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Ciências e TecnologiaTecnologia

O elogio do corpo ou um passo em frente para o fim do humanismo.

Assistiu-se, no passado dia quinze do mês de Outubro, ao “nascimento de um novo cyborg” (por Joe Dekni).

Foi desta forma que a notícia [quase] que correu o mundo – infelizmente passou bastante despercebida, todavia, não é algo que seja motivo para admiração. Contextualizemo-nos:

Joe Dekni, “artista, ou talvez alquimista”, realizou no mês passado uma performance transmitida em directo. A actuação consistiu em implantar, nas orelhas, um dispositivo electrónico que lhe permite a aquisição de um sexto sentido: a ecolocalização. Doravante, o “novo cyborg” será capaz de receber os micro-estímulos do mundo circundante e interpretá-los de modo a “perceber o físico e o paranormal, invisível à capacidade humana […]”.

Tal performance abre espaço para o levantamento de diversas questões: Se Joe Dekni participou de forma passiva na actuação não terão sido os cirurgiões os verdadeiros performers? Ou terá Joe Dekni adquirido verdadeiramente um sexto sentido ou terá feito apenas o piercing-mais-cool-de-todos visto que, ignorando os estudos que comprovam que o ser-humano comum é também capaz de desenvolver tal capacidade, sujeitou-se somente a apressar um processo natural por si só? Ou ainda e agora sim, o transhumanismo chegou e trouxe consigo a confirmação ingénua do esquecimento da dimensão ética e cultural próprias do ser humano.

Observamos que o contínuo – e inconsequente – avanço das ciências positivas e da tecnologia moldaram a nossa maneira de “ver”, “conhecer” e “perceber” o mundo, colocando-nos num paradigma social onde é dada total primazia ao corpo sob pena do esquecimento da humanidade e do próprio humanismo.

My body, my rules.” Nada contra, aliás, totalmente de acordo, mas, como nos diz Jorge Palma, por não podermos ver ao longe estaremos a correr o risco de ir longe demais? É que, numa altura em que já nos encontramos capazes de analisar as graves consequências ambientais provocadas pelo avanço da ciência e da tecnologia praticadas sob o mote “conhecer, prever e dominar o mundo” e estando agora a correr atrás de um prejuízo, não estaremos a caminhar na direcção de um outro? A verdade é que as ciências humanas já não têm um lugar de debate numa sociedade dominada pelo que é físico e, como tal, “Vivemos […] este ambiente de suspeita e de desumanização resultante das confusões a que nos conduziu no Ocidente o antropocentrismo pós-nominalista.” Tal como nos alerta Maria Luísa Portocarrero, professora de Filosofia na Universidade de Coimbra.

Talvez por medo da crise, pelo elogio do prazer, pelo reconhecimento da finitude, pela recusa da morte, mas principalmente – e isto é que é o chocante – pelo egoísmo próprio de um tal antropocentrismo acentuado e nunca ultrapassado abriu-se um espaço de desenvolvimento de um paradigma psicossocial onde a pura subjectividade aponta para um individualismo louco e perigoso que isola cada humano numa esfera própria, afastada do real, porém mascarada pela ideia de progresso e desenvolvimento do homem; um homem que é só corpo, um homem que é só limite, um homem que não deve questionar mas fazer e, acima de tudo, um homem que nasce e morre sozinho no meio de tantos outros que são igualmente fechados sobre si próprios.

A verdade é que lutamos contra uma ideia de humano puramente positivista, resultante de uma sociedade que pretende esconder um passado existente, optando, por outro lado, por reduzir a vida e o corpo a um bem de consumo feio e com um prazo de validade curto onde devem ser aplicados todos os corantes e conservantes que foram retirados dos bens alimentares.

Devo reconhecer, contudo, que a curiosidade e o desejo são próprios do ser-humano e que sempre foi natural procurar expandir e conhecer o que nos é exterior, seja ir até à Lua sem conhecer o fundo dos oceanos, seja praticar a ecolocalização pela tecnologia sem desenvolver naturalmente todo o potencial da visão e da audição, e quero ainda ressalvar que não pretendo fazer qualquer tipo de ataque ao desenvolvimento tecnológico e ao avanço da ciência, todavia, noto que a relação do homem com a técnica deve ser [re]pensada, pois reparo o quão fácil é o retomar da vida após a passagem de uma estranha Leslie, mas não o é tanto quando a intempérie é o estranhamente-habitual isolamento, niilismo, depressão, entre outras patologias mentais, provocadas pelo esquecimento dos vários modos-de-ser do humano.

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Ivo Santos

Músico algarvio e estudante de filosofia conimbricense. Entre Nietzsche, Leonardo Coimbra, Deleuze, ou Lipovetzsky é muito bom escutar também Charles Mingus, Michel Camaro, Roy Ayers, Snarky Puppy - o mesmo se diz para ler Ângelo de Lima, Almada Negreiros, Jorge Sousa Braga ou Álvaro de Campos.

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