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O bom, o mau e o vilão

BB_obomomaueovilao_6A questão do gosto, acerca do que quer que seja, dá desde conversas interessantes a exaltações. Diz o povo que os gostos não se discutem. Penso exactamente o contrário. Os gostos discutem-se e devem-se discutir. O que não se discute é o direito ao gosto. Os gostos têm de ser respeitados, ainda que não se entendam.

Na discussão do gosto, vejo duas diferentes maneiras em que o assunto se coloca: o que resulta duma tradição e a base de conhecimento para justificar as afirmações. Quer num caso, quanto noutro, quer quando se conjugam, deve prevalecer o direito à opinião, mesmo que possa parecer desajustada, infundada e injusta.

A parte mais fácil é a tradição, onde temos o berço e os afectos. A comida da mãe é a melhor do mundo. O cozido da minha terra é o melhor do país. O vinho português é o melhor do mundo. Será? Claro que não, mas é legítimo? Sim, porque se liga ao afecto e às memórias. É justo? Provavelmente não, porque certamente carece de sustentação de «ciência», alicerçada na experiência e na diversidade das provas. Dou alguns exemplos: o Vinho Verde tinto, um vinho licoroso e uma iguaria regional de comida.

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  1. Para mim, como para muita gente, Vinho Verde tinto está no grupo de produtos de que fazem parte o decapante e os pesticidas. Muita gente diz gostar, mas talvez não tenha, de facto, provado.Que direito tenho de o afirmar? O Vinho Verde tinto faz parte da tradição da cultura gastronómica do Entre Douro e Minho – região do Vinho Verde. Acompanha pratos ácidos e gordos, como a lampreia.Se a tradição o impõe, se tanta gente gosta, estarei muitíssimo errado na minha apreciação. Não será o mundo que está errado, mas quem foge à norma.
  2. Um produtor alentejano lançou um vinho abafado – categoria onde estão os generosos e licorosos, cuja diferença é burocrática e que não interessa agora ao caso – com oito anos de estágio em casco.Para quem não saiba, os vinhos abafados ou amuados são aqueles em que a fermentação alcoólica do mosto é parada através da adição de aguardente (vínica). Neste grupo, figuram o Vinho do Porto, Vinho da Madeira, Moscatel de Setúbal, Moscatel do Douro, Carcavelos ou abafados sem denominação de origem. Voltando ao vinho produtor, oito anos de estágio em casco não é muito tempo. Um Vinho do Porto de gama média-baixa tem dez anos.Contudo, esse produtor alentejano vendeu-o a preço de Vinho do Porto com 30 anos…Convenhamos – nem que seja por prestígio da região – que Vinho do Porto não é o mesmo do que um licoroso do Alentejo – Algarve, Ribatejo (Tejo), Bairrada, etc. O campeonato do Vinho do Porto é o do Vinho da Madeira, do Champanhe Grand Cru, ou dos Tokaji Essência… Grandes vinhos de classe mundial.Um Vinho do Porto de 30 anos já é um patamar elevado. O que justifica o tão “disparatado” preço? O amor à terra materna, o orgulho regional. Nada mais! Sou peremptório e não tenho qualquer abertura de espírito para qualquer outro argumento. Posso estar errado, obviamente… É este citado amor ao torrão que justifica o próximo exemplo.
  3. Atenção! Atenção, senhores leitores.Pessoas de estômago sensível abstenham-se de ler o que vou escrever, ou aproximem um balde para vomitarem. Os pescadores da Ericeira têm uma iguaria que só alguns conseguem tragar, provavelmente apenas os nascidos e criados naquela simpática vila piscatória.Chama-se caneja de infundisse – só o nome avisa do perigo, ainda que possa desconhecer-se o que aí vem. A caneja é um peixe, também conhecido por pata-roxa. O tubarãozito é cortado às postas e embrulhado em serapilheira. É, então, enterrado na areia da praia que o mar molhe, durante oito dias e um mês.Feito o primeiro preparo, a caneja é cozida em água e sal e servida com batata cozida e azeite. A cor é madrepérola e o aroma… aliás, cheiro… perdão, cheirete… é a amoníaco… ou pior, a urina… na realidade, a mijo! MIJO! É bom? Há quem goste e se delicie. Não mata, mas vira as tripas a um tipo.

A outra questão do gosto é mais complexa e é, penso, a que dá mais raivas nas discussões. É o assunto da qualidade e do “direito” a discuti-la. Em todas as artes – não só –, há especialistas, pessoas que estudaram, têm vasta experiência e profundidade de análise.

Ao longo de séculos que se discute a arte. As gravuras paleolíticas de Foz Côa são rabiscos? São.Têm importância? Sim, porque marcam uma época, um dos pontos de largada da arte, do sagrado ou do mágico, da comunicação sinalética quanto à caça e recursos.Para muitas pessoas, é óbvio que um sobrinho com seis anos “consegue” fazer aquilo. Contudo, que cultura tem o opinador para justificar o que diz?

  1. Nas artes plásticas, o Renascimento corre com o Gótico, o Barroco ultrapassa o Renascentismo… [salto] o Romantismo destrona o Classicismo… Movimentos como o impressionismo foram de ruptura e discussões ferozes, tal como o Fauvismo, o Cubismo continua a causar divergências e já lá vai um século. Já para não falar no Dadaísmo, que alimentou o Surrealismo – este mais inteligível aos mortais – e serve de alicerce a muita da arte contemporânea, nomeadamente as correntes conceptuais.Aqui é o tempo, o distanciamento histórico e o ensino, que dá aos leigos os elementos que permitem o seu reconhecimento e compreensão. Não nos esqueçamos que mesmo entre os peritos há situações repulsivas, pelo que, nem que seja por isso, o leigo tem argumento para “agredir” uma peça. Claro, como em tudo, há a questão da honestidade, a intelectual, e a situação em que “o Rei vai nu”. Numa exposição de arte contemporânea em que as peças estavam dispostas por um espaço vasto, um grupo de cinco, ou seis jovens intelectuais dissertava acerca duma instalação feita com pneus. Discorriam sobre os significados e bla, bla, bla do monte de pneus, obra que parecia mesmo um monte de pneus.Contudo, aquela notável obra de arte conceptual não estava registada no registo com a localização das peças. Um dos moços foi questionar a organização acerca do autor do trabalho. Regressou com a resposta: o monte de pneus era mesmo e tão só um monte de pneus. Depois foi muito educativo a inversão dos argumentos dos pseudo-conhecedores.
  2. Qual a diferença entre um objecto kisch – termo usado no meio artístico, sem tradução absoluta, mas que basicamente significa piroso – e uma obra em que a concretização da ideia se traduz em algo idêntico? Qual a diferença entre os bibelôs da tia Adozinda e uma porcelana de Jeff Koons?
  3. Uma outra questão se coloca aqui, que é a da originalidade e do que ela representa e a sua importância. Em 1917, Marcel Duchamp colocou um urinol numa exposição. Integrado no movimento Dada, esta criação marca o ponto de partida das obras “Readymade”. Podemos perguntar, qual é a novidade ou interesse, dos “Readymade”. O conceito não se esgotou em 1917 e tudo o que vem não passa de réplica (conceptual)? A BB_obomomaueovilao_1verdade é que o urinol está exposto no Centro Georges Pompidou, em Paris, e uma “reprodução” na Tate Gallery, em Londres. Os peritos em história de arte valorizam-na, mas o cidadão? Saindo da matéria para a abstracção, na música acontece exactamente o mesmo. Por mais que puxe pela inteligência, referências, tolerância e boa-vontade, não consigo entender a música dos compositores Emanuel Nunes, ou de Jorge Peixinho. Porém, Emanuel Nunes está entre os grandes compositores da actualidade – assim o garantem os peritos. Ide pesquisar no Youtube, ide, ide… atenção, há um moço com o mesmo nome e que “tapa” o compositor nas pesquisas, ainda assim não é muito difícil encontrar. Não tem videoclips, apenas áudio.
  4. A contextualização histórica deve ser tida em conta, faz parte desse respeito pelo gosto do outro. O Impressionismo foi um movimento violentamente atacado pelos académicos do final do século XIX. Hoje está integrado, o público gosta. No entanto, acho que os quadros de Renoir são tão pirosos quanto os bibelôs da tia Adozinda e as porcelanas de Jeff Koons.
  5. Mais simples é o terceiro exemplo. O adegueiro de um vitivinicultor de referência afirma serem maus os vinhos que o patrão lhe dar a conhecer: – Ah, senhor engenheiro, que nunca bebi coisa tão mazinha. Este produtor cedeu um espaço para o seu adegueiro plantar uma vinha. Com espírito missionário, cedeu-lhe umas boas barricas com algum uso, para substituírem o feio pipo em que o funcionário guardava o vinho.O resultado foi tão decepcionante, que o adegueiro retirou o seu vinho dos vasilhames de boa madeira e colocou-o na “imundice” do velho pipo.
  6. Um dia critiquei a qualidade do café dum estabelecimento reputado. Alguém mais graduado do que eu explicou-me que era dos melhores cafés de montanha que se produzem no mundo.De que me serve saber disso se o sabor é horrível? Há alguma escala para o mau? Fazer o melhor produto com os piores ingredientes serve de justificação? Tenho razão? Em parte, talvez. Estou no mesmo patamar do adegueiro? Em parte, sim.

O gosto discute-se, mas devem-se respeitar as diferenças de opinião. Já quanto ao debate acerca da qualidade deve haver o bom-senso de a afirmação ficar pelo simples “não gosto”? Não entendo nem o bom café de montanha, nem a música de Emanuel Nunes. Porém, sei o que determina a qualidade nos meus assuntos de trabalho e reconheço que tais sabedorias são compreendidas por quem não é do ofício.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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