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O cordão umbilical dos 30

Um salário que permita pagar as contas e jantar fora, ou viajar é uma ilusão na qual já nem se pensa. O sonho de um futuro em casal e com filhos adia-se. A independência financeira não existe. Com salários baixos e empregos temporários é cada vez mais difícil sair de casa dos pais.

Muitos jovens adultos portugueses não conseguem ganhar o suficiente para serem independentes da geração mais velha. O mercado de trabalho tornou-se num mundo sem perspetivas. Um emprego para a vida é uma realidade que foi vivida pelos pais e as carreiras profissionais são feitas de percursos instáveis.

O nível de ensino e as qualificações dos jovens aumentaram nos últimos anos, mas a situação económica dificulta a entrada no mercado de trabalho. Os indivíduos entre os 25 e os 29 anos são aqueles que têm uma maior percentagem de habilitações de nível superior, de acordo com os Censos de 2011. Contudo, a taxa de desemprego jovem é quase o dobro da taxa de desemprego total e a inserção laboral dos jovens é penosa. Do mercado de trabalho, estes portugueses já não esperam muito mais do que empregos temporários com salários baixos.

A entrada no mercado de trabalho traz consigo a pergunta: “a mim, o que me espera?”. O receio do futuro existe. É o receio de não ter emprego na área à qual foram dedicados vários anos e o receio de continuar a “obrigar” os pais a pagarem as contas e este é bem maior do que o anterior.

As dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, as desigualdades laborais e o risco de perder o emprego marcam o dia-a-dia. E estas dificuldades condicionam e adiam a decisão de constituir família e de sair de casa dos pais.

Os jovens que trabalham por conta de outrem ganham cada vez menos. A diferença que separa o rendimento médio mensal deste grupo etário da média salarial dos outros trabalhadores tem vindo a aumentar. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicados por ocasião da celebração do dia Internacional da Juventude, em 2013, o rendimento salarial médio dos jovens era de 607 euros e o da generalidade dos trabalhadores era de 808 euros. Ou seja, os jovens ganhavam menos 25%.

Em consequência disto, hoje, o número de jovens que residem com os pais até aos 30 anos aumentou e o casamento é cada vez mais tardio. Em 2011, 68,3% dos jovens residia com pelo menos um dos pais, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). E 71,8% dos indivíduos entre 25 a 29 anos eram solteiros.

Contudo, mesmo com um futuro sem espectativas pela frente, como se diz pelas conversas sobre o futuro, “não nos podemos acomodar! Mesmo que não se consiga um emprego na nossa área, podemos tentar outra coisa”. Isto não é dito com gosto, mas com a consciência de que essa pode vir a ser a única opção.

Estes jovens não se iludem, nem pensam que habilitações de nível superior são sinónimo de bons salários e emprego. Se, um dia, chegarem a ser, com certeza que ficarão contentes por isso, mas, até lá (se esse dia chegar), vão-se agarrando às próximas oportunidades.

Estes são os jovens da “geração ‘casinha dos pais’” e do “estou sempre a adiar”, da precariedade laboral e dos salários baixos, do prolongamento da dependência e do adiamento da emancipação.

Mas também são os jovens do “vive-se o dia-a-dia”. E não vivem assim por não se preocuparem com o futuro, nem por não sonharem em ter uma casa só sua e em ter uma carreira na área em que estudam, mas porque, como se costuma dizer, “já chega dos meus pais me sustentarem”. Por isso, quando se chega ao fim da licenciatura, como é o meu caso, “agarrar a oportunidade” e “não nos podemos armar em esquisitos” são as expressões que mais se ouvem nas conversas sobre o futuro.

E, não há opção? Não se pode esperar um futuro melhor? Normalmente, mesmo quando há autonomia residencial, esta é dependente ou pelo menos apoiada pelos pais. O dinheiro não chega para pagar as contas e os jovens continuam a depender financeiramente da geração mais velha. Este não é um cordão umbilical que se corte à nascença. Mas espera-se que não seja assim durante muito tempo.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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