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O Escritor e a Detective

“Existem dois tipos de pessoas que ficam o dia todo a pensar em novas formas de matar pessoas”, explica Richard Castle, no primeiro episódio da série policial. “Os psicopatas e os escritores de policiais. Eu faço parte do grupo que recebe melhor pelo que faz.” Foi desta forma que Castle, a série e não a personagem, conquistou um lugar na minha lista de guilty pleasure.

Escritores que auxiliam a polícia na resolução de homicídios não é uma novidade na esfera televisiva. Esta premissa foi originalmente criada a meio dos anos 70 pelos produtores de televisão William Link e Richard Levinson, com a série, que teve vida curta, Ellery Queen. Apesar de não ter atraído grandes audiências e só ter durado uma única temporada, Levinson e Link decidiram apostar na ideia que tiveram e desenvolveram mais o seu conceito, elevando-o, ao criarem Murder, She Wrote. Ao mudarem a localização da acção da série para uma cidade mais contemporânea e calma, como Maine, nos Estados Unidos da América, e ao alterarem o sexo da personagem principal, os dois criaram um programa que acabaria por se tornar numa das séries policiais com mais sucesso e duração da história da televisão.

Castle, pelo seu lado, explora os mesmos territórios que Levinson e Link viajaram na década de 70, 80 e 90, mas aborda a temática “de um escritor que se torna num detective real” de um modo mais arrojado, moderno e com mais estilo. Afinal de contas, o mundo continuou a girar e muitas alterações ocorreram nos gostos televisivos, desde que Murder, She Wrote terminou em 1996. Os clássicos detectives do passado deram lugar aos dramas forenses do presente, onde os aspectos processuais do crime ofuscam o processo intelectual de estudo das pistas para chegar a uma resolução do crime. Castle caminha numa linha ténue entre os processos modernos das séries suas contemporâneas e a sua premissa mais old-school, enquanto mistura em si mesma os seus próprios ingredientes para o sucesso do seu processo. Enquanto que a primeira temporada apresentava elementos mais macabros nos casos investigados, tal como faziam outras apostas deste género televisivo, Castle foi adicionando camadas à sua narrativa, à medida que evoluía. O tomo inaugural, por exemplo, apresentou uma vítima a ser descoberta dentro de uma máquina de secar roupa e um corpo a ser encontrado completamente congelado e sem sinais de degradação. As temporadas seguintes começaram a centrar-se mais em disparos de pistola, facadas e mortes por envenenamento, que, apesar de serem métodos mais mundanos, os elementos que compõem a envolvência dos crimes são os mesmos que constroem uma boa história.

Apesar de outras séries contemporâneas sobre crimes recorrem a movimentos de contra-cultura da sociedade em que se inserem, a sua abordagem pretende apenas ser um contraste humorístico ao tom geral do episódio e apoia-se em generalizações e preconceitos. Os argumentistas de Richard Castle e companhia, ao desbravarem território semelhante, como a fixação por vampiros e S&M, fazem-no com um respeito muito invulgar neste género de séries de televisão. Exemplo disso é o episódio “Vampire Weekend”, da segunda temporada, em que o membro de um culto vampírico é encontrado morto, com uma estaca no coração, num cemitério. Em vez de caracterizarem a vítima como parte integrante de algo demasiado estranho e demente, os argumentistas decidiram espalhar ao longo da narrativa pequenos pormenores que demonstram um respeito e uma compreensão para com esta subcultura. Ao investigarem o apartamento da vítima, Castle e Beckett falam com a senhoria, para saber se ela havia reparado em alguma situação fora do comum, ao qual ela responde: “Aquela fixação pelos vampiros era um pouco esquisita, mas quem sou eu para julgar? O meu primeiro marido gostava de reinterpretar os acontecimentos da Guerra Civil, por isso, digam-me quem é que é mais esquisito.”

Não pretendo com isto sugerir que Castle só se apoia no obscuro para construir as suas linhas narrativas. As motivações que levam as pessoas a cometerem um assassinato estão em sintonia com o que tem sido usado ao longo de histórias da televisão – desde ciúmes à ganância, passando por situações de inocência que fogem ao controlo dos investigadores. As vítimas, pelo seu lado, são uma mistura entre amas, políticos, modelos, damas de honor, cantoras pop, estafetas, negociantes de arte e jogadores de baseball. O que torna Castle em Castle é a capacidade que os argumentistas demonstram ter ao utilizarem o mundano e o fora do comum, o excêntrico e o normal, para construir narrativas fortemente cativantes à sua volta.

Claro que não existe narrativa no mundo que seja o único elemento que consiga prender o espectador a uma série, se os seus personagens não forem igualmente cativantes e, neste ponto, Castle consegue ter nota máxima. Richard Castle (Nathan Fillion), que fala num tom pseudo-aristocrata e quase a sussurrar, tem um bloqueio criativo e, ao ver-se, no início da série, envolvido num caso de polícia, aproveita os seus contactos junto do mayor de Nova Iorque para se tornar no consultor da equipa da belíssima detective Kate Beckett (Stana Katic). Provando ser uma excelente musa, Beckett, eventualmente, acaba por se tornar nas bases para a criação de uma nova personagem para os seus livros com um nome que aparenta ter sido retirado de um fórum de discussão online da Penthouse – Nikki Heat. Tal como a detective de que deriva, Heat tem de, relutantemente, fazer equipa com um escritor que anda à procura de uma boa história para contar – Jameson Rook.

Durante quatro temporadas, existiu uma óbvia química sexual entre estes dois protagonistas (que, graças a Deus, acaba por ser consumada), tal como havia entre David Addison e Maddie Hayes, da série da década de 80 Modelo e Detective. Contudo, enquanto que os óculos de sol, o comportamento pouco ortodoxo e a atitude mulherenga que caracterizavam Addison eram constantemente usadas para avançar a narrativa, os mesmos traços em Richard Castle acabam por ser amenizadas pela sua vida pessoal, que inclui uma mãe teatral (Susan Sullivan) e uma jovem filha (Molly C. Quinn) – as verdadeiras razões do seu ser. A relação entre Castle e a sua família, por ser feita de altos e baixos como acontece na vida real, é genuinamente construída com base no respeito mútuo, na comunicação honesta, na protecção e no amor verdadeiro.

Para a tarefa herculana de ser um protagonista multifacetado, Castle encontrou em Nathan Fillion o actor perfeito para encarnar a sua personagem principal. Escolhido anteriormente para interpretar o Capitão Malcol Reynolds na série de culto (e de pouca duração) Firefly, no início do século XXI, Fillion traz para Richard Castle o mesmo charme que caracterizava o anterior personagem interestelar. Tanto que, por inúmeras vezes, os argumentistas fizeram homenagens à sua antiga personagem de ficção científica, como foi o caso do episódio sobre vampiros que referi anteriormente, onde Castle se mascara com a mesma roupa que Fillion usou em Firefly, ao mesmo tempo que a narrativa foi presenteando algumas referências que aludiam ao western espacial.

É verdade que Castle é feito do mesmo material que fez o sucesso dos dramas forenses actuais e das séries policiais de antigamente, mas, na realidade, este drama policial está, simultaneamente, num patamar completamente diferente, ao aproximar-se, cada vez mais, dos romances ficcionais que Castle escreve. Personagens interessantes, cenários com personalidade própria e uma narrativa aliciante são normalmente as bases de todos os livros que se encontram nas listas de bestsellers de qualquer país e estes mesmos ingredientes podem ser encontrados no enredo e na narrativa de cada episódio de Castle. Aliás, o próprio Richard Castle faz referência aos elementos necessários para um bom livro, no episódio-piloto, quando explica a Beckett as razões que o levam a assistir a um caso de polícia. “Estou aqui pela história”, afirma ele. “Porquê estas pessoas? Porquê estes assassinatos? Existe sempre uma história, uma cadeia de acontecimentos que dá um sentido a tudo. Nós só temos de a encontrar.”

E o mesmo se aplica a Castle.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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