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O crime anda à solta em Nova Orleães

“É quase natural conhecermos alguém que tenha sido morto a tiro.” Não é assim que começa o documentário e não é desta forma que a sociedade deseja que um jovem comece uma conversa sobre a situação da zona onde vive. Infelizmente, este é o retrato de Nova Orleães, a cidade com maior taxa de homicídio per capita, nos EUA.

O documentário, apresentado pela SIC no programa “Toda a Verdade”, revela um trajecto caminhado por diversas instituições sociais, com o objectivo de entender este fenómeno, numa das cidades mais importantes do estado de Louisiana. À vista de todos, os cadáveres posam para as câmaras diariamente, perante a ausência de perplexidade dos moradores. Infelizmente, estes já se encontram habituados, mas não resignados. Numa cidade onde o crescimento do comércio local traduz-se em lojas onde é possível estampar camisolas, no caso, colocando a foto dos entes mais queridos que não tiveram uma nova oportunidade de viver, é comum encontrar marchas contra a violência. Os relatos de mães que perderam filhos sucedem-se, com demasiado em comum, e, invariavelmente, também nas razões para tal situação: não existem.

Yellow tape marks the crime scene in a parking lot where Memphis police Sgt. Norman Benjamin was shot on Saturday, Sept. 3, 2011 in east Memphis, Tenn. A Memphis Police Department spokeswoman says Benjamin was shot Saturday afternoon around 1 p.m. before being taken to The Regional Medical Center at Memphis in critical condition. (AP Photo/Adrian Sainz)
(AP Photo/Adrian Sainz)

Como qualquer problema social, este não surgiu na cidade de um momento para o outro. As crianças, que nascem neste tipo de ambientes violentos, ficam expostas à situação e acabam por cometer actos violentos ainda em idade juvenil. Os problemas começam naquela idade ou, até, na escola. Numa cidade onde “toda a gente tem espingardas automáticas” e onde é mais barato comprar e mais fácil de adquirir armas do que livros escolares, é fácil de entender o foco do problema. Reféns da situação económica mundial e onde, muitas vezes, as crianças só têm dinheiro para se alimentar se traficarem droga, como disso obtém exemplo dos pais, Nova Orleães tem na pobreza o factor mais forte de correlação com os crimes violentos. O clima é ainda mais assustador quando se presenciam, diariamente, preconceitos étnicos e raciais por parte da polícia. Um dos números apresentados, com origem em 2011, mostra que 99% dos jovens detidos em centros de estudo infantil são afro-americanos. Também aqui, Nova Orleães lidera tabelas. É a cidade com maior taxa de encarceramento dos EUA, o país com a maior taxa de encarceramento do mundo.

Os jovens que testemunharam no documentário não têm dúvidas, quando é necessário apontar os problemas mais urgentes que atravessam. Contudo, não passam sem deixar o aviso: se a próxima geração se mostrar em moldes idênticos, temem pelo futuro daquela cidade. De forma cíclica ou não, a sociedade mostra falhas em diversos locais. Infelizmente, dificilmente são resolvidos e ultrapassados. Em pleno século XXI.

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João Miranda

Comunicação e Sociologia como formação, escrita como actividade de lazer. Livros e café, uma boa esplanada e amigos, sol no céu vigilante e viagens. Será difícil levar algo melhor da vida do que isto.

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