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O fantasma do Katrina, a pairar desde 2005

Tudo começou a 23 de Agosto de 2005. Um dia antes do meu nono aniversário. Lembro-me de pensar o quão devastador aquilo estaria a ser, nos EUA, e quantas mais pessoas ficariam por celebrar o seu aniversário, naquele ano.

Começando com uma depressão tropical perto das Bahamas, rapidamente as coisas evoluíram para um dos piores pesadelos da humanidade. No dia seguinte, já tinha ganho força a tempestade tropical, a que todos passaram a chamar “Katrina”. Um nome forte, à altura de toda a devassidão perpetuada por esta. Posteriormente, foi considera a 11ª tempestade de 2005 a receber um nome – sendo o 4º furacão, com uma designação. Mais importante, foi o 6º furacão mais forte do Atlântico, levando a que Michael Chertoff, secretário da Homeland Security, a 3 de Setembro de 2005, referi-se o Katrina como “provavelmente, a pior catástrofe ou pior conjunto de catástrofes dos EUA”.

Mesmo antes de atingir a Flórida, no dia 25 de Agosto de 2005 – enquanto eu brincava com as minhas bonecas e a minha bola de futebol preferida, acabadinha de receber – o Katrina tornava-se um furacão, furioso e impetuoso, que arrastava tudo o que encontrava pela frente.

Atingindo o Golfo do México, com águasRS_ofantasmadokatrinaapairardesde2005_1 mais quentes, a sua intensidade pareceu “ferver em pouca água”. Foi o caos. As mortes. O medo. A humanidade temia pelo que acontecia, já ali, do outro lado do Atlântico, no Luisiana e no Mississipi. Passados 6 dias da sua formação, o ar estava repleto de terror para aqueles que sofriam com a sua acção e para aqueles que assistiam.

O Katrina era um monstro, que já no rescaldo da situação, foi desmontado em três momentos aterradores: a tempestade; a inundação de New Orleans; a crise social e política, que desencadeou.

Com rajadas superiores a 280 km/hora, no seu auge, qualificou-se à categoria 5 da escala Saffir-Simpson. Esta avalia os potenciais danos segundo a pressão barométrica e a velocidade dos ventos dos fenómenos meteorológicos – em concreto, das tempestades tropicais – considerando, ainda, a elevação no nível da água do mar.

Categoria Ventos em mph Ventos em km/h Altura / m Pressão / hPa
Tempestade Tropical 35–73 56–117
1 74–95 119–153 1,2–1,6 Maior que 980
2 96–110 154–177 1,7–2,5 965–979
3 111–130 178–210 2,6–3,8 945–964
4 131–155 211–249 3,9–5,5 920–944
5 Mais que 155 Mais que 249 Mais que 5,5 Menor que 920

Apontada como uma grande falha do governo, nomeadamente pelo falhanço nas barreiras da cidade, destaca-se, nos piores momentos, a inundação, quase total, de New Orleans – cerca de 80% da cidade ficou submersa. Segundo um estudo de 2007, da Sociedade Americana de Engenheiros Civis, a inundação poderia ter sido evitada parcialmente com uma protecção e previsão antecipada, pelas autoridades competentes. Facto estabelecido foi a migração, para cidades fronteiriças de New Orleans, cujo regresso só foi conseguido, maioritariamente, no Verão de 2006.

Tendo em conta a sua classificação como o “mais destrutivoRS_ofantasmadokatrinaapairardesde2005_2 e mais caro desastre natural da história dos EUA” – devido à paragem parcial do fornecimento de petróleo do Golfo do México, com a destruição de mais de 30 plataformas, e às perdas na indústria florestal do Mississipi, que rondam os 5 biliões de dólares – foram necessárias medidas consideradas excepcionais. Assim, as autoridades competentes deram uma grande margem de manobra à polícia de serviço – afirmando que não deveriam olhar aos direitos civis da população. Tudo para que fosse possível controlar as pilhagens, saqueamentos e a onda de crimes sexuais que se deu no rescaldo da passagem do Katrina. Desta forma, o fundamental era restabelecer a paz social, acalmando e protegendo os mais indefesos.

O mais curioso, em toda a ajuda internacional, que desde logo foi disponibilizada, foi quer a oferta de apoios, como a rejeição americana, por parte de Cuba e da Venezuela – países não simpatizantes com os EUA. Este conjunto de auxílio dispunha de um milhão de dólares, vários hospitais móveis, estações de tratamento de água, alimentos enlatados, fornecimento de água mineral, óleo para aquecimento, mil e cem médicos e 26,4 toneladas de alimentos. Numa situação catastrófica, os EUA não se mostraram dispostos a esquecer as suas divergências politicas, do passado – seria por teimosia, ou medo de cobrança do favor?

A 30 de Agosto de 2005, o Katrina atinge a região do Tenesse onde, perdendo força, decresce para a categoria de depressão tropical e se divide em duas partes.

Uma das metades continua a espalhar terror em direcçãoRS_ofantasmadokatrinaapairardesde2005_3 ao oriente dos Apalaches, levando à formação de tornados. Estes espalham-se pela região central de Georgia e percorrem todo o terreno até à Pensilvânia. Causa, num curto espaço de tempo, duas mortes e milhões de dólares em danos.

Por seu turno, o que outrora fora parte do Katrina, atinge os Grandes Lagos – que se situam entre os EUA e o Canadá – exibindo-se agora enquanto tempestade extratropical de baixa pressão. A região de Quebec e de Côte-Nord são fortemente atingidas, levando ao isolamento total, por mais de uma semana.

Após um longo período de destruição e danos indirectos, o Katrina, em ambas as suas metades, é totalmente absorvido por uma frente fria, no sudeste do Canadá. É o fim do terror. Katrina finalmente dissipa-se.

Os registos vão fazendo-se lentamente. O medo cede, agora,RS_ofantasmadokatrinaapairardesde2005_4 lugar ao choque, ao desespero e à tristeza. Contam-se 1 836 mortes, das quais só no Luisiana são 1577 e no Mississipi são 238. Inúmeras pessoas estão feridas e desalojadas, cerca de 654 estão feridas com gravidade. O mundo vai tentando voltar à normalidade, mas 135 pessoas continuam desaparecidas, sem que o seu corpo tenha sido encontrado, até aos dias de hoje.

Desde o meu nono aniversário, muitos mais já celebrei. Todavia, naquelas regiões muitos foram os que não viram o seu dia especial recordado. Com um respeito carinhoso, dedico a todos estes o meu humilde artigo.

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Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo! Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos. Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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