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CinemaCultura

O caminho

Quem nunca percorreu o Caminho de Santiago não consegue entender o que se sente ao chegar à Catedral. Grande parte dos peregrinos percorrem-no pelas mais variadas razões e motivos. Se se encontram peregrinos que seguem a sua fé religiosa ou pagam as ditas promessas, grande parte decide-se por esta via para encontrar um caminho na sua vida. Encontrar-se e libertar os fantasmas que se acumulam durante tempo exagerado é sempre um bem que se adquire.

O Caminho de Santiago pode funcionar como uma espécie de tratamento psicológico, para quem necessita de repensar alguns aspectos da própria vida e existência. Uma terapia que funciona sempre em ambos os sinais. Ninguém fica na mesma depois de o percorrer. E se inicialmente é visto como um aspecto cultural esse mote, depois de percorrido, muda o tema.

Neste filme, a trama gira à volta de uma relação entre um pai e um filho que estão desavindos. O filho tem os seus demónios encerrados e quer que sejam libertados o mais rápido possível. Por isso a decisão está tomada: não vai acabar o doutoramento e quer-se encontrar. Quer conhecer o mundo verdadeiro e não livresco e por isso viaja, que é um excelente medicamento.

Assim o Caminho de Santiago Francês é escolhido para ser o elo de ligação entre a vida e a iluminação. De mochila às costas parte para aquilo que pensa ser a sua redenção e destino. Todos os caminhantes vivem uma experiência única e intransmissível. Um pai bem instalado na vida e um filho que ainda se desconhece. De um lado o que é suposto e do outro a nova faceta de estar. Este é um filme de homens que vão abrir os seus armários e soltar os esqueletos.

A partida é mais um motivo de desavenças, mas a vida continua. Mais uma vez cada um no seu canto, irredutíveis e teimosos. O pai recebe uma chamada estranha e complexa de França. O seu filho não chegou ao destino tendo ficado logo ceifado no início devido a uma tempestade. Foi um acidente e mesmo sabendo do perigo que corria aventurou-se a viver como entendia.

O momento em que toma consciência da realidade é duro e faz repensar o modo como as discussões terminam. Aquela ficará para sempre pois os dois ficaram zangados e nada poderá alterar essa situação. O chefe da polícia vai ser uma peça importante no que se segue. Um pai derrotado e desfeito que se cruza com um outro igualmente sofredor. Um diálogo que não tem nada de fácil, mas sim de esclarecedor. E sem o saber quebra-se algo dentro de si.

Em vez de regressar a casa decide fazer o percurso pelo filho. É aqui que a sua nova vida começa e se descobre. De pessoa bem aceite com a vida passa a ser um como os outros, um anónimo que vai atravessar territórios inóspitos, mas carregados de memórias e vontades. Os bens materiais passam para segundo plano e o aspecto espiritual torna-se o que o motiva e verdadeiramente importa.

Leva consigo a urna do filho e a relação entre eles acaba por se estreitar de um modo que o pai nunca pensou ser possível. Vai deixar ficar pequenos montinhos de cinzas em todos os locais importantes como forma de redenção e aceitação. A sua mente estará sempre em negação e em certos aspectos assemelha-se a uma criança que descobre a vida pela primeira vez.

Assim Tom vai-se cruzar com Joost, um holandês que quer fazer o caminho para emagrecer e caber num fato de casamento, Sarah, a canadiana que quer largar o vício do tabaco e ainda Jack, o irlandês que é escritor e atravessa um bloqueio criativo. Todos com motes próprios, mas que não são os que afirmam e rapidamente se percebe que afinal estão tão sós como nunca pensaram ser possível.

Tom vai conhecer-se, Joost penitencia-se, porque a mulher o considera gordo e não quer mais intimidade com ele, Sarah chora uma vida inútil e as más decisões que tomou onde se inclui uma filha que não nasceu, mas que ela ouve a chorar, Jack sente-se frustrado por se ter vendido a um trabalho que sempre criticou e tantos outros que caminham os cerca de 800 km que muitos já conhecem.

As localidades mencionadas são todas de renome histórico e tornam-se paragens obrigatórias: San Jean, Roncesvalles, ValCarlos, Pamplona, Burgos, Leon e Santiago de Compostela onde, segundo a lenda, estão depositados os restos mortais do apóstolo S. Tiago. Escusado será dizer que são todas de visita obrigatória pelas suas particularidades. San Jean como o início do caminho, Roncesvalles tem uma catedral muito original, Pamplona como símbolo das festas de largadas de touros, Burgos e a sua catedral maravilhosa, onde os restos mortais de El Cid, o herói, estão depositados, Leon com toda a sua beleza e Santiago como o terminus do caminho.

De mochila às costas com o essencial, aprende-se a viver com o básico e a aproveitar a simplicidade da vida. A banda sonora é um bálsamo para os ouvidos e as paisagens são de cortar a respiração. Os tons encantam e mostram como a vida pode ser colorida mesmo com as suas inúmeras adversidades. A dormida em albergues e o contacto com outras pessoas e novas realidades é um enorme crescimento interior.

O verdadeiro peregrino tem um passaporte que deve ser carimbado em todos os locais onde pernoita e será mostrado no final onde recebem um diploma que dá pelo nome de Compostela. Escrito em latim é o símbolo do percurso e das dificuldades que passaram até chegar ao final da sua peregrinação.

Uma das frases, escritas em pedra numa parte do caminho, é das mais emblemáticas que se possam encontrar: onde o caminho se cruza com as estrelas. É no alto da montanha onde as aves e os seres humanos se confundem e convivem. Uma lição de vida a ser bem aprendida. O ar puro também será uma metáfora das escolhas que são feitas e das implicações que acarretam. Futuros que se pretendem melhores e mais sólidos.

A Cruz de Ferro é um ponto alto e forte. Os caminheiros depositam uma pedra ou algo emblemático para si como prova de que conseguiram superar as dificuldades e prosseguem nos seus intentos. A partir desse local tudo se torna mais fácil e simples. É então que se dá um certo deixar cair da máscara. Tom bebe em excesso, exalta-se e provoca desacatos. Fica retido na esquadra e a solidariedade entre o pequeno grupo fica ainda mais forte.

A Galiza é uma terra mágica e cada recanto conta uma pequena história. Existem pequenas capelas, com telheiros, que servem de locais para as refeições e de pernoita quando não existem albergues por perto. À volta terras cultivadas por homens e mulheres experientes, retiram variados alimentos do solo que lhes servirá de sustento. Partilham-nos com os peregrinos que os contactam. O interessante é o desejo de todos: bom caminho. Uma viagem que se torna colectiva.

Em Burgos a mochila de Tom é roubada por um adolescente cigano. A angústia é enorme pois é lá que está o seu filho, aquele que, como pai, tem transportado ao longo de todo o caminho, o que o ensinou a olhar em frente e ver as coisas simples. O pai do rapaz apercebe-se da gravidade da situação e obriga-o a devolver tudo. Como forma de remissão convida-os para uma festa íntima. Uma festa cigana que será uma outra novidade.

Uma nova cultura e mais outra maneira de estar na vida. Cor, som, luz e muita música são o mote destas pessoas que durante anos são sempre escorraçadas e vistas como marginais da sociedade. Um pai em dor e outro repleto de dignidade. Cai por terra a ideia de que os ciganos são todos uns bandidos e desconhecem os sentimentos. Este aconselha-o a continuar o caminho depois de Santiago. Deve visitar Muxia e o Santuário da Virgem de la Barca. Aí deverá libertar o seu filho e seguir com a sua vida.

A entrada na catedral de Santiago de Compostela é sentida de modo peculiar. O santo, que lhe dá o nome, olha-os, como a todos, talvez como forma de agradecer a visita que lhe fazem. Jack, que tinha por hábito não entrar em igrejas, aventura-se e as lágrimas soltam os muitos fantasmas acumulados. Joost tem um momento místico e ajoelha-se junto ao Portal da Glória. Tom e Sarah sentem as vibrações do passado impregnado nas colunas e paredes que acolhem milhares de peregrinos.

É rezada a Missa do Peregrino, em várias línguas e o Bota Fumeiro, o enorme incensário que é empurrado por seis homens, liberta os seus fumos por toda a igreja. Centenas de pessoas de várias nacionalidades e diversos credos, assistem a um momento épico e inesquecível. Apesar de terem dito a Tom que Santiago era o destino final, todos o acompanham a Muxia onde o mar é um demónio em fúria e acalma os mais tensos.

Finalmente Daniel, o filho, chega ao destino final e fica a descansar naquelas águas revoltas e geladas que atraíram tantos homens aos seus encantos. A concha, símbolo do peregrino e que marca todo o percurso, será uma espécie de amuleto da sorte e lembrança de importância das coisas. Não mais abandonará Tom.

Aprender a viver pode ser o mote deste filme que termina com Tom, de mochila às costas, num qualquer país do norte de África. A mensagem que o filho lhe passou foi ouvida e bem aprendida. O seu legado continua vivo e não pode ser esquecido. Afinal o que são promessas? Palavras que se dizem ou simplesmente modos de auto motivação?

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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