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O Estranho Caso da Correia do Norte

A Coreia do Norte está outra vez nas notícias, no seguimento do assassinato de Kim Jong-nam, meio-irmão do actual líder, Kim Jong-un. No entanto, apesar de estar varias vezes nas notícias, este país continua a ser uma incógnita para muitos. Desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953 que é governada por um elemento da família Kim, num regime semi-monárquico, comunista, fortemente repressivo e exacerbadamente militarista. O pouco que sabemos sobre o país e o seu funcionamento vem dos poucos desertores que sobrevivem, dos poucos visitantes a quem permite a entrada e, por estranho que possa parecer, dos próprios meios de comunicação norte-coreanos.

A Coreia do Norte, tal como a conhecemos hoje, começa a formar-se durante o período de ocupação japonês, entre 1910 e 1945. No fim da Segunda Guerra Mundial, a Península da Coreia é dividida, tendo como linha mediana o paralelo 38 entre a União Soviética e os EUA, ficando a metade Norte sobre a esfera de influência Soviética. Apesar de ambas as potências considerarem a divisão do país uma péssima ideia, o que é certo é que a deixaram acontecer, estando ambas sob a impressão que seria algo de pouca dura. As tensões entre as duas Coreias foram aumentando até que as Nações Unidas se viram obrigadas a autorizar a formação de governos separados para as duas esferas de influência, criando efectivamente a divisão entre as duas Coreias. A gota final ocorreu quando a Coreia do Sul organizou umas eleições em Maio de 1948, e a 15 de Agosto a República da Coreia, recebe as rédeas do poder dos americanos. A Coreia do Norte, por sua vez, decreta a 9 de Setembro de 1948 a formação da República Popular Democrática da Coreia do Norte, com Kim Il-sung no papel de Primeiro-Ministro, criando de forma definitiva o que já eram dois países separados. Ainda em 1948, forças soviéticas retiram-se da Coreia do Norte e já em 1949, as forças americanas retiram-se da Coreia do Sul.

Apesar da retirada das forças das duas grandes potencias da altura, as tensões não diminuíram. De facto, foram escalando, até que a 25 de Junho de 1950, a Coreia do Norte invade a Coreia do Sul e rapidamente domina grande parte do país, empurrando os sul-coreanos para sul quase até ao mar. Os americanos vão em defesa da Coreia do Sul, que por sua vez empurra os norte-coreanos quase até a China. Os chineses por sua vez, vêm em auxilio dos norte-coreanos e repelem a invasão sul-coreana. Efectivamente, a guerra durou até Julho de 1951, sendo que a partir daí e até Julho de 1953 viveu-se um impasse. É certo que houve batalhas entre os dois países, porém, em nada se traduziram. O impasse foi resolvido com o assinar do armistício e com a criação da Zona Desmilitarizada (a famosa DMZ que, ainda hoje, age como fronteira entre as duas Coreias), sendo que apesar de haver um armistício não houve uma paz, portanto, os dois países continuam, tecnicamente, em guerra.

Durante a guerra, a grande maioria dos edifícios norte-coreanos foi arrasado, no entanto, em 1957, os níveis de produção industrial já rondavam os de 1949 e a economia foi crescendo a um ritmo superior ao da Coreia do Sul. Com a abertura da China ao Ocidente, esta começou a reavaliar a relação com a Coreia do Norte, e tensões começaram a surgir. Com a morte de Mao Tsé-Tung em 1976, Kim Il-sung começa a cortar os laços entre a Coreia do Norte e a China e cria o Juche, uma ideia que promove a independência política, o auto-sustento económico e, finalmente, o apoio na defesa. No entanto, durante a década de 80, a economia norte-coreana começa a estagnar e, com o fim da União Soviética, praticamente colapsa, e o regime norte-coreano vê-se obrigado a reatar os laços com a China, que apesar de enviar ajuda humanitária, tal como a União Soviética havia feito, a mesma não era suficiente.

Com a morte de Kim Il-sung em 1994, o filho Kim Jong-il toma as rédeas do poder e institui a politica de Songun, ou primeiro as Forças Armadas, com o objectivo de fortalecer as Forças Armadas e ao mesmo tempo desencorajar a existência de golpes de Estado. A existente crise económica que caracterizou (e possivelmente ainda caracteriza) a economia norte-coreana durante a década de 90 foi largamente exacerbada pela cheia que afectou a Coreia do Norte em 1993. Isto originou uma fome que começou em 1994 e se estendeu até 1998, sendo que o país se viu obrigado a pedir ajuda humanitária ás Nações Unidas, ajuda essa que ainda continua a ser entregue. Devido a esta situação, surgiram vários mercados negros que o governo se viu forçado a aceitar, originando corrupção e desilusão para com o Socialismo e o Regime.

Desde sempre que tem havido tentativas de aproximação entre as duas Coreias, porém, de 2000 em diante que essas tentativas têm falhado e as tensões na Península têm aumentado exponencialmente. O primeiro ponto de tensão deu-se em 2006 com a realização do primeiro teste nuclear da Coreia do Norte, um evento largamente condenado pela grande maioria dos países e que originou sanções por parte das Nações Unidas. Os dois seguintes foram em 2010, com o afundamento do navio sul-coreano ROKS Cheonan, que provocou a morte a 46 pessoas e feriu outras 56, em relação ao qual a Coreia do Norte negou qualquer envolvimento, e o bombardeamento da ilha de Yeonpyeong, por parte da Coreia do Norte, que matou 2 soldados e 3 civis do lado sul-coreano e entre 5 a 10 do lado norte-coreano, isto segundo a Coreia do Sul pois de acordo com a Coreia do Norte ninguém morreu. Mais uma vez a larga maioria dos países condenaram ambos os actos e a tensão diminuiu ligeiramente. Em 2011 Kim Jong-il morre e o seu filho Kim Jong-un sucede-lhe e mais uma vez as tensões aumentam. Kim Jong-un era relativamente desconhecido e ninguém sabia o que esperar. Mas rapidamente ficaram a saber, com os mais recentes pontos de tensão, nomeadamente os testes nucleares de 2013 e 2013. Apesar da expressa condenação das Nações Unidas e da grande maioria dos países os testes foram feitos e já há planos para mais testes brevemente, ignorando as sanções impostas pelas Nações Unidas.

Contudo, não se pode falar da Coreia do Norte sem mencionar a Dinastia Kim, o culto de personalidade que envergonharia Hitler ou Stalin, e os abusos por ela cometidos. Desde a sua fundação que a Coreia do Norte tem sido governada por um elemento da família Kim. O primeiro foi Kim Il-sung, governando sem contestação durante 46 anos. O segundo, o seu filho Kim Jong-Il, que governou durante 17 anos. E final e actualmente, Kim Jong-un que governa desde 2011. Sempre com mão de ferro. Aliás, nem é possível, de acordo com os Dez Princípios Fundamentais do Partido dos Trabalhadores Coreanos, que alguém que não pertença a família Kim, governe a Coreia do Norte uma vez que a Linhagem do Monte Paektu deve ser eternamente continuada. Todos os Supremos Líderes da Coreia do Norte têm usufruído de um culto de personalidade largamente exacerbado, sendo que os norte coreanos são encorajados a fazer vénias as estatuas ou outras representações dos lideres, quando decidem aparecer numa fabrica ou quinta para uma “orientação no local” é frequente ver pessoas lavadas em lágrimas ou em êxtase, e tantos mais outros exemplos. O que não transparece para o exterior é a vida luxuosa com que os lideres vivem em contraste com a pobreza da grande maioria da população e os abusos e excessos cometidos por eles. É largamente conhecido que Kim Jong-Il gostava de festas e de álcool. O filho, Kim Jong-un é igual, com as noites a serem de festa, longas e sempre bem regadas.

O que também não transparece para o exterior é o lado paranóico dos Líderes Supremos. O actual Líder Supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tem pavor a perder o poder e não hesitou em iniciar uma purga ao aparelho norte coreano, pouco tempo depois de chegar ao poder. Vários elementos das mais altas esferas foram presos e executados, que ele achava serem as maiores ameaças ao seu reinado, incluindo o seu próprio tio Jang Song-thaek, que num demonstrar de sadismo e perfeito desprezo pela vida humana, foi executado com tiros de bateria anti-aérea, e os seus assistentes foram executados com um lança-chamas. Suspeita-se que o seu próprio irmão, Kim Jong-nam, tenha sido assassinado, às suas ordens, em pleno aeroporto com um agente toxico. O pai, Kim Jong-il, só viajava de comboio blindado devido ao medo de ser capturado e exibido como uma atração de circo. As purgas que realizou, também serviram para remover as ameaças ao seu reinado e simultaneamente para se ver livre dos seus opositores.

A Coreia do Norte não é um país fácil de se lidar. Desde o seu programa nuclear, que tantas dores de cabeça causa ao resto do mundo, às ameaças constantes de aniquilação que Kim Jong-un dirige a torto e a direito para os EUA, Coreia do Sul e Japão. Se por um lado, não fazer nada é extremamente perigoso, por outro, tomar alguma iniciativa que vá além das sanções também é igualmente perigoso. O que é certo é que cada vez mais a paz tensa que existe na península coreana está cada vez mais em perigo.

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Manel Gabirra

Estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no Curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Grande apaixonado por automobilismo e política.

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