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ContosCultura

O dia na praia

Domingo era aquele dia que fazia falta a todos. Era o dia da família, de estarem juntos, de contarem as suas vidas, as peripécias da semana, os sonhos e os contratempos. Era o dia de quase obrigação. Tempo de ficarem juntos e falarem. Mas aquele domingo foi diferente. Foram à praia e tudo mudou a partir daquele dia. Tudo!

Estavam constantemente a gozar com aquelas famílias que levam os tachos com arroz de tomate para a praia e os carapaus fritos. Achavam-nas parolos e riam muito. E ainda daquelas que se davam ao trabalho de levar a panela de pressão. Que ridículo. Só faltava o garrafão. Símbolos típicos portugueses, claro. Para evitar essas incongruências fizeram sandes, muitas porque a praia abre o apetite e compraram pacotes de sumos. Tudo descartável e voltariam de braços leves, só com as toalhas e pouco mais.

Para a experiência ser ainda mais aproximada da realidade foram de camioneta. Nada como o contacto com a verdade para se ter a noção do que é verdadeiro. E o povo anda de transportes públicos e não de carro. Isso era o que queriam, mas não podem. Estavam excitadíssimos. Que divertido que ia ser.

Primeira dificuldade, onde se apanha a camioneta? Perguntaram a todos e ninguém sabia. Deve ser no local mais a direito no caminho. Praça de Espanha. Superada. Depois de saírem do metro quase que têm uma coisa! A fila é enorme! Como é possível? Segunda dificuldade. Quando chega o transporte as pessoas empurram-se e não respeitam o lugar de quem está à frente. Querem entrar e é um salve-se quem puder. Entram, empurram, dizem palavrões e pisam os outros. Ficou cheia e não havia lugar para eles. Tinham que esperar pela seguinte.

Quem espera desespera e foi a primeira vez que perceberam o que é mesmo esperar. Calor, nada de sombras, barulho, gente sem educação e uma vontade enorme de ir embora. O melhor é comer qualquer coisa, ajuda a passar o tempo. Terceira dificuldade, ultrapassar a incerteza. Existe um horário, mas não quer dizer que seja cumprido. Quando chegar o autocarro é entrar, como os outros para assegurar lugar. Entretanto come-se uma sandes e bebe-se um sumo.

Chega o dito cujo e tiveram todos lugares, uns sentados e outros em pé. Quarta dificuldade, chegar à praia num veículo apinhado, onde a maior parte dos passageiros não toma banho e vai de braçinho levantado. É um odor perfumado a sovaco não depilado onde se instalam os resíduos, que até dói. Quinta dificuldade, o equilíbrio para não cair. Ao atravessar a ponte há aquela sensação que se vai tombar. Para a frente, para trás, para o lado e mais outro, uma ginástica que dá para pensar se vale a pena tanto esforço. São os sacos a baterem em quem vai sentado, os encontrões, tudo.

Finalmente chegam ao destino. Deixá-los sair todos e, mesmo assim, tentam passar por cima. A praia não se esgota, mas não pensam assim. Depois de umas pisadelas saem todos. Respirar! Ufa! Ar puro. Que mal cheirava lá dentro. Devem vir à praia para tomar banho. Olha, que chatice! Um dos sumos abriu-se e está tudo molhado. Vai secando. Logo se lava. Faz parte.

Sexta dificuldade, encontrar lugar para colocar a toalha. Está cheia, a praia, a abarrotar! Vamos até à outra. Também está. O que vale é que há muitas. Caminham e já há fome outra vez. Nova sandes e novo sumo. Estão mais leves. Ficam na última. É mais longe e menos gente. Não é que haja muita privacidade, mas não estão tantas pessoas. Estendem a toalha e verificam que, das coisas que tinham vindo de casa, mais de metade já foi gasta. Menos peso. A toalha está molhada do sumo, mas também faz parte. Vamos ver como está a água. Correm todos até aquela zona húmida, mais fresca e repleta de heróis. Sim, são heróis porque a água está gelada.

Voltam para cima e metade das toalhas desapareceram. E um dos sacos. Foram roubados. Mas como? Quase não demoraram! Como é possível que estas coisas aconteçam? O dinheiro? Os telemóveis? Ufa! Estavam embrulhados com o resto das sandes e não deram por isso. Oitava dificuldade, manter a boa disposição depois de um assalto. Sentam-se nos cantos das toalhas, desanimados. Bolas! Que chatice! Não vamos já regressar, pois não? Ficamos conforme combinado.

Entretanto chegam mais pessoas e instalam-se ao seu lado. Os miúdos são uns choramingas e os pais uns bananas. Ninguém se entende e o barulho torna-se ensurdecedor. Chama-se a atenção? A praia é de todos mas há limites para a proximidade, não há? É politicamente incorrecto mudar de lugar e também não se pode dizer nada. Ai que treta. Nona dificuldade.

Quando aceitam a má vizinhança e já nem ouvem, vem de lá uma bolada na mona! Irra! Isto hoje não está a correr nada bem. Desculpe, foi sem querer. Vá lá, não tem importância, responde educadamente. Há gente muito estúpida! Como têm uma casa pequena vêm expandir-se para a praia. E os outros não contam, não são gente? Que falta de chá. Vai mais uma sandes. Ups! A bola acertou mesmo em cheio nas sandes e há areia por todo o lado. Bem, sacode-se. É a última. E os sumos já acabaram. Décima dificuldade.

Vão à água, à vez, para não serem novamente espoliados dos bens restantes. Que calor! E não vieram os guarda-sóis. Décima primeira dificuldade. Vão torrar e não há água. O bar está aberto. Devem vender água. Vender é uma força de expressão, é uma roubalheira! Caríssimo. Mas alivia a sede. Décima segunda dificuldade. Mas aprende-se a lição. Vem lá o homem das bolas de Berlim. Que tentação! Praia sem bolas de Berlim e batatas fritas nem sabe a nada. Ui! Outra vez a mão no bolso. É o preço da sazonalidade. Décima terceira e aprendida.

O regresso é um autêntico filme de terror! Todos ao molho, sem maneiras, a empurrar e o cheiro, apesar de misturado com bronzeador e protectores solares, dá vontade de vomitar. O cansaço é tão grande, quase tão grande como a fome e a sede. Nunca mais estão em casa. Acidente antes da ponte. Mais tempo. E agora estão todos de pé. Décima quarta dificuldade.  Mais empurrões e não se pode abrir a janela porque incomoda o bebé que está a dormir. Décima quinta dificuldade. Todas arrumadas e certinhas. Lições para a vida.

O sal e a areia picam e incomodam à séria. Ai que saudades do carro, para se ir onde se quer, das tardes de domingo em família e do descanso. Amanhã é segunda feira e estão tão cansados que não vão ter força para trabalhar. A praia cansa e, para quem é inexperiente nestas andanças, ainda é pior. Décima sexta dificuldade.

O metro até sabe bem. Está fresquinho e tem lugares. Dói tudo, mas a alma ainda é a que está pior. Que dia! Que experiência que não querem voltar a repetir. Praia ao domingo e de transportes públicos nunca mais! Décima sétima lição aprendida. O metro é reconfortante.

Após o banho caem redondos na cama, mesmo sem comer. Irra! Isto de ser do povo é muito cansativo. Não é qualquer um que aguenta. Ai o povo que cheira mal dos sovacos e que fala muito alto, tem que aguentar cada coisa…

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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