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O baú

Chegou ao sótão cheia de curiosidade. Há quanto tempo não ia lá acima, àquele local onde em miúda fazia os seus teatrinhos e desfiles de moda? Já nem se lembrava como era e a memória só arquiva aquilo que faz falta. Sabia que ia ser uma viagem longa mas estava pronta a começar.

Primeiro era o pó e as teias de aranha. Tanto tempo fechado era de prever que assim o fosse. Algumas teias eram particularmente bonitas. Vistas com aquela luz matinal pareciam autênticos quadros realistas. Ficou a olhar para elas. É incrível como um bicho tão pequeno faz um trabalho tão bem feito. depois lembrou-se para que servia a teia e arrepiou-se. Pobres moscas ingénuas que lá caíam.

Os seus olhos habituaram-se à falta de luz. Havia uma pequena janela ao fundo e, à medida que ia caminhando, distinguia melhor as formas e a sujidade. Era dispensável, mas inevitável. O baú estava mesmo ao fundo. Era vermelho e os cantos tinham chapas pequeninas que o adornavam. Tinha um fecho pesado e, assim que lhe tocou, parecia que o tempo tinha andado para trás.

Abriu o baú. Tantos e tão maravilhosos tesouros que ali estavam arrumados. De um dos lados estavam as fotografias, do outro os brinquedos, de um outro vários objectos e de outro lado, aquele que não se via logo, estavam as cartas de amor.

Sentou-se no chão. Já tinha luz suficiente para ver. As fotos do cão. Que tristeza que sentiu. Como ela gostava daquele bichinho de 4 patas, todo solícito e brincalhão. Não duram muito. É injusto. Quando se vão deixam um vazio tão grande que nunca será preenchido. Suspirou. Lá estava ele. Parecia que sabia que lhe iam tirar fotos. Fazia poses. Era muito doido! Sorriu. Outra foto: a mãe e o pai ainda muito novos. Bolas! A velhice é uma chatice. Que bonitos que eram!

A outra foto deixou-a quase sem pensamento: era dele.  Aparecia-lhe assim, sem mais nem menos, todo fresco como se estivesse ali à sua beira. Tanta emoção junta. Saltou uma lágrima. Apeteceu-lhe beijar a foto, trazê-lo de volta. Impossível. Quem a tinha mandado ir ao sótão? Que dor de alma.

Olhou para os brinquedos. Como era fácil rir daquelas traquitanas pitorescas que lhe tinham dado tantos dias de alegria. lembrava-se da prima, com quem brincava mais. Eram jantares, lanches e almoços que faziam com as bonecas, com tudo a que tinham direito. Era a sério, com madrinhas e padrinhos.

Uma mala velha, muito enxovalhada, mas cheia de boas lembranças. Tinha sido a primeira. Deu-lha a avó, de pernas para o ar, ao contrário e ela tinha-se rido muito. Uma toalhinha bordada. Tinha sido ela. A primeira de todas. Demorou uma eternidade para ficar para sempre. Agulhas de tricot e um cachecol infantil. Lembrava-se bem. Tinha 5 anos. Usou até à exaustão, foi ela que o fez.

Ajeitou as pernas. O outro lado estava a chamá-la. Ela resistia, mas sabia que tinha que as abrir. Eram as cartas de amor. Palavras que se escreveram e que fizeram todo o sentido numa dada altura. Abriu uma: a letra dele arrepiou-a. Estava ainda tão fresco, tão próximo. Ela não se esquecia, não se podia esquecer, não queria esquecer. Leu a carta. O seu olhar ficou parado. Recordou tudo.

Sentiu-o ali ao lado dela, a escrever. como era seu hábito. Escrevia-lhe quase todos os dias. Era para não se esquecer de nada, para testemunhar tudo. Apeteceu-lhe conversar com ele. Um nó na garganta tirou-lhe a voz. Não era possível. Abriu outra carta. Esta tinha uma foto. Era ele, ela e o cão. Uma família, como diziam. E o palerma do cão percebia tudo tão bem. Estavam a experimentar a vida.

Começou a ficar escuro, mas ela não dava por isso. Olhou ao seu redor. Tinha tanta coisa fora do baú, mas tanta dentro da alma. O que era aquilo? Aquilo que estava embrulhado? Tirou e abriu. Com muito cuidado desembrulhou. Era uma memória tão forte!

Sim, ela lembrava-se, mas fazia por esquecer. Era uma prenda que ele lhe tinha dado. Um caderno feito por ele, com poemas de amor. A última folha tinha uma foto dele, de joelhos, com um anel na mão. Foi um modo tão original de a pedir em casamento. Apeteceu-lhe gritar. Porque é que tinha ido ao sótão? Ela sabia que ia doer tanto!

Caiu-lhe uma folha no chão. Era um telegrama. Nem ela sabia o que era aquilo. Que forma horrível de o conhecer. Era muito seco, mas era essa a função: lamentamos informar que o seu marido faleceu esta noite. Aguardamos que nos contacte. Nem nome nem mais nada, só o nome do hospital.

Ouviu um barulho. Era a prima. Ah! Ainda aí estás? Queres ajuda? Não, vou já. Mas a prima não se foi embora. sentou-se a seu lado e fez-lhe uma festa na cara. Porque é que te continuas a martirizar? Não tiveste culpa nenhuma. Aconteceu. Foi horrível, eu sei, mas tens de seguir em frente.

Maldito copo de água! Se ela não lhe tivesse pedido para ir buscar a prima e o cão não tivesse ido tudo teria sido diferente. Estúpido acidente! Ele e o cão ficaram ceifados e a prima sobreviveu. Não a culpava, claro que não, culpava-se a si. Chorou baba e ranho, agarrada à prima. Suspirou muito fundo, assoou-se e disse-lhe: vamos para baixo que o bebé deve estar a acordar.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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