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O azar roça sempre a pela da sorte

A tua filha teve um acidente de carro. Adormeceu ao volante, ou qualquer coisa do género, e nunca mais abriu os olhos. Um dia estavas ao telefone, a dizer-lhe para ter cuidado e a perguntar-lhe como corria tudo no trabalho, e no outro estavam a telefonar-te do Hospital.

Correste para lá. Duvidaste se contar à tua mulher, não a querias preocupar. Bom, ela nunca te perdoaria e não sabias se a situação era grave. Os dois precisavam do apoio um do outro. Ligaste-lhe para o trabalho, e foram os dois vê-la. A seguir, telefonaste ao teu filho.

Era grave. Muito grave, disseram os olhos do médico. A boca só disse “só depois da operação”. Mas tu sabias que era muito grave, por mais que a voz do médico não te quisesse arrancar a esperança.

Operações. Dias de recuperação, de dúvida, de espera.

O bip bip das máquinas, a respiração partida, entrecortada, quebrada e falsa, nada natural, que vinha do corpo adormercido da tua filha.

O coração dela ia abaixo, os médicos recuperavam-no com as máquinas.

O choro da tua mulher, alto e dorido. O silêncio do teu filho, as suas olheiras e preocupações, o olhar negro que de repente tinha envelhecido 50 anos. O teu choro silencioso, na casa de banho, ou invisível para os outros.

“Está em coma” anunciou o médico, um dia. “É um coma profundo, muito provavelmente não recuperará.”

Finalmente, o médico decidiu tirar-te a esperança.

Olhaste para a tua mulher. A seguir, para o teu filho. Branco como a cal; a dor, a vida e a esperança tinha-lhe sido drenadas, e ele parecia pronto a vomitar aquela realidade feia que lhe mexia com a alma. Tu precisavas de tempo, mas imediatamente soubeste que tinham de desligar as máquinas. Quantas conversas tinhas tido com a tua filha sobre quereres que te desligassem, conversas agora sem sentido, em que a resposta dela era “e eu também, pai”? Quantas? Sabias o que ela queria, esse viver não era viver, era um egoísmo, era agarrar-se ao corpo e à ideia, à saudade, ao passado. À esperança. Oh, e como precisavas dessa esperança.

“Não vamos desligar” anunciou a tua mulher. Quase um alívio, não teres de tomar essa decisão, não teres de respeitar os desejos da tua filha. O tom de voz da tua mulher não deixou azo a discussões.

O teu filho não disse nada. Certamente estava aliviado como tu.

“Mas é muito improvável que ela acorde” repetiu o médico. Já não sabias se ele queria o bem dela ou se já só a via como um saco de órgãos prontos a serem transplantados. Outros que poderiam viver quando ela já não tinha mais vida do que um vegetal. Outras esperanças.

“Milagres acontecem” disse secamente a tua mulher. “E se acontecem com os outros, podem muito bem acontecer connosco.”

Nem uma lágrima da parte dela, da tua mulher. Forte, muito forte, como uma casa. Como um bunker. Não chorava, adaptava-se. A esperança e o sonho, o passado e a possibilidade de um futuro eram muito superiores ao presente, à realidade, à suposta realidade. Levantava-se todos os dias e passava o dia no Hospital. Tu querias ir mais vezes, mas vê-la assim só te dava vontade de chorar. Não conseguias fingir ou adaptar-te como a tua mulher.

O teu filho nem conseguia lá entrar.

“Quanto tempo é que dói perder alguém?” perguntava ele à mãe.

“Uma vida inteira”.

Passaram anos. Dois anos. Depois mais dois.

E depois cinco.

E quando notaste, já tinham passado dez anos desde o acidente da tua filha.

Quinze.

Telefonaram-te do Hospital. Anunciaram que eram do Hospital, e uma chispa de esperança atravessou-te o olhar.

“A sua mulher teve um ataque cardíaco”.

Correste com o teu filho para o Hospital.

Estava morta. A tua mulher estava morta. O corpo não aguentou. O coração magoado não aguentou e desfez-se em pó.

Não sabias o que fazer. Agarraste-te ao teu filho e choraste, choraste por ela, pela vossa vida, pela tua filha, pela inocência perdida do teu filho.

Juntos, foram ver a tua filha. A tua mulher estava a dar-lhe banho, quando caiu. Foram vê-la como se nela restasse algum vestígio da tua mulher, da vida, como se ela pudesse salvá-la. O teu filho não entrou no quarto, não conseguiu. Chorava lá fora, conseguias ouvi-lo a chorar. E tu choravas lá dentro, com um braço a tapar-te os olhos, a limpar-te as lágrimas assim que apareciam, a proteger-te do mundo e da vida e daquele dia em que perdeste o amor da tua vida.

Mas tudo mudou.

O som no quarto era diferente. E quando sentiste alguém a tocar-te na mão, tudo mudou.

Olhaste para a cama. A tua filha, de olhos abertos e sorriso nos lábios, perguntou “Pai?”.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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