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O estafeta

Todas as terças e quintas feiras, às 13h45m, ele tocava à campainha e, invariavelmente, perguntava: ” O que há para mim hoje? “. O saco estava sempre preparado mas havia aflições à última da hora. Ele esperava. Nunca entrou, ficava sempre à porta, antes do guichet, mudo e calmo. Tinha um aspecto decrépito. Andrajoso, de gorro na cabeça onde os cabelos fugiam constantemente, roupa escura e suja, malcheirosa e igual. Sapatos largos que lhe saíam dos pés e gabardina, 3 números acima, mas que o protegia. A cara era tão impessoal que os olhos quase desapareciam, escondidos entre tantos sulcos e porcaria. Mas sabia cumprimentar e agradecer. Algo de muito raro e precioso. Pegava no saco e levava-o. Até depois. E a presença deles desaparecia apesar do cheiro se manter. Não se lavava, todos sabiam isso mas ele nunca falhava as entregas e era pago para tal. Cumpria a sua função e o seu papel.

Um estafeta é alguém que leva documentos onde são necessários. É como que uma linha recta sem ser o caminho mais curto mas o trabalho ficava feito. Quem o contratou sabia que podia contar com ele, com a sua eficácia e despacho. Sabíamos que se comportava  de igual modo com os outros para quem fazia o mesmo tipo de trabalho. Os documentos partiam de Lisboa e chegava a Setúbal sãos e salvos. Depois eram distribuídos pelos departamentos respectivos, mas isso já competia a outros e não a ele. Muitas das vezes havia um saco de regresso. Vinha de Setúbal para Lisboa e chegava sempre em condições. Aquele homem intrigava-me. Quase não se percebia o que dizia, cheirava mal e tinha uma cara tão triste e um ar tão sofrido que decidi que teria de saber a sua história.

Costuma-se dizer para ter cuidado com aquilo que se deseja e foi exactamente o que aconteceu. O meu desejo realizou-se e não fiquei melhor por isso, antes pelo contrário, uma dor tão profunda que parecia uma chave de parafusos a perfurar um pulmão. Uma dor que perdura até hoje. Por um mero acaso cruzei-me com ele, na Baixa e ofereci-lhe um café. Aceitou de bom grado e fiquei sem palavras quando vi os seus modos ao pegar na chávena. Aquele homem tinha educação mas não tinha vida. Que lhe teria acontecido?

Ele começou a falar mas era complicado entendê-lo porque a falta de dentes e sei lá mais o quê, lhe dificultava a oralidade. mas percebi tudo e admito que não consegui conter as lágrimas. O nó na garganta nem me deixava falar! Fiquei completamente siderada com aquela vida tão peculiar. Teve família, mulher e filhos mas os planos que se fazem são retóricos porque a vida é que sabe o que faz. Tinham morrido num acidente. O carro ficou desfeito e ele sobreviveu. Esteve em coma vários meses mas, como que por milagre, acordou e teve uma recuperação extraordinária. Refugiou-se no trabalho mas a depressão e as saudades profundas levaram-no ao álcool. E se antes não bebia depois não podia passar sem a sua nova amiga, todos os dias. Acabou por perder o emprego, bem pago e muito gratificante, como me disse e uma coisas leva à outra, ficou sem casa. Tornou-se um sem abrigo mas com honra e dignidade. recuperou-se, a custo e começou a tentar reaver a sua anterior condição, o trabalho. Conseguiu e vivia num abrigo quando comprou um bilhete de lotaria.

Olhava-me bem nos olhos para ver se eu estava a acreditar na sua história tão rocambolesca. Não duvidei. Quem quer tanto sofrimento a menos que seja verdadeira? Ganhou o primeiro prémio. Imenso dinheiro. Uma autêntica fortuna. Voltou a ter casa, reorganizou a sua vida e fez muitos disparates. Os oportunistas aproveitaram-se dele e voltou a beber. Um carrasco esse maldito álcool, como me disse. E violento. Fiquei sem nada novamente. gastei tudo ou roubaram-me. Andava sempre embriagado e perdi a noção da realidade. Fui castigado pelo meu mau comportamento. Voltei para a rua mas não cruzei os braços. tentei arranjar trabalho mas eram só biscates. Agora tenho este serviço e outros parecidos. Vai dando para a bucha, para os meus botões. Já não sou exigente. Nem sabia o que lhe dizer. Fiquei tão chocada que nem o cheiro me incomodava. Não lhe perguntei nada, ele falava livremente. No café olhavam para mim sem entender porque é que  eu estava  a falar com ele. Preconceitos.

Quando contei aos meus colegas chamaram-me ingénua e parva, alma de santa que acredita em tudo. Eu tinha a certeza, eles não tinham assistido aquele depoimento tão sentido e real. Eu sabia que era verdadeiro. Uns dias mais tarde a televisão passou uma reportagem sobre pessoas que tinham caído na pobreza depois de terem sido ricas ou terem ganho prémios de valor muito elevado. Ele lá estava, era uma dos protagonistas e contava, atabalhoadamente, a sua história. Não mentiu e percebia-se que era uma forma de penitência, de exorcizar os seus fantasmas e as suas penas. No escritório olhavam para mim com olhos de desculpa. Somos tão materialistas e olhamos tanto para o nosso umbigo que nos esquecemos dos outros. Somos maus e muito egoístas. Ali estava a confirmação de toda a verdade, duma vida que passava ao lado de quem andava sempre a viver sem olhar para os outros, para o seu lado.

Voltei para casa de coração apertado. Tanta vida que nos escapa, que está à nossa frente, mas não temos olhos para a ver. Junto à estação lá estava ele a carregar um baú, com os sacos das empresas, cheio de genica e a dizer algo que eles entendiam, eu não. O outro tinha uma imagem tão diferente! Arrogante, ditador e altivo, mas estavam em sintonia. Funcionava. A nossa vida não é um parâmetro, existem muitas e tão diferentes. Depois da tarefa concluída vi-o afastar-se. Era já de noite. Onde iria? Intrigou-me. Casa? Não resisti. Um murro no estômago. Dormia numa paragem abandonada. deitou-se, tapou-se com cartões e uma manta que já nem sabia a cor e deve ter adormecido. Eu, sem palavras, olhei-o, chorei-o e invejei-o. Como era livre e talvez feliz, aquele homem!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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