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HistóriaSociedade

O ‘Dolce Fare Niente’ da Primeira Guerra Mundial

Hoje em dia debatemos muito sobre o balanço entre o trabalho e o descanso e como devem ser aproveitados os momentos de lazer, mas como é que as tropas na frente de guerra, durante a Primeira Guerra Mundial, se distraiam num conflito que não parecia ter fim? Todos nós já lemos ou vimos um documentário sobre as condições com que as tropas tinham de viver nas trincheiras, instaladas muitas vezes a poucos metros do inimigo e sob constantes ataques frutíferos e de bombardeamentos. As tropas tinham de passar por dificuldades horríveis para conseguirem infiltrar-se em terreno inimigo, ou a entrar em confrontos directos com os seus opositores em terrenos perigosos. Será esta a única realidade que se conhecia na vida nas trincheiras?

A Primeira Grande Guerra durou quatro longos anos e foi, essencialmente, uma guerra estática a decorrer nas trincheiras que percorriam a costa da Bélgica, passando pelo norte da França e pela fronteira da Suíça. Inevitavelmente, existiram grandes confrontos, como foi o caso da Batalha no Suez, que reclamou a vida a 20 000 soldados, e as tropas que se encontravam na linha da frente corriam o risco constante de serem alvo de algum disparo de snipers, ou de bombardeamento de artilharia. No entanto, a verdade é que os soldados passavam tanto, ou mais tempo atrás das linhas de combate, ou em sectores sossegados das trincheiras. Tanto que os oficiais que estavam no comando reconheciam que era o tédio e a inactividade que eram, potencialidade, o seu maior problema, já que podia, facilmente, levar à queda da moral dos homens e a que tivessem demasiado tempo para pensarem nos perigos que viviam diariamente.

Grandes ataques eram acontecimentos raros e as invasões às trincheiras decorriam sempre escondidos no escuro da noite, sendo que a maioria dos dias era rotineiro. A maioria dos batalhões escalonava os seus soldados rotativamente, onde, primeiro, passavam algum tempo na linha da frente, depois iam para as trincheiras de apoio, para a reserva e, por fim, tinham direito a um período de descanso longe das linhas de combate. Estima-se que as tropas não passariam em média mais de cinco dias por mês nas linhas de combate, mas cinco dias com bombardeamento constantemente, lama, água gelada até aos joelhos e rodeados de cadáveres, ratos e outros vermes é mais do que suficiente para qualquer um.

Escrever Cartas e Outros Passatempos

O quotidiano nas trincheiras poderia ser verdadeiramente aborrecido. Os oficiais tentavam preencher o tempo livre dos seus homens ao dar-lhes tarefas, como reparar danos existentes nas trincheiras, trocar o arame farpado danificado e encher sacos com areia. Algo que não era suficiente e que deixava ainda bastante tempo livre. Um dos passatempos favoritos dos militares era ler e responder às cartas enviadas pelos seus. Os homens na guerra dependiam destas cartas para terem notícias das suas terras de origem e reforçar o seu espírito. As cartas que eram enviadas da guerra não abordavam os horrores vividos pelo seu escritor, mas descreviam, sim, uma versão mais positiva (dentro do possível) da sua rotina diária. É estimado que, aproximadamente, 12,5 milhões de cartas eram enviadas para os homens na frente de guerra junto à fronteira alemã oriundas de esposas, namoradas, familiares e amigos.

Envio de recordações da terra do soldado também era algo muito apreciado e permitiam-lhes ter acesso a cigarros, cascóis, luvas, doces, bolos e chocolates. De todos os itens enviados, provavelmente, o mais popular era a comida, porque significava uma pausa da rotina que eram as rações comidas nas trincheiras. Os soldados também liam, tinham diários de guerra, escreviam poesia, desenhavam e jogavam, enquanto estavam nas linhas de defesa.

Períodos de Descanso era Sinónimo de Trabalho

Infelizmente para os homens que serviram durante a Primeira Guerra Mundial, os períodos de descanso não significavam que poderiam estar deitados a relaxar. Apesar de ser um tempo mais calmo do que aquele passado nas linhas da frente, as áreas de descanso eram um alvo fácil para um ataque inimigo, com um bombardeamento, ou um ataque aéreo. Normalmente, as suas camas e outras cortesias eram mais confortáveis e a comida, servida com mais regularidade, tinha mais qualidade, mas continuavam a ter de efectuar tarefas, uma vez que os seus superiores seguiam a regra de que o “diabo ataca, quando menos se espera”. Eles tinham exercícios físicos para fazer, tinham palestras para assistir, limpar os seus materiais de combate e a oportunidade de terem acesso a executarem a higiene correctamente. Eram colocados a reparar estradas, a construir acampamentos e a criar novas trincheiras. Durante este período, era também possível realizar exames médicos e tratamentos necessários aos soldados.

Eventos Desportivos

Era tido um grande esforço para organizar eventos desportivos e momentos de interacção social, para que fosse possível manter as tropas em forma e promover o espírito de equipa. De entre os desportos mais populares, era possível encontrar o futebol, o rugby, o críquete, o boxe e o atletismo, sendo que, como existiam muitos jovens a cumprirem o serviço militar, as equipas formadas eram sempre de imensa qualidade, já que muitos dos que participavam nestes eventos eram jogadores federados, quando a paz reinava. Era também possível ver, durante os eventos desportivos, desfiles com os cavalos do regimento, que permitiam treinar os cavalos para serem mais ágeis em campo.

Música, Teatro e Serviços Paroquiais

A música e o teatro eram meios de entretenimento muito populares, existindo eventos organizados, onde coros e bandas faziam tournées pelos campos de descanso, para actuarem para as tropas, e os soldados também encenavam alguns momentos de comédia para se manterem entretidos. Paralelamente, os perigos e os horrores que viviam fazia com que sentissem uma ligação especial com a igreja, local em que poderiam ter algum consolo e rezar um pouco. Os soldados teriam acesso a uma capela militar, ou, então, um padre presidia as orações de Domingo e às missas especiais, antes de irem para o campo de batalha. Era também comum ver um padre a dar a extrema-unção aos homens que estavam às portas da morte, sendo que para o fazerem os homens ao serviço de Deus teriam de se colocar em grande perigo, e realizavam os serviços fúnebres necessários. O padre tinha ainda o papel de confidente dos homens que desejavam confessar-se junto dele, chegando a ajudar os soldados analfabetos a lerem as cartas de casa e a responderem-nas.

A ida aos Bordeis

Quando tinham muito tempo de dispensa da frente de guerra, era comum que os soldados se fossem divertir para as cidades e para as vilas próximas das trincheiras. Grande parte deste tempo era passado em cafés e bares locais, onde procuravam ter acesso a uma boa refeição e algumas bebidas, mas alguns homens acabavam por beber de mais e iam gastar o seu ordenado em bordéis. Como existiam muitos jovens saudáveis a cumprirem o serviço militar não é de admirar que existem sempre bordéis perto das trincheiras e que exercessem uma actividade legal.

Aliás, os seus superiores encorajavam estas actividades pecaminosas, já que acreditavam que eram de particular importância para os homens casados, que poderiam ficar frustrados por estarem longe das suas mulheres, tendo como consequência uma quebra na moral e na performance no campo de batalha. Porém, havia uma distinção entre as patentes, já que os cabos teriam de ir a bordéis com raparigas, mobília e bebidas de baixa qualidade, enquanto que as altas patentes iam a estabelecimentos com boa mobília, raparigas bonitas e onde chegavam a beber champanhe.

A vida nas trincheiras era cruel, terrível, uma existência desesperadamente desconfortável, onde todos corriam o risco de serem mortos, ou feridos e em que o quotidiano incluía ver os companheiros de armas a morrerem. No entanto, em todas as frentes existiam momentos de relaxamento, camaradagem e diversão. Para um soldado nas trincheiras, os seus companheiros eram o bem mais precioso que eles tinham, portanto, aproveitavam todas as oportunidades que tinham para relaxar e darem algumas gargalhadas, participarem em alguns desportos, verem um concerto, beberem algumas bebidas, ou, simplesmente, conversar a beber uma chávena de chá.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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