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O enochato

A palavra «enochato» é uma valiosa aquisição da língua portuguesa. Conheci-a num blogue brasileiro, mas desconheço se foi criada pelo autor dessa página. Tem-me dado muito jeito.

Como se depreende, o enochato é uma daquelas pessoas que, num convívio, só fala de vinho e assuntos conexos, desde o aperitivo até ao digestivo. Há os tarados das jantes para automóvel (fui vítima), os fanáticos da engenharia naval (fui vítima), os nerd dos discos de vinil (já nem conto as vezes que fui molestado)… há chatos para tudo. A chatice é um mundo, só que em vez de ser redondo, é chato!

Por imperativos profissionais e lúdicos, deparo-me em situações semelhantes à de ter ido tomar uma banhoca no mar e descobrir que não se tem pé e que se está a 800 metros do areal – é lixado e eu era (era) cromo da natação.

Um dia, numa festa numa cozinha – kitchen party, uau! – a temperatura do sítio era obviamente elevada. Juntou-se uma malta paraJB_oenochato_1 saborear e ver cozinhar um chefe de renome internacional. Uma cozinha não tem mesas, nem cadeiras, muito menos toalhas e guardanapos,  mas havia talheres, pratos (comida artisticamente decorada, como se fosse para a mesa) e bons copos para o vinho (ponto de vista funcional). Íamos no início do aperitivo e perguntei, para fazer sala, a dois comensais:

– Então, o que acham?

– O vinho está dois graus mais quente do que devia.

A outra pessoa disse, com aceno de cabeça, que concordava. Cirandei.

É evidente que os vinhos têm temperaturas de serviço. Não é bizarria, é algo estudado há muitos anos, há mais de um século. As características dum vinho são sublimadas, se for servido à temperatura adequada. Outra coisa é criticar o acerto, quando se está numa festa dentro duma cozinha, em que se sua mesmo, ou num mero momento de relaxamento à beira da piscina, ou à lareira no Inverno.

JB_oenochato_2Uma outra vez conversava sobre gostos. Sublinhei que é tão legítimo gostar-se dum vinho popular, com uma produção de milhões de garrafas, como dum outro, em que a adega cabe numa garagem. Fui fulminado pelos olhares. Pareciam os faróis do Alfa Pendular. [PALAVRÃO] Cada um gosta do que gosta. Sabe o que sabe do assunto e saber pouco pode ser o bastante para gostar de beber um copo de vinho. Diverte-se com o que gosta de se divertir. É a mesma coisa que o direito ao voto – tanto conta a vontade do professor doutor, como o da mulher-a-dias. Além do mais, os vinhos fazem momentos e fazem-se de momentos. Alguém pode dizer que um tinto encorpado, de marca XPTO, calha bem na esplanada da praia? Pode estar-se a jantar romanticamente com a pessoa amada, que qualquer zurrapa é excelente. Pode estar-se a jantar com a pessoa amada, com quem se acabou de ter uma discussão, que um néctar famoso vai saber mal.

O enochato detesta o popular. É como os betos e os fidalgos. Os fidalgos sabem estar em toda a parte e com toda a gente, os betos têm dificuldade em sentarem-se à mesa com um operário siderúrgico. Um enochato teme a aproximação duma garrafa de Mateus Rosé. Em contrapartida, é capaz de enunciar as características climatológicas verificadas no Baixo-Corgo, desde 1930 até ao presente, sublinhando as nuances da exposição solar, grau de declive e altitude. Ok, tudo bem, mas peço a Deus nunca me sentar ao lado de alguém que discute o Ph dos vinhos que estão a ser servidos.

A videira é uma trepadeira muito interessante, que tem a capacidade de absorver – literalmente – o que a rodeia e transmiti-lo às uvas. Cada casta tem aromas e sabores específicos, mas a envolvência são de toda a importância. Um dia ainda abordo essa coisa, que os franceses chamam de «terroir» e que não tem tradução.

Há grupos de aromas e de sabores. Os vinhos podem ser descritos com palavras, mas o enochato consegue com o nariz identificar 350 aromas e 116 paladares. E di-los e escreve-os todos. Se gosto de tangerina, vou apreciar um vinho com aromas cítricos, mas isso não é ser bom, nem ser mau, é apenas. O que pode ser um momento engraçado de conversa à mesa pode agigantar-se como uma tremenda chatice.

Há também alguns grandes temas: metafísica, semi-óptica, física quântica dos vinhos. Retirei-me discretamente duma viva discussão acerca de qual o melhor modo de lavar os copos de vinho. Nem queria acreditar e, por isso, fugi… A ver se não me esqueço das variantes: lavam-se à mão só com água quente; lavam-se à mão com água quente e um pouco de detergente; lavam-se à mão só com água fria; lavam-se à mão com água fria e um pouco de detergente; podem lavar-se na máquina; devem ser lavados com umas esferas que custam uma fortuna. Para mim um copo está apto quando não apresenta odores. Ponto!

Os enochatos são responsáveis por muita gente não querer entrar no mundo fantástico do vinho (cujo prazer, entrada, permanência e saída é livre, são todas de igual legitimidade). Os nerd assustam qualquer um. Parecem extraterrestres que vieram à terra comer-nos os miolos e beber-nos o vinho.

Portanto, que se beba o vinho como se quiser. É bom saber os porquês das coisas, mas é igualmente interessante desafiar as regras, seja por riso, seja por experiência. Aprender acerca de vinhos é recomendável para quem tem essa atracção e há cursos baratos.

As «aulas» cá em casa – à borlix – são brincadeiras. Há os que detestam rosé e mudam de opinião, os que abominam vinhos velhos e espantam-se, quando lhes mostro a garrafa, os que adoraram vinho de qualidade deplorável (qualidade não tem a ver com gosto, ou preferência) servido num decantador, os que detestavam Mateus Rosé e se apaixonaram por um rosado que não viram a garrafa (certo!)…

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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