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HistóriaSociedade

O D. Sebastião chamado Portugal

O nosso calendário é ritmado por datas especiais. Por exemplo, na época natalícia evoca-se um dos grandes mitos da nossa civilização: o da vitória da vida e da luz (nascimento do redentor) sobre a morte e a escuridão. Para muitos, este mito é também uma história real, enquanto para outros é um mito a que aderem, porque lhes diz alguma coisa de importante. Os mitos não explicam somente os padrões da natureza, também fornecem um cimento agregador de sociedades, tribos, povos, ou países, com histórias que alimentam o inconsciente colectivo e ajudam na criação de uma memória comum, para lá da verdade histórica, que raramente incendeia o espírito das pessoas.

Para Victor de Jabouille, o “mito é narrativa e quando hoje falamos em mito relativamente a algo contemporâneo é necessário ter em conta não apenas a narrativa, mas também as situações imaginárias, que, redundantes, acompanham aquilo a que podemos chamar a alma de um povo. Nesta descoberta da alma do povo, (…) há um importante aspecto mítico, pois o povo, no fundo, define-se também pelos seus mitos.” O mito português de D.Sebastião enterlaça-se nesta definição que Victor de Jabouille apresenta no seu Do Mithos ao Mito, ao conter em si a manifestação da alma portuguesa, os seus sonhos arquétipos, sustentados em raízes mitológicas pré-cristãs e pré-judaicas.

O Sebastianismo tem os seus alicerces sustentados, inicialmente, no século XVI, a quando da perda da independência nacional para o monarca castelhano, D. Filipe II, como consequência da “morte” de D. Sebastião, na batalha de Alcácer Quibir, em 1578. “Tudo se perdera com D. Sebastião… A independência era perdida para Portugal descer novamente aos Infernos. A pátria cumprira mais um ciclo, o segundo. Descia à escuridão da segunda iniciação e tinha de ascender mais plena”, , como refere Sérgio Franclim, em A Mitologia Portuguesa. “A ascensão seria a revalidação dos mitos que haviam surgido com a própria nacionalidade e com o outorgar a estes de que o império espiritual, séculos antes profetizado pelo abade Joaquim de Fiore, teria como rei aquele que desaparecera para erguer o império universal no fim dos tempos.” Claro que toda esta alegoria já está relacionada com uma versão metafísica de D. Sebastião (o rei que há-de regressar, numa manhã de nevoeiro, e tomar o trono português), que alimentou os portugueses durante os sessenta anos da ocupação espanhola. Com a perda da independência, nasce verdadeiramente o Sebastianismo, renova-se a pátria, com o mito do Encoberto, e renovam-se as esperanças nacionais de se ver consumado o tão profetizado Quinto Império.

O mito acaba por encontrar o elemento responsável pela transição e transmissão do messianismo, nas hostes populares, em Gonçalo Annes, o Bandarra. As suas trovas, por serem as primeiras a fazer referência ao Rei Encoberto para Portugal, à visão de um império universal e ao anúncio de que surgirá um rei fraternal, acabaram por se tornar nas linhas guias para uma certa portugalidade, que necessitava de ser exaltada sempre que o “estrangeiro” ameaçava a sua independência. As alusões a um império universal serão desenvolvidas pelo Padre António Vieira, que constrói o mito do Quinto Império, que é antecedido por outros quatro: o Assírio, o Persa, o Grego e o Romano associado ao Sebastianismo crescente nos anos anteriores à Restauração.

O quinto imperialismo do jesuíta começa em 1636, com a pregação do Sermão de S. Sebastião, no dia deste santo, no qual prefigurava-se, ainda, o Encoberto em D. Sebastião, que regressaria e construiria o tão almejado Quinto Império (espiritual e definitivo, contrariando a materialidade dos impérios anteriores). No entanto, a imagem deste rei desaparecido em combate vai sendo desvinculada do messianismo incumbido no Sebastianismo e no Quinto Império. Começa-se a definir o Império sob a égide da Igreja Católica, que governaria o Mundo pelo poder espiritual e temporal, criando, assim, uma hierarquia sólida. Esta concepção tinha como proposição essencial a certeza de que só através dos sacerdotes de Deus é que se encontrariam homens aptos a governar a segunda e a terceira Idade de Ouro. “A impossibilidade do Quinto Império sem um real contacto com o Centro do Mundo é o que torna irreal a visão de António Vieira. Ele vive em pleno ciclo sacerdotal. Ele mesmo é um sacerdote. Isso explica que visione, tal como Bandarra, uma monarquia universal sob a égide da Igreja, bem longe já da ideia de Dante que defendia a autonomia dos dois poderes sobre a terra, unificáveis somente num ia a autonomia dos dois poderes sobre a terra, unificáveis somente num princípio central, imaginável pelo vértice superior de um triângulo, e que lhes é transcendente”, explica António Telmo, em História Secreta de Portugal.

Com Vieira e Bandarra, há uma representação do Sebastianismo com uma envolvência do clero e do povo, no salientar da espiritualidade portuguesa. Contudo, esta portugalidade acaba por se desenvolver num sentido espiritual mais acentuado, à medida que o século XX se aproximava e nascia o grande impulsionador desta forma de viver Portugal – Fernando Pessoa.

Pessoa nasceu para despertar Portugal, num século XX caracterizado pela rapidez dos acontecimentos, e soube reconstruir o mito de D. Sebastião (a verdadeira transcendência de Portugal), dando ao Sebastianismo o seu real significado. Segundo Fernando Pessoa, “no sentido simbólico, D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico – como, por mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica – mas em que não é absurdo confiar.” O seu regresso acontecerá numa manhã de nevoeiro (representação simultaneamente tanto de Portugal, como da sua esperança), montado num cavalo branco e trazendo consigo a restauração dos intuitos iniciais que teve Portugal, na sua construção como pátria escolhida para erguer algo mais do que a mera existência material.

O mito português é D. Sebastião permanecer vivo no arquétipo que é Portugal, no sentido que o alimenta para um futuro de glória e independente de tudo o que é de orientação material. No Portugal do Cristo português (que é D. Sebastião, na cruz do seu desaparecimento), não há lugar para um mundo de homens fraternos, onde todas as hipocrisias de governos (ditos) democráticos serão dissolvidas no esquecimento. Ou como coloca Sérgio Franclim, “o sebastianista Fernando Pessoa tentou, como muitos poucos portugueses ousaram, compreender a história de Portugal. Por isso, amou a nova Lusitânia com fervor e com o desejo de fazer parte do ancestral processo histórico que a tem percorrido. Múltiplo no sentir, no saber e no ser, soube atingir um estado extraordinário em relação àquele que qualquer comum mortal vive. Ter sido português, português do mundo invisível, foi ter descoberto, pelo Sebastianismo, a porta para o mundo inteligível, onde desvendou o mundo dos ideais futuros e que um dia cobrirão toda a Terra.”

Defensor de um paganismo complexo, Pessoa tentou abarcar a desenvoltura do universo em toda a sua extensão. Pegando no mito que é Portugal com D. Sebastião, transformou tudo o que diversas tradições (principalmente, hebraica e cristã) têm como promessas divinas. Tudo procurou entender e tudo integrou na cultura portuguesa, que, segundo o seu pensamento, seria a maior arma lusitana para se cumprir o Quinto Império. A língua, sentida como o princípio da Pátria, seria o primeiro passo para unir todos os portugueses numa mesma verdade.

Screvo meu livro à beira-mágoa.

Meu coração não tem que ter.

tenho meus olhos quentes de água.

Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar

Meus dias vácuos enche e doura.

Mas quando quererás voltar?

Quando é o Rei

Quando é a Hora?

Quando virás a ser Cristo

De quem morreu o falso Deus,

E a despertar do mal que existo

A Nova Terra e os novos Céus?

(Fernando Pessoa, em Tabacaria)

O Sebastianismo, como porta para a unidade íntima da essência nacional, transforma-se, desde as trovas de Bandarra e das teorias defendidas por António Vieira, no encerrar da influência alheia aos portugueses. Amar Portugal será amar Deus na sua transcendência e na sua ambição de constituir Portugal como cabeça e coroa do mundo inteiro, num Império cultural-espiritual – o Quinto Império.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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