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O Caso Spotlight

Finalmente chegou às salas de cinema o filme que todos comentam e, não pense que verá qualquer coisa de impudico e irracional sobre as atitudes do membros da Igreja Católica de Boston e sobre as suas vítimas, as crianças que durante vários anos foram molestadas. O Caso Spotlight é sobre o trabalho jornalístico ao mais alto nível que denunciou a situação, fundamentado na profundidade dos factos, no alcance hesitante por uma verdade. Se não bastasse, evoca uma polémica social, fórmula que encanta sempre a Academia de Hollywood -, é um dos favoritos aos Óscares, sendo que concorre em seis categorias, incluindo melhor filme e melhor realizador.

Em todo o caso, mesmo que não seja o vencedor, O Caso Spotlight é bastante marcante só por si. Temos (mais) uma experiência que nunca faz o espectador desviar a sua atenção, e que não dá demasiado protagonismo aos seus actores, talentosos sem quaisquer dúvidas, mas que visa essencialmente mostrar ou reafirmar o (quarto) poder que o jornalismo tem e, que de certo modo, perdeu-se, na sociedade digital e cada vez mais burocrática, em que vivemos.

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Se formos por aí, O Caso Spotlight é uma aproximação a filmes como Escândalo na TV, O Mundo a Seus Pés, O Grande Carnaval, Frost/Nixon e Filomena. Apesar disso, e sem colocar estes exemplos de lado, objectos de estudo da relevante filmologia jornalística, estamos frente a frente do irmão gémeo de Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula – por exemplo nas cenas em uma fonte só se faz ouvir por telefonemas, espelho da personagem “Garganta Profunda”, do filme protagonizado por Dustin Hoffman e Robert Redford. A esse respeito, deixa de ser uma peça completamente original, embora estejamos diante um dos argumentos imprescindíveis da década – de mencionar que após a estreia, novos casos de pedofilia foram denunciados.

O Caso Spotlight

Nele são-nos introduzidos quatro membros de uma equipa chamada Spotlight – longe de ser o Caso Spotlight como a tradução portuguesa do título faz querer -, composta por Walter Robinson (Michael Keaton), Michael Rezendes (Mark Ruffalo, que interpreta um jornalista descendente de portugueses), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams, num dos melhores desempenhos da sua longa carreira) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James), sem contar com os editores do “The Boston Globe”, Marty Baron (Liev Schreiber a interpretar o ‘forasteiro judeu’ que possibilitou um maior enfoque) e Ben Bradlee Jr. (John Slattery) também determinados a tornar o ‘rumor’, notícia. E que notícia…

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Temos um minucioso trabalho de investigação, que toma alguma neutralidade por parte dos jornalistas, que não são de todo sanguessugas de informações (na vertente sensacionalista), mas eloquentes e preocupados cidadãos que querem contar uma história e conta-la bem – como revela a personagem de Rachel McAdams numa das sequências, enquanto conversa com Phil Saviano (Neal Huff), uma das vítimas, abusado aos 12 anos de idade e que fundaria a SNAP – em português, Rede dos Sobreviventes dos Abusados por Padres -, que serviu de auto-ajuda e de reuniões entre os vários ‘sobreviventes’, que não se deixaram levar pelo trauma.

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A primeira página do jornal a noticiar o escândalo

Nessa dinâmica explica bem os diversos casos, as diferentes pessoas e as suas formas de estar na vida, sempre para atingir a máquina, por vezes criminosa, de fazer dinheiro que reúne bispos, arcebispos, e adiante. E não tomemos este filme – aplausos neste sentido – como um veículo na criação de ódios sobre os valores de moralidade transmitidos pela palavra divina. O filme não atinge quem pratica a religião, apenas faz-nos percebemos que em qualquer parte poderemos encontrar bem e mal.

O grupo original de jornalistas.
O grupo original de jornalistas

E novamente teremos que realçar o argumento de Tom McCarthy e Josh Singer. Cada palavra escrita e cada palavra pronunciada atinge o campo emocional do espectador e todo o objecto fílmico concebe-se bem na lógica da criação, tal e qual a uma notícia – primeiro o assunto, depois os tópicos centrais, a elaboração, até ao dia em que chega ao mercado. Uma mais valia no encontro a uma sociedade mais justa, que perdurará na memória, por muito tempo.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o ‘viciado em filmes’ porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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