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O Encantamento do Grand Canyon

As viagens com que há muito se sonha, obrigam qualquer pessoa a saber gerir o entusiasmo quando finalmente acontecem. Por mais que se veja e se viva, fica um pequeno sentimento de que há sempre algo mais para conhecer e o que se viu nunca é o suficiente. Em Las Vegas, há muito para se ver, fazer, viver, mas é obrigatório reservar uma boa dose daquele entusiasmo próprio de quem vê aproximar-se algo esperado. Neste caso, o esperado era um dia reservado para conhecer o Grand Canyon.

Eu confesso que ansiava esta visita por um motivo diferente. Claro que queria ver o Grand Canyon, testemunhar o local e a sua beleza que tantas vezes vira em imagens desde muito novo. Porém, a minha motivação estava na viagem em si. Iria servir como um treino para a minha road trip que se aproximava.

São cerca de duas horas e meia a três de viagem. E vale a pena demorar um pouco mais para fazer um pequeno desvio e ver a grandiosidade do engenho do homem expresso na Barragem de Hoover.

Vista aérea sobre a Barragem de Hoover
Vista aérea sobre a Barragem de Hoover. Nas margens, a diferença de cores nas rochas, é uma consequência da seca severa que grassa no sudoeste dos E.U.A.

Foi durante muito tempo a maior barragem construída pelo homem. Hoje ainda impressiona pelo tamanho mas especialmente na comunhão com a paisagem árida e dourada das montanhas que a envolvem. E depois o forte contraste dado pelas águas azuis do grande lago estagnado. Impressionou também perceber o baixo nível da água do Lago Mead, o imenso reservatório que estende por dezenas de quilómetros. Há algum tempo que o sudoeste do EUA encontra-se em seca severa. A cor quase branca das rochas antes submersas pela água são um forte testemunho e conseguem transmitir o dramatismo que tal significa. Caminhar no topo da barragem, sendo apenas mais um turista, transmite-nos paz, mas saber as consequências do baixo nível das águas, deixam-nos a pensar nos momentos difíceis estão a ser vividos por quem delas dependem. Sabendo-o ou não, meia hora ali passada nunca é tempo perdido.

Retomada a viagem. Condução calma e alegre, em camaradagem, queimando quilómetros de auto-estrada por vários até que por fim chegamos ao desvio para o Skywalk, localizado na ponta oeste do Grand Canyon, e por isso o local mais acessível via Las Vegas. Conduzir neste momento é algo novo. Temos que nos encostar à faixa mais à esquerda, abrandar, virar e parar num sinal de stop no separador central antes de atravessar as faixas contrárias da auto-estrada. Pequenas experiências. Segue-se mais uma hora de condução pelo deserto, por entre montanhas douradas pelo sol, e atravessando pequeníssimas localidades.

Finalmente aproxima-se o destino. Nada se vê além de uma planície limitada no horizonte por uma linha de um planalto que termina ali de forma abrupta. Sente-se alguma estranheza. Da enorme monumentalidade do Grand Canyon, nem um sinal, nem um aceno ao nosso olhar. É em território da Reserva dos Índios Hualapai, a bordo de um autocarro, que surge o impacto da primeira vista sobre o Grand Canyon. Já bem perto, o solo parece abrir-se de repente. Vemos a parede do desfiladeiro no lado contrário desaparecer nas profundezas da terra, toda a paisagem em volta perde importância. Os olhos apontam para baixo. É o surgir de um enorme vazio na planície calma e regular, como receber um beijo inesperado.

Só parado a centímetros do desfiladeiro, observando o fio castanho do Rio Colorado no fundo, é que percebi a verdadeira dimensão do que é o Grand Canyon. Especialmente em Guano Point, local de onde se observa o desfiladeiro a toda a volta e por isso com outra dimensão. Eu confesso que não tinha grandes expectativas sobre esta visita. Queria fazê-la mas não acreditava que aquele local conseguisse dar muito mais do que o que já conhecemos em imagens, que de tão repetitivas, chegam a cansar. O facto é que o sentimento que ali se sente torna-se avassalador pela beleza da paisagem. A noção de grandeza perde significado, olhamos para o desfiladeiro e não vemos um único pormenor na paisagem que nos dê uma referência em relação ao tamanho, à profundidade, à altura. Amedronto-me chegar ao Cabo da Roca e aproximar-me da falésia, ali sem problemas pisei os últimos centímetros do chão antes de desaparecer no vazio. O Rio corre no fundo, a mais de mil metros de profundidade e parece estar tão perto, matando qualquer sinal de vertigem ainda antes dela se manifestar. E longe ao mesmo tempo, porque faz parte de uma visão única, de um quadro onde a natureza tem uma força extraordinária, torna-nos ínfimos seres e conquista-nos com o silêncio e a paz que transmite. Tem uma beleza única que se revela apenas no momento em que ali a sentimos, como se ela fosse um espírito que nos toca e nos encanta. Deixa-nos uma marca indelével mas infinita, e ninguém esquece o que sentiu ao ser parte daquela paisagem.

O Skywalk, no topo da imagem dá uma noção das dimensões no local.
O Skywalk, no topo da imagem dá uma noção das dimensões no local.

Apenas vi uma pequeníssima percentagem do Grand Canyon, mas posso dizer é o local mais bonito que alguma vi. Depois deste dia, desta visita, a viagem transformou-se radicalmente, tornou-se mais introvertida e espiritual. E eu também.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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