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O Caminho para o Amor também é feito de Portagens

A manhã estava tão gelada, que até o vidro do carro tinha gelo nesse dia. Abriu as portas e fechou-se dentro dele, como que perseguida por um bando de animais selvagens. Estava tanto frio. Colocou o carro a trabalhar e arrancou. Já estava atrasada, mas tinha-lhe custado tanto a levantar. Parou na portagem, bons dias dados a par do cartão de débito. Um sorriso franco e “bom trabalho”, para logo a seguir voltar a parar: um acidente na autoestrada, as faixas todas cortadas…

Quando o dia começava assim, ela já sabia que ia ser caótico. Ligou o rádio e começou a passar as estações que iam transmitindo notícias. Já que ia ficar pendurada no meio do trânsito, pelo menos que fosse ouvindo música.

“I’m thinking ‘bout how people fall in love in mysterious ways
Maybe it’s all part of a plan “

E perdeu-se naquela letra que gostava tanto…

***

Naquele dia, o cubículo parecia ainda mais pequeno do que o habitual. O trabalho tão rotineiro tornava-se algo sem vida, enquanto o desfile de caras mais, ou menos conhecidas seguia como um cortejo de Carnaval. Na rádio tocava Ed Sheeran e, mais uma vez, ele ouvia aquela letra e pensava como aquela semana ia custar a passar. Dia dos Namorados! Naquele dia, saia relativamente cedo e até tinha tido um convite dos amigos para uma jantarada, mas estava sem paciência para aquele tipo de jantares. Um bando de homens, que queriam mostrar que se sentiam orgulhosos na sua condição de solteiros, quando afinal tudo aquilo era só fachada. Ia ser mais um, passado sozinho. Porque raio se comemoravam estes dias?

Mais um cliente. Esta manhã proliferavam os carrancudos… Cinco minutos antes tinha passado aquela miúda sorridente que via de vez em quando. Como sempre, vinha com a música uns decibéis acima do normal e, quando parou o carro, vinha a cantar. Vinha sempre. Achava-lhe alguma piada por causa disso. Porque sempre que chegava à portagem, tirava o som e, com um “bom dia”, dava-lhe o cartão e arrancava com “bom trabalho” sorridente. Achava-lhe mesmo piada. Estava sempre bem-disposta. Seria mesmo assim? Como se chamaria? Sorriu, a pensar na mulher misteriosa e na forma como ela subtilmente iluminava o seu dia. E, entretanto, mais um carro parou e a música chegou ao fim. Ia ser uma manhã longa…

***

A Ana acabara o seu dia de trabalho. Sozinha na empresa, o dia foi produtivo. Gostava do silêncio que ecoava pelos corredores e de ter conseguido adiantar tanto trabalho nesse dia.

Tens de passar no supermercado – pensou. Hoje o jantar tem de ser especial! Eu mereço.

Quando chegou à marginal, sentiu o cheiro da maresia e pensou na sorte que tinha em morar junto ao mar. Não tinha ninguém à espera, pelo que resolveu parar, saiu do carro e ficou ali, a fumar um cigarro e a desfrutar daquele mar revolto, que naquele dia estava cinzento. O céu carregado anunciava chuva e continuava frio. Aconchegou o cachecol e o chapéu na cabeça e suspirou profundamente. Apesar do frio e da chuva, sentia-se bem. Após meia hora, uns cigarros e algumas pessoas que foram parando por ali, seguiu o seu caminho.

Parou perto de casa. Tinha de ir às compras e não sabia muito bem o que ia fazer. Só sabia que naquele dia específico, precisava de algo que a confortasse. Entrou pelo corredor dos vinhos, escolheu um branco leve e pensou que talvez um creme quente fosse o ideal. Comprou pepinos, natas e limão. Olhou para o cesto e riu-se. Quem olhasse, devia achar que era doida.

Dirigiu-se à caixa e colocou tudo na passadeira. O cliente à sua frente tinha ido abastecer a despensa, pelo que ainda ia demorar algum tempo. De repente, lembrou-se que se tinha esquecido do cebolinho. Bom, o senhor ainda ia demorar o seu tempo e não tinha ninguém atrás de si, pelo que lá saiu a correr e foi à procura do que faltava. “Damn!” Não havia. Bom, lá se arranjará qualquer coisa para o substituir.

Quando voltou à caixa, viu que já estava alguém atrás de si. Pediu licença e passou. Olhou de soslaio para o tapete e riu-se.

Caril? – disse ao rapaz atrás de si, que ainda estava a tirar os ingredientes do cesto.

Ele levantou os olhos. Eu conheço esta cara, pensou confuso. Depois sorriu e disse apenas: “Sim”.

Então e a maçã? – Disse ela divertida.

Tenho em casa. Era o único ingrediente que tinha mesmo! – Aí, o sorriso já foi menos tímido e mais divertido. Reconheceu-a. – É moçambicana?

Não, mas parece-me que, noutra vida qualquer, devo ter vivido para esses lados. Eu conheço-o, certo? Não sei de onde, mas conheço-o… – disse-lhe, enquanto pagava as suas compras e as colocava no saco.

Bom, se conhecer significa dar-me o seu cartão de débito para as mãos. – disse-lhe divertido.

Ela não percebeu. Encolheu os ombros, agradeceu à senhora da caixa, desejou-lhe a ele um bom jantar e seguiu o seu caminho. Ele sorriu e fez o mesmo.

Deu alguns passos e decidiu tomar um café. Entrou, sentou-se na mesa mais próxima e pediu um pingado com leite frio. Enquanto pegava no jornal para ler as parangonas, ouviu aquela voz que ela conhecia, não sabia bem de onde.

Posso fazer-lhe fazer-lhe companhia?

Hoje, dia 14 de Fevereiro, a Ana e o Daniel comemoram dois anos que estão juntos. Tornaram-se inseparáveis desde aquele dia. E hoje,  aquele tema que passava na rádio, naquela manhã gelada, em que ele, mais uma vez aceitou o seu cartão e ela ficou parada na fila de trânsito, tornou-se o hino de celebração do seu Amor…

“But, baby, now
Take me into your loving arms
Kiss me under the light of a thousand stars
Place your head on my beating heart
Thinking out loud
That maybe we found love right where we are .”

Vamos às compras?

Creme de pepino
Ingredientes:
sal
1 cebola
2 dentes de alho
1 pepino com casca limpo de sementes, cortado em pedaços (aprox. 500 grs.)
500 ml. de água
1 cubo caldo de legumes
1/2 colher de chá pimenta preta
200 grs. de natas
40 grs. de farinha
1 colher de chá sumo de limão
2 colher de sopa de cebolinho picado
2 tomates chucha médios, maduros
1 queijo mozarela fresco

 

E agora, preparar

Pique a cebola e o alho, junte o azeite e refogue até a cebola ficar translúcida. Junte o pepino cortado em pedaços e deixe refogar mais um pouco, até o pepino começar a ficar macio.

Junte o caldo de legumes, a água e deixe cozinhar até os legumes estarem cozidos. Neste momento, pré-aqueça o forno a 180º e vamos começar a preparar o tomate (*).

Retire do lume e triture. Misture o sumo de limão, as natas, rectifique os temperos e envolva. Leve a lume brando novamente, para que acabe de cozinhar, durante cerca de 10 minutos.

(*) Corte os tomates em rodelas, tempere com um pouco de sal, corte o queijo também em rodelas e coloque uma fatia de queijo em cima de uma fatia de tomate. Caso deseje, pode colocar um pouco de orégãos por cima do queijo. Leve a gratinar por 5 a 8 minutos, no forno na posição Grill.
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Marisa Coelho

Eu, curiosa aprendiz de tachos e letras, inspiro-me nas referências do digníssimo trabalho de outros e dou-lhe o meu cunho pessoal. Conto estórias com personagens, tempos e espaços, condimentadas q.b. E sempre em busca do ingrediente perfeito que muitas vezes se encontra na Dita paixão do que se faz.

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