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O dia do nascer do sol

Abriu os olhos assim que sentiu o relógio a parar. O quarto estava escuro e ela permitiu-se ficar à escuta. Nada. Não sabia o que esperava, ela tinha sentido os ponteiros do relógio a parar, como é que ainda os queria ouvir?

Levantou-se e vestiu o robe. Lá fora, ainda estava escuro. Sentiu, ironicamente, que tinha a ver com a sua alma. Tinha decidido tomar uma decisão e acabar com aquela tristeza de onde não saía há meses, daquela espiral funda e suicida onde não conseguia respirar. Foi até à cozinha e fez um chá, com calma. Entrelaçou os dedos à volta da caneca como se abraçasse aquele pedaço de felicidade. Só precisava disso, de sentir o calor de uma taça de chá entre as mãos, nem que fosse pela última vez. Não sentia falta de café, nem de doces, nem de nada daquilo que pensou que iria ter saudades – só sentia a necessidade de conforto.

Abriu a janela que dava para a varanda e olhou para baixo. Considerou as possibilidades que tinha de morrer ou de sobreviver se caísse. Embora tantas vezes tivesse considerado o suicídio uma opção tão válida como outra qualquer, sentiu um nó na garganta e teve vontade de chorar. Sentou-se numa cadeira de verga na varanda, sentindo o frio da madrugada a entrar-lhe nas narinas, na garganta, a acordá-la. Fechou o robe que tinha vestido, e chegou a taça ao coração, como se desse um abraço a todas as pessoas que tinham desaparecido da sua vida.

Tantos meses numa depressão. Tantos meses perdida.

Bebeu um gole do chá quente e deixou-se estar na cadeira de verga, convencida a tomar a decisão que durante tantos meses lhe tinha fugido, que durante tantos meses ela tinha ponderado. Levantou-se. Olhou para a rua, para o chão longe.

“Hoje não.”

Entrou na sala e procurou o telemóvel. Enviou uma mensagem ao psiquiatra que a tinha acompanhado até ela decidir desistir de tudo e esconder-se. Há quantos meses não saía de casa? Há quantos meses não acordava de dia, longe da sensação de estar perdida debaixo de água, sem respirar? Há quantos meses não acordava lúcida, sem drogas? Orgulhou-se de ter dado um passo importante.

Depois, sentou-se de novo na cadeira de verga e bebericou o seu chá quente até o céu ficar cor-de-rosa. Até o céu se mostrar azul. Até o sol aparecer. E ficou ali, a sentir-se de novo viva, a sentir-se de novo no mundo. E depois de vários meses na escuridão, viu o nascer daquele poderoso sol.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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