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O dia em que o mundo parou – 1

Ele estava morto. Ou talvez não estivesse. Ela não sabia. Não fazia ideia. Naquele dia, caminhava mais conscientemente do que nos dias anteriores, sentia o salto agulha dos sapatos a equilibrarem-se na calçada, sentia a sola a esmagar as folhas caídas. Olhava em frente, confiante, e tentava não pensar naquele desconhecido.

Olhou para os lados para não ser atropelada. Irónico. Talvez merecesse. Mas naquele dia não pensava assim. Naquele dia só pensava que era uma mulher talentosa, boa pessoa, excelente empresária, e que tinha tudo a perder, que não merecia essa pequena vírgula no seu destino. Pensou nela, no dinheiro, na família, na liberdade – por esta ordem. Não se dignou a pensa no desconhecido, pois senão teria de lembrar-se que tinha uma consciência e desataria a chorar no meio daquela rua.

Andou firmemente até à sua empresa. Decidiu cumprimentar o segurança, o que não costumava fazer, e esperou pelo elevador que a levaria ao seu escritório. Entrou no elevador, como se fosse outro dia qualquer. Pensava nos clientes que tinha, nos problemas do trabalho, nos documentos que tinha de redigir, ler, assinar, nos telefonemas que tinha de fazer. Recusava-se a pensar no que quer que fosse para além daquelas quatro paredes. Disse um rápido “bom dia” à sua secretária e aos colegas com quem se cruzou, e entrou no seu gabinete. Despiu o casaco, atirou-o para as costas da sua cadeira, e sentou-se pesadamente. Pensou em beber um copo de whisky, mesmo que fossem 9 horas da manhã. Mas isso ainda seria pior, considerou.

O telefone tocou, e ela atendeu rapidamente, quase desesperadamente.

Um cliente, dos que mais investia. Atendeu com todo o seu charme, e falou durante uma hora, explicando, argumentando, rindo, até flertando um pouco, para o fazer concordar em passar-lhe um grande cheque. Sorriu – aquelas botas magníficas e carérrimas já estavam compradas. Pensou em ir buscá-las à hora do almoço. Durante cinco minutos, tudo lhe pareceu perfeito e no lugar. O mundo parecia ter voltado à sua harmonia, e ela permitiu-se esquecer o pequeno percalço daquela manhã. Ia pedir um café à secretária quando o telefone tocou de novo.

“Patrícia, pode trazer-me um café?”

“Claro, claro! Mas… Dra. Paula, está aqui a polícia.”

Ficou branca. “Polícia?”

“Sim, pedem para falar consigo…”

“Dê-me cinco minutos e depois mande-os entrar, por favor.”

Desligou o telefone e pôs as mãos no cabelo. Pensou em fugir, em mentir, em seduzi-los. Olhou para a janela, mas não fazia sentido fugir. Pensou como a empresária que era, e a solução pareceu-lhe simples: ludibriá-los. Ainda não sabia o que eles sabiam, se seria até por causa daquela manhã, por isso decidiu primeiro descobrir o que queria dela, antes de mentir ou de pensar em qualquer plano de escape. Mas nunca poderia ser apanhada. Não o merecia. Suspirou.

(continuará?)

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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