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O encantador de gatos

De Sexta a Quarta-feira, o quinquagenário Sebastião Guedes era o coveiro da Vila. Gostava do seu trabalho; tinha passado a infância a trabalhar no cabeleireiro da mãe e, cansado das tagarelices e cusquices das mulheres, ao fazer 20 anos candidatou-se ao trabalho mais silencioso que conhecia: coveiro. Mas, apesar de gostar do seu ganha-pão, a Quinta-feira de folga para Sebastião era sagrada. Era o dia em que ele conseguia fazer o que mais gostava, para grande encanto de todos.

Ninguém sabia como era a sua manhã, mas já todos conheciam a sua rotina da Quinta à tarde, e as folgas do Sebastião eram sempre dias de festa para todos na Vila. Ele vestia um colete preto com arabescos vermelhos em cetim, umas calças de ganga pretas, já um pouco russas do uso, e uns ténis beige de reformado, para estar confortável. Pegava na sua gaita de beiços, cromada e sempre impecavelmente polida, lanchava no café do parque da Vila – meia torrada e um galão – e olhava pensativamente para as árvores. E assim que a igreja anunciava as seis da tarde, ele levantava-se lentamente, pagava, e começava o seu espectáculo – ou o que as pessoas da Vila consideravam como tal, porque para Sebastião era o seu sonho.

O ritual iniciava com uma caminhada por todo o parque, a passear e a admirar a natureza. Poucos minutos depois, como por um chamamento mágico, começavam a aparecer os gatos. Aparecia o primeiro, miando baixinho; depois o segundo, ronronando; e depois três ou quatro ao mesmo tempo; quinze; quarenta. Saíam do sol, onde descansavam quentinhos; saíam do meio dos arbustos, onde se escondiam em busca de ratos; deixavam a comida ou as fontes com água. Vinham de todos os lugares, e corriam atrás de Sebastião com uma certa urgência nos olhos e nos movimentos. Após dar essa primeira volta pelo parque, seguido pelos gatos que iam surgindo e que miavam atrás de si, Sebastião escolhia um dos bancos de madeira e sentava-se. Os gatos ficavam parados, rodeando-o completamente, observando-o atentamente, como se ele tivesse um pacote de fiambre no bolso. E aí Sebastião pousava os seus óculos de ver ao seu lado no banco, ajeitava o cabelo branco, liso e comprido, fechava os olhos solenemente, e levava a gaita de beiços aos lábios.

Ninguém ficava indiferente ao som triste e emocionante que saía da alma daquele coveiro. Muitos choravam sempre que ouviam, embora não perdessem nem um dia o acontecimento mágico. E quando, à terceira ou quarta nota, o baile dos gatos começava, toda a Vila sustinha a respiração. O único som audível era o do instrumento, pois nem os gatos, com os seus movimentos silenciosos como ninjas, faziam qualquer ruído. O vento parava, os pássaros calavam-se, a chuva não caía nesses minutos emocionantes. Como se fossem fantoches controlados por algum mestre titereiro, os gatos bailavam. Rolavam de um lado para o outro, como se estivessem coreografados. Rodavam sobre si próprios e sobre outros. Davam um passo para a frente, um passo para o lado, e rebolavam elegantemente. Uma valsa felina. Um tango felino. Um ballet mágico de gatos, que fazia o coração bater mais rápido ao testemunhar aquele momento bonito e especial. E Sebastião não abria nem uma vez os olhos para ver a magia da sua música, talvez por medo de quebrar o feitiço, e continuava a tocar emocionado, com lágrimas a caírem-lhe dos olhos fechados. A música era triste, parecia contar histórias trágicas de outros tempos. Às vezes, os gatos até miavam em uníssono, com um miado triste e dorido, abandonado, que acompanhava em coro as partes mais tristes da música de Sebastião. E continuavam a dançar, dançar, dançar.

Quando a música de Sebastião começava a chegar ao fim, os gatos iam-se dispersando, como que acordando de um sono hipnotizador, e seguiam as suas vidas. Após a última nota, quando Sebastião abria os olhos, já nenhum gato sobrava e tudo parecia um sonho que nunca tinha acontecido. Ninguém abria a boca. Ninguém fazia um ruído que fosse. Ninguém se atrevia a mexer.

Ele sorria às pessoas, limpava as lágrimas e punha os óculos. Guardava a gaita de beiços num dos bolsos do colete, levantava-se, passava entre a multidão que ainda permanecia muda de assombro e de emoção, e desaparecia para a sua casa.

Só aí é que o vento voltava a soprar, a chuva começava a cair, e o tempo voltava a andar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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