ContosCultura

O elevador do mundo

Ouviu o som agudo mas suave do elevador a anunciar que tinha chegado à Terra. Abriu-se. Era um elevador espelhado e grande, onde caberiam todas as almas que ela tivesse de recolher. Mas naquele dia, sem entender bem porquê, só lhe tinha sido encomendada uma: aquela criança com um olho de cada cor. O olho castanho vê a terra e o olho azul vê o céu, tinha-lhe ele explicado. Precisamos dela, tinham-lhe assegurado.

Entrou no elevador, empurrando a criatura chorosa à sua frente. A menina sentou-se no chão, encostada ao espelho, segurando nos joelhos. Soluçava de medo e incompreensão. Pela primeira vez, ela questionava-se. Nunca tinha acontecido, em vários milénios de existência, e não compreendeu. Lembrava-lhe uma vida anterior, longe, de preocupação e bondade. Já não tinha a ver com ela. Já não tinha. Há tanto tempo que ela era alguém diferente… Olhou para a menina: bom, agora já ali estavam. Não havia nada a fazer.

O elevador começou a descer, automaticamente, e ela olhou para as mãos, que tremiam. Olhou para a menina que continuava encolhida numa esquina. Não se deu ao trabalho de lhe dar a mão, de a levantar. De vez em quando, a menina olhava para ela entre lágrimas e ela quase que teve pena; compreendeu, de repente, que aquela criatura era apenas uma criança. Suspirou e fechou os olhos, sentindo chegar uma enxaqueca terrível. Abriu-os. Olhou para a porta cromada do elevador, mas o elevador parecia vazio. Elas não tinham reflexo.

Olhou para o botão que estava iluminado, para o destino que as esperava, como se não houvesse certeza e só conseguisse distinguir as dúvidas dentro dela. “Inferno”, dizia. Claro. Claro que dizia. Por momentos ficou desiludida. Por segundos, sentiu a tentação de carregar no terceiro botão, aquele que anunciava “Céu”; sentiu uma pequena possibilidade de mudar de vida, de rumo, de planos. Pensou no que poderia acontecer se contactasse algum anjo, algum profeta. Olhou durante muito tempo para o botão do “Céu”, quase tanto tempo quanto o elevador demorou até chegar ao destino. Ouviu de novo o o som agudo mas suave do elevador. “Plim”. Enquanto as portas abriam, estendeu a mão em direcção à criança, num gesto de conforto e companhia, mas sem conseguir olhar para ela. Olhava para os seus próprios pés, e sorria tristemente àquelas pequenas ilusões que às vezes tinha. Mudar de vida. Impossível, claro; aos demónios, não se lhes permite mudar de vida.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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