, como, nas últimas eleições europeias, realizadas em 2014, a taxa de abstenção atingiu os 66,2%, valor bastante distinto de 1987, que ficou nos 27,8%. Com isto, pergunte-se: porque é que se destaca tão singularmente a política? A razão que justifica esta escolha mostra-se muito simples: com ela, tudo pode mudar. Diretamente afirmo que, hoje, temos paz, amanhã, podemos ter guerra. Despreocupar com a política é despreocupar com o nosso legado.

O aspeto b) é, igualmente, visível. Analisando reportagens que os canais de televisão apresentam em que os portugueses falam, deve atentar-se que uma pequena minoria apenas consegue formular propostas, sugestões, deixar críticas, que ajudem a tentar mudar o rumo do nosso país. Num artigo prévio da minha autoria, escrevo que “criticar é apresentar uma perspetiva sobre um dado assunto, de forma séria, fundamentada (seja em dados cientificamente manuseados, seja na experiência própria de cada ser), com espírito crítico, considerando o que se mostra, ou não, relevante abordar.” Aliás, a banalização dos conteúdos dos media é, por si só, um fenómeno de clara desvalorização da qualidade jornalística, mas, sobretudo, demonstradora da verdadeira preocupação à portuguesa: um certo instinto voyeur, que paira no ar. Para reforçar esta última questão, veja-se o reconhecimento da revista Maria, ou do jornal Correio da Manhã, de marcada acessibilidade e focos de leituras momentâneas.

Marisa Moura, jornalista de longa data e escritora, esteve três anos em volta do livro, da sua autoria, O que é que os portugueses têm na sua cabeça?. Em Dezembro, numa entrevista ao jornal online Observador, explica: “não sabemos reclamar como deve de ser, não temos método para tal. Não nos preocupamos em ser eficientes no geral, tanto que há aquela coisa ‘para inglês ver’.” Isso aplica-se a tudo, inclusivamente na reclamação. Uma pessoa para reclamar tem de mostrar factos, o que está mal e qual a solução possível. Não é começar a dizer mal nas costas.” Acreditando que a sua obra reflete a verdadeira identidade do português-típico, expõe, ainda: “segundo psicólogos, o que nós fazemos na vida é construir uma história que nos agrada. Como os portugueses são seres humanos, passamos a vida a criar histórias que nos agradam. E como a realidade não tem grandes razões para nos agradar — as bancarrotas, as desigualdades… — dá-nos jeito negar que tenhamos, cada um de nós, responsabilidades sobre o estado do país. Dá-nos jeito negar as nossas responsabilidades.”

Voltando à questão da assolação do moralismo, que considero um problema estrutural na sociedade portuguesa, escrevia, há umas semanas, num outro artigo já utilizado como recurso anteriormente, o seguinte: “moralizar é ditar quais os bons e os maus atos, acrescentando alguma coloquialidade, que, por vezes, se afastam de contribuir para melhorar realidades.” Com isto, pegando na política, denote-se o caso do Partido Socialista (PS), até Setembro de 2014. Com Antonio José Seguro enquanto secretário-geral, o partido tinha uma plataforma designada de LIPP (Laboratório de Ideias para Portugal), onde o programa que, na época, propunha para uma futura legislatura interagia com a sociedade civil, pois qualquer cidadão estava apto a contribuir construtivamente com propostas. Tendo sido este processamento ideológico uma exceção no panorama político, a generalidade das medidas apresentadas do contexto partidário rumo ao contexto governamental concretizam-se, por norma, pelas figuras de autoridade juntamente com especialistas nas mais diversas matérias em causa, pelo que se destacam aquelas que circundam a economia e as finanças, pelo seu poderio. Nas palestras, conferências, comícios organizados pelas iniciativas político-partidárias, raros são os momentos em que existe, verdadeiramente, um sentido de construção perspetivada, ouvindo-se, maioritariamente, palavras de protesto, ataques, gerando-se um ambiente fervoroso, incitador do desenvolvimento, por parte dos ouvintes, de um processo de modelação automática.

Após as explicações mais as diferentes situações dadas, surge outra pergunta: será a indignação digna, quando se trata de uma demonstração de um descontentamento apenas, utilizando a expressão popular empregue na mencionada entrevista a Marisa Moura, “para inglês ver”? Subjetivamente falando, dá-se esse fenómeno em Portugal: a exposição social mostra-se, geralmente, desprovida de convicções, mas inteiramente composta de motivos organizados, porém, sem qualquer tipo de estratégia definida.

Seguindo a lógica do tema em análise, estará na altura de questionar quais as soluções para combater este problema.

  1. Criação de uma plataforma, com meio físico e com meio digital, onde todos os cidadãos possam criticar.
  2. Aposta na educação para os media e para a cidadania, quer no início do percurso académico quer em novos cursos para o fim.
  3. Fundação de centros de cidadão ativo, no sentido de guiar todos aqueles que necessitem de uma orientação para participar civicamente.
  4. Maior sensibilização para a participação cívica, assim como para a preservação do património associado à nossa herança, pelos órgãos de comunicação social, pela publicidade, etc.

Terminando este raciocínio, existem dois grandes problemas na sociedade portuguesa: a indiferença para com a política e a assolação do moralismo. Se, verdadeiramente, houver a força necessária, sem esquecer os meios, com vista a assistir-se a uma sociedade em progresso, considerar a educação, a participação cívica e a propagação de ideais de cidadania serão pontos-chave que podem fazer toda a diferença. Agora, trata-se de querer mais e melhor, indignando-se com dignidade, ou de preservar a decadência ética que existe, indignando-se com indignidade?

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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