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O Brilho da Extinção da Dúvida

Esta última semana meteu muita água. Foram as nuvens que descarregaram muita água nas nossas cabeças e que causaram muita destruição pelo caminho. Foi a água que a ministra da Justiça fez com a sua nova organização. Foi a água que o ministro da Educação meteu com as listas de colocações de professores, que tarda em estar resolvida. Foi a água que os últimos dias de campanha para as Primárias do PS meteram nos debates entre António Costa e António José Seguro. Foi a água do discurso de um António José Seguro, que não sabe aceitar a derrota como um cavalheiro. Foi água e mais água e mais água. No meio disto tudo, cá estou para vos elucidar sobre o que considero ter sido o In, o Out e o Intermédio desta última semana.

Destaque

A luz solar na zona de Santiago do Cacém está a ser alvo de um estudo “pioneiro” em Portugal, por investigadores de uma universidade alemã, para verificar se tem características benéficas para a saúde. A investigação, iniciada este mês, está a cargo da Universidade de Wuppertal (Alemanha) e incide na Aldeia dos Chãos, naquele concelho do litoral alentejano.

A UW, a universidade mais evoluída neste domínio, justifica a pertinência da investigação com os potenciais efeitos da luz solar na saúde e no bem-estar do ser humano em domínios como o ritmo cardíaco, a tensão arterial, o fortalecimento da imunidade, a descontracção, ou o combate à depressão. O presidente da CMSC, Álvaro Beijinha, elogia a iniciativa dos investigadores alemães, enaltecendo os “valores ecológicos” da investigação e o impacto positivo que a mesma poderá ter em vários domínios, como a eficiência energética, alimentação e saúde.

A Câmara Municipal de Santiago do Cacém (CMSC) divulga no seu site que, durante três meses, serão instalados sensores num edifício do concelho que irão transmitir, em permanência, dados para a universidade alemã, local onde serão avaliados. “Desde o tempo da antiga Miróbriga romana, com templos e termas, hoje centro arqueológico em Santiago do Cacém, a luz nesta região é mencionada como diferente. Pela altitude sobre o mar, a distância para o Atlântico, a distribuição sobre montes e vales, é suposto a luz quebrar-se aqui de forma própria”, afirmam os responsáveis da UW, citados pela CMSC.

Há alguns pontos no mundo que dispõem de uma composição de luz diferente de outros, com características benéficas e Santiago do Cacém pode ser um desses pontos. A hipótese é sustentada pela localização deste concelho do litoral alentejano e por indícios históricos que apontam no mesmo sentido. Pela altitude e distância do mar e pela disposição sobre montes e vales, parte-se do princípio que esta luz com estas características existe aí. A névoa também presente muitas vezes na zona e que transporta a luz, supõem os cientistas, pode contribuir para “quebrá-la’ e reflecti-la de maneira diferente”.

O estudo surge no âmbito de um projecto para uma herdade, junto a Aldeia dos Chãos e propriedade de Maria Loureiro, apoiado pela câmara municipal, que, a avançar, pretende combinar ecoturismo, investigação e ciência aplicadas, ecologia, cultura e arte. Os primeiros dados transmitidos pelos equipamentos “já foram promissores” e o objectivo, concluída a investigação e divulgados os resultados, é “certificar esta luz especial”, o que pode “atrair investimento e turismo na área do bem-estar” para o concelho, frisou a coordenadora.

A Câmara de Santiago do Cacém já enalteceu os “valores ecológicos” da investigação e o “impacto positivo” que poderá ter em domínios como “a eficiência energética, alimentação e saúde”.

Ciência, turismo, história e cultura de mãos dadas para trazer-nos novidades em termos de investigação. Nunca Portugal foi tão requisitado no mundo da ciência.

Fava

Pedro Passos Coelho é suspeito de ter recebido cerca de 5 mil euros mensais entre 1995-99, por prestação de serviços de consultoria na empresa Tecnoforma, tendo invocado em 2000 regime de exclusividade como deputado, durante o referido período. Recebeu? Não recebeu? Declarou? Não declarou? Estava em exclusividade ou não estava em exclusividade? Quando começou o caso e o que se sabe? Algumas respostas ainda não são claras. Mas outras são. O que se sabe é isto: este é um caso que ameaça a credibilidade do primeiro-ministro e a sua manutenção no cargo. Passos Coelho é o político que sempre se apresentou com uma seriedade à prova de bala. O homem sério que vive em Massamá e passa férias na Manta Rota. Ser apenas mais um deita por terra toda a imagem em que se apoiou para impor a política de austeridade.

O problema de toda esta trapalhada foi que o primeiro-ministro ao ser questionado pelos jornalistas, deu umas respostas ambíguas, preferindo estrategicamente escudar-se na falta de memória ao invés de responder directamente a todas as questões que lhe foram colocadas. Assim, o que poderia ter sido um «não assunto» para desviar a atenção das primárias do PS, dos problemas na Justiça e na Educação, transformou-se, por culpa própria, num caso político cujo desfecho pode ter consequências graves para o líder do PSD.

Acredito que passados estes anos algumas coisas sejam difíceis de recordar, mas é difícil entender que, e dado que não restam dúvidas de que ele colaborou com a empresa, não se recorde se e quanto lhe pagavam, mais ainda quando em toda a vida se trabalhou para duas ou três empresas, como é o caso dele. Entendo o suposto zelo de Passos Coelho e acho muito bem que estas coisas sejam investigadas por quem de direito, mas não percebo o que levou a que necessitasse de uma semana para esclarecer um assunto que facilmente poderia ter sido tratado.

Portugal é um Estado de direito em que o ónus da prova é de quem acusa. É assim que deve continuar a ser e não faz sentido que lhe peçam para levantar o sigilo bancário, porque isso levaria à devassa da reserva pessoal de todos os políticos que fossem alvo de uma qualquer acusação e, em pouco tempo, teríamos a maioria dos políticos a ter de mostrar as suas contas bancárias. Acontece que o primeiro–ministro se embrulhou com explicações em que lhe faltou a memória, em que se socorreu de um secretário-geral do Parlamento que em nada o ajudou, em que se virou para a Procuradoria, sabendo que dali não viria nada, e em que, finalmente, a memória voltou para garantir que apenas recebeu dinheiro para pagar despesas.

Dificilmente sairemos daqui. Passos não tem de dizer mais do que disse, mas, com isso, também não se livra da suspeição. A verdade é que ele perde um capital político que lhe permitia acalentar a hipótese, por mais pequena que fosse, de lutar pela vitória nas legislativas do próximo ano. Agora, aos olhos do comum dos mortais, ele é igual aos outros, mas há apenas um mês era o homem corajoso que deu um redondo não à família mais poderosa de Portugal. Ser remediado não faz de ninguém honesto, como ser rico não é sinónimo de desonestidade.

Sabendo que governar é fazer opções, agradando a uns e desagradando a outros, para poder ter o apoio mesmo daqueles a quem o seu governo retirou rendimentos, o grupo de trabalho de Passos jogou fortemente na imagem do homem que não se serve da política, do homem que não confunde negócios privados com negócios públicos. Na política, só há uma maneira de lidar com suspeitas e não é, com certeza, alimentando-as. É matando-as à nascença.

Momento

Despedirmo-nos de um trabalho é algo complexo de se fazer, quando se é adulto. Na adolescência, não temos qualquer pudor em atirar com o fardamento do nosso part-time na cara do nosso chefe, quando sentimos que não nos respeitam como funcionário. É algo descartável na nossa vida, mas, em adultos, este cenário muda de figura. Temos de formalizar a nossa saída, dar, no mínimo, duas semanas de aviso e fingir que gostámos muito do tempo ali passado. Saímos sem dizermos sem revelar a nossa verdade, já que a recomendação dessa empresa pode ser vital de futuro e os anos ali passados a trabalhar podem ser significativos numa futura entrevista.

Algo que Charlene Egbe, uma repórter da KTVA, um canal em Anchorage, no Alasca, não aprendeu no seu percurso profissional. Charlene decidiu despedir-se em directo, durante o telejornal das 22h e depois de ter noticiado a intenção de levar a votação no congresso a legalização de drogas leves no Alasca. Parece ser algo insólito de acontecer, mas a verdade é que a história não fica por aqui, já que, antes de se demitir, a jornalista afirmou ser a orgulhosa dona do Clube de Canábis no Alasca. Só faltou mostrar o dedo do meio para os espectadores mais conservadores, mas o decoro deve tê-la impedido de o fazer.

“Tudo o que acabaram de ouvir é o que justifica que eu, a dona do Clube de Canábis no Alasca, me dedique com toda a minha energia para lutar pela liberdade e pela justiça, que começam com a legalização da Marijuana aqui no Alasca”, disse em directo. “No que toca a este trabalho. Bem, não é que agora tenha muita escolha, mas que se fo**. Eu despeço-me.”

Depois de sair do estúdio, Egbe decidiu criar uma campanha de crowdfunding no IndieGogo, para poder legalizar as drogas leves neste estado norte-americano. Pretende angariar 5 000 dólares, para conseguir financiar as suas viagens, à medida que espalha a sua crença pelo estado todo, já que considera ser a pessoa certa para desempenhar essa tarefa. Segundo a própria, “poucas pessoas que lutam pela legalização da Marijuana no Alasca têm tanto contacto com os media, têm conhecimento sobre os benefícios da Marijuana, são apaixonadas pelo tema, profissionais na sua aparição e completamente dedicadas em fazer passar a medida em congresso como ela.”

Caso seja bem-sucedida, a pouco provável legalização no Alasca fará deste estado o terceiro nos Estados Unidos da América a dar este passo, antecedido do Colorado e de Washington.

Curiosidade

A globalização e a homogeneização da cultura significa que muitas das línguas do mundo estão em perigo de desaparecer. A UNESCO identificou 150 línguas de origem europeia que considera estarem vulneráveis, ou em perigo de extinção. Será que conheces algumas destas três línguas?

Feroês

Quem Fala: é falado nas ilhas Faroé, um arquipélago que tem uma gestão autónoma e que fica na Dinamarca.

Quantas pessoas falam esta língua: 66 000, tanto nas ilhas, como na Dinamarca.

Como se diz ”Olá”: Góðan dag.

Sabias que: O Feroês é derivado de um dialecto do Antigo Norte e que preserva mais características desta língua extinta do que qualquer língua daquela região (excepção feita à Islândia).

Caraim

Quem Fala: o Caraim é falado por um povo espalhado entre a Lituânia, a Polónia e a Ucrânia.

Quantas pessoas falam esta língua: é uma língua em grande risco de desaparecer, porque só existem 60 pessoas no mundo a saber falá-la.

Como se diz “Olá”: Kiuń jachšy

Sabias que: o Caraim é principalmente falado na cidade de Trakai e por uma pequena comunidade que lá vive desde o século XIV.

Pite Saami

Quem Fala: é falado pelos Saami, que estão espalhados pela Suécia, a Noruega, a Finlândia e a Rússia.

Quantas pessoas falam esta língua: só existem, aproximadamente, 20 pessoas a falarem esta língua e que descendem de uma população originalmente com 2 000 pessoas.

Como se diz “Olá”: Buorist

Sabias que: Pite Saami não tem uma versão escrita oficial.

Boas leituras, Leitores Sombra.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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