CrónicasSociedadeSociedade

O Auto-Controlo em Falta ao Sindicato dos Professores

Durante esta última semana, o Novo Banco foi renovado mesmo antes de o deixar de ser. A novidade é a saída da equipa de Vítor Bento e a entrada de uma administração liderada por Eduardo Stock da Cunha. O resto permanece, mais ou menos, de acordo com o que se tem vindo a perspectivar. Entretanto, Marinho e Pinto, que convenceu milhares de portugueses que era diferente de todos os políticos e foi eleito deputado europeu – função que desvalorizou –,virou costas ao Movimento Partido da Terra (MPT), ao fim de apenas seis meses de ligação. Sai, deixando acusações aos seus responsáveis de serem mentirosos e de não o deixarem prosseguir com os seus objectivos de “solidariedade, justiça e liberdade”. Algo que demonstra que é igual, ou pior do que os políticos que tanto crítica.

A semana terminou com o referendo escocês, de que falámos aqui e aqui, sendo que hoje à tarde irá sair uma análise à vitória do “Não” e ao que deverá suceder daqui para a frente. Até lá, descobre o que considero ter estado In, Out e no intermédio dos dois.

Destaque

Aires Ferreira, do Centro de Física da Universidade do Minho, tornou-se este sábado “research fellow” da Royal Society de Londres, a sociedade científica activa mais antiga no mundo e que já foi liderada por Newton. As “university research fellowships” têm uma duração de cinco a oito anos, sendo atribuídas a cientistas em início de carreira com potencial para se tornarem líderes nas suas áreas. O físico português de 32 anos, do Centro de Física da Universidade do Minho, mostrou-se “muito honrado” por ser aceite entre os jovens cientistas em todo o planeta, num processo de candidatura muito competitivo.

Para o investigador, “esta é uma oportunidade única para desenvolver um grupo de investigação em física quântica teórica num dos locais mais competitivos do mundo”. O seu projecto consiste em realizar cálculos teóricos para entender como o grafeno poderá ser usado numa nova forma de electrónica revolucionária. O grafeno foi descoberto em 2004 pelos russos Andre Gheim e Kostya Novoselov, que foram reconhecidos com o Nobel da Física 2010, face à importância e às aplicações tão diversas do material, como a informática e a medicina. O grafeno é obtido da grafite, tem apenas um átomo e base no carbono. “As partículas responsáveis pela corrente eléctrica (os electrões) comportam-se de modo tão inesperado, com se não tivessem massa, permitindo a propagação da corrente eléctrica muito eficiente. Isso deve-se à espessura ultrafina do grafeno e à natureza das ligações químicas entre os átomos de carbono”, acrescenta.

O trabalho deste investigador da UMinho focar-se-á em grafeno alterado quimicamente, de modo a que uma propriedade microscópica dos electrões, denominada por spin, possa ser controlada. “Ter o controlo do spin é um dos grandes desafios da ciência, que abrirá portas a investigações da natureza quântica profunda da matéria e permitirá desenvolver dispositivos eletrónicos muito mais rápidos e eficientes. É também um passo importante para realizar o computador quântico”, explica. Esta nova forma de electrónicaà base do spin dos electrões é conhecida como spintrónica e promete alta eficiência energética e velocidades de processamento muito superiores às actuais, “um verdadeiro salto quântico na tecnologia”, sublinha Aires Ferreira, que publicou recentemente um artigo alusivo na conceituada revista Nature Communications. O cientista tem também contributos importantes na óptica quântica.

É um caminho longo e difícil este que Portugal está a percorrer, para ser reconhecido em várias áreas de especialidade. É particularmente difícil, quando este caminho passa pela área da investigação científica, onde a aposta portuguesa não tem sido tão forte como noutros países. A verdade é que, aos poucos, vamos conquistando o nosso lugar ao sol e este é apenas mais um exemplo disso.

Fava

Dia 15 foi o dia marcado por muitas escolas para o início de mais um ano lectivo, um dia que, normalmente, tem como foco as expectativas de quem inicia, ou reinicia, as aulas. No entanto, quem ocupou o tempo de antena em triplicado foi Mário Nogueira, um sindicalista que há décadas não entra numa sala de aula, a não ser à frente de um piquete de greve. Desta vez, o motivo não foi uma greve, mas sim (e tal como todos os anos) a colocação de professores, ou a falta de colocação, para ser mais exacto.

Todos os anos, o arranque do ano escolar é sempre um drama. Ora, porque faltam sempre professores. Por tantas famílias só em cima da hora conhecerem horários e regras. Porque há sempre protestos, manifestações, escolas fechadas a cadeado e por todo um rol de situações incompreensíveis. Diz o senso-comum, com a história corroborar essa perspectiva, que a culpa é da incompetência do Ministério da Educação e, caso não se goste do Ministro da Educação em funções, há quem acrescente o Ministro ao role dos culpados, já que todos os que ocupam este cargo têm como objectivo: destruir a escola pública. Contudo, o Ministério da Educação é, provavelmente, a instituição pública com mais funcionários e mais estabelecimentos de trabalho que o país tem, sendo que cada um destes tem necessidades diferentes. Como explicou José Manuel Fernandes, no Observador, “o nosso ministério é fruto de uma utopia estalinista – por muito estranho que possa parecer juntar utopia e estalinismo. A utopia é a de tratar todos os professores por igual, à ordem dos sindicatos. O estalinismo resulta da única forma de o conseguir: centralizando tudo. O sistema de colocação de professores leva estas políticas ao paroxismo.”

O papel dos sindicatos, quer se goste ou não, está, em relação ao poder, do outro lado da folha. A FENPROF tem sido liderada por militantes do PCP (Mário Nogueira, por exemplo) e boa parte dos seus quadros em alguns dos sindicatos regionais (SPRCentro e SPZSul) são também quadros do PCP. Mas ao mesmo tempo no SPNorte, no SPGrande Lisboa e nos sindicatos das Ilhas, a situação é completamente oposta, com lideranças independentes e longe das esferas partidárias. Não nutro particular simpatia por líderes dos principais grupos sindicais, por esta exacta razão de existir uma ligação pornográfica entre sindicatos e partidos políticos com assento parlamentar. Para além disso, estes líderes sindicais têm como profissão dificultar a vida a quem lhes dá trabalho, com uma defesa cega dos direitos dos trabalhadores, esquecendo, sempre, os seus deveres. Nunca vi um dirigente sindical insurgir-se contra um trabalhador incompetente, ou que não produz o que devia.

Um desses dirigentes sindicais de que não gosto é Mário Nogueira, da FENPROF. Mário Nogueira ganha como professor, mas não dá uma aula desde o início dos anos 80. Leva quase 30 anos como sindicalista profissional, contra quatro, ou cinco como professor. Não lhe reconheço, por isso, moral para liderar protestos que têm, muitas vezes, um lado político e não tanto corporativo. Desde os anos 80 para cá, não me lembro de um único Ministro da Educação que, aos olhos dos dirigentes sindicais, tivesse sido bom. Todos, sem excepção, estiveram ali numa cruzada contra os professores e para exterminar o sistema de ensino, numa clara referência à história do Pedro e do Lobo. Tanto dizem mal, que, às tantas, já ninguém sabe bem o que é verdade, ou não. Com isso, esvai-se a credibilidade dos sindicatos e, por arrasto, dos professores.

Não sou contra os professores, sou por eles, foram pilares do meu crescimento e cresci no meio deles. O que digo é que a luta mais eficaz é aquela que é feita com cabeça, com a nossa própria cabeça, e não a que é pensada pela cabeça dos outros, principalmente quando os outros são profissionais da luta e não do ensino.

Momento

Quem é que disse que os britânicos são bêbedos, porcos e deploráveis? Um escritor português chamado João Magueijo. Já vive no Reino Unido há 25 anos e diz que é uma brincadeira, mas a brincar, a brincar, lá se dizem umas verdades.

“Aquilo que mais me irrita no vosso país”, diz João Magueijo, puxando por mais um argumento crítico, “são os chuveiros. Eu adoro banhos gelados, mas isso não existe no Reino Unido. Algo que tem sido uma grande fonte de irritação, há muitos anos. Só existe quente, ou muito quente. Então, se eu não gostar de água quente? O que é que eu faço?” Este estrato é retirado de uma ida a um ginásio de uma universitária, onde encontrou sinaléticas a indicarem a temperatura fixa e imutável de cada chuveiro. “Não existe água fria nos centros desportivos. A temperatura nos chuveiros é fixa e não é possível ajustá-la! Vocês não percebem o quão esquisito isto é?”

Até recentemente, era reconhecido pelos seus estudos em Cosmologia, que realiza há 25 anos em Cambridge e no Imperial College, e, especialmente, pelo seu trabalho em demonstrar que a velocidade da luz é variável. Nas últimas semanas, porém, esta realização foi substituída, pelo menos por enquanto, por algo menos cerebral: um pequeno livro que explica a razão de os “Bifes” serem um conjunto de malucos sexuais, zangados, obesos e snobs. Consta que, na festa de lançamento, o editor disse aos convidados: “Quando Byron veio a Portugal, escreveu algumas coisas pouco abonatórias. Bem, demorou 200 anos, mas a resposta acabou de chegar.”

Segundo Magueijo, o Reino Unido é “é uma das sociedades mais podres da Europa e, possivelmente, do mundo todo.” As suas casas estão mais sujas do que “as gaiolas das aves da minha avó.” A sua dieta é deplorável e “fish and chips” é um parto a que apetece “lavar primeiro com lixívia, antes de ser comido.” O norte do país é “horrível” e o sistema de turmas, na escola, é a fonte de “medo e ódio recíproco”, sendo que o auge britânico é o excesso de bebida consumida e as asneiras que dizem constantemente. Com o livro, o autor pretendia dar ao povo britânico um pouco do seu próprio veneno. “Muito do que digo são referências a situações reais e é por isso que não peço desculpa pelo que escrevi. A referência cultural britânica de serem uns pobres coitados a quem tudo acontece – tudo é uma artimanha, a comida é horrível, as pessoas tentam assaltar-te sempre – é representativa da cultura britânica. Foram alvos fáceis.”

No entanto, existe um outro lado desta história, já que é um país com uma energia criativa muito grande. “Não é apenas na ciência, mas na música, na arte, na poesia, e isso surge das características más. A vida é tão miserável que é necessário fazer algo para não nos suicidarmos. Damos um murro na cara de alguém e é este processo que nos leva a escrever um belo poema.” Apesar das críticas escritas no livro, João Magueijo já não se considera um forasteiro em terras de sua majestade e chega a rever-se em todas as características que aponta. Aliás, na sua mente, o que o tornou num excelente cientista é a mistura destas características na sua cultura pessoal – um entusiasmo nativo e a vontade dos britânicos em fazerem figuras parvas. “Eu tenho esta exuberância muito portuguesa, quando trabalho em ciência… mas, agora, faço parte desta tradição.” É engraçado, constata o autor, no fim, é no momento em que analisa a cultura britânica que ele se apercebe que é nela que pertence.

Curiosidade

Um novo livro sugere que o auto-controlo é a chave para o sucesso e que aprender a retardar a gravidade pode mudar as nossas vidas, mas será assim tão simples?

Duas variáveis do ser humano surgem nas páginas de The Marshmallow Test, um novo livro do professo psicologia Walter Mischel. A primeira refere que, se formos optimistas e esperançosos relativamente ao futuro, teremos mais sucesso na escola, no trabalho e no amor. Também se é mais magro, calmo e sociável, tendo uma maior capacidade de não ser viciado em drogas e de ser poupado financeiramente. O outro tipo de ser humano refere ao tipo de pessoas que não se conseguia concentrar na escola, tinha más notas, era sensível à rejeição e tinha dificuldades com tudo o que envolvia álcool, drogas, pequenos crimes, gordura, amor, doces e amigos. Nada disto é novo, mas o que é extraordinário nos estudos de Mischel é a sua conclusão de que todos estes falhanços estão ligados, através de uma única qualidade: o auto-controlo. Aliás, o autor refere ainda que acredita ter descoberto um método, na forma de simples exercícios mentais, para ajudar o segundo tipo de seres humanos a serem mais como o primeiro.

O seu interesse pelo estudo do auto-controlo em crianças levou-o a criar um protocolo experimental, que ainda hoje é histórico no que toca à Psicologia Social e que ficou conhecido como o Teste do Marshmallow. É uma experiência que envolve crianças em idade pré-escolar, uma selecção de doces e uma campainha. Uma criança senta-se à mesa, com um marshmallow à sua frente, e é deixada sozinha por 10 minutos, tendo de fazer uma escolha entre duas opções – tocar na campainha, para chamar o examinador de volta e poder comer imediatamente o doce, ou não tocar na campainha, esperar que o examinador voltasse e, caso conseguisse não comer o marshmallow, poder comer dois, em vez de um. O teste pretendia descobrir que crianças iriam optar pelo caminho mais difícil e compensador e quanto tempo demorariam até ficarem impacientes por provar o doce.

Anos mais tarde, foi acompanhando algumas das crianças que tinha examinado no seu estudo e ficou intrigado com a correlação entre a capacidade de esperar para comer um doce e a forma como encaravam a sua vida em adulto. Aparentemente, as crianças que souberam ser pacientes até chegar a sua vez de comerem os doces, 12 anos depois, eram bem-sucedidas nas várias áreas da sua vida. Segundo o estudioso, elas “cediam menos à tentação, não se distraiam com facilidade, quando se tentavam concentrar em algo, eram mais inteligentes, resilientes, confiantes e sabiam seguir o seu instinto. Quando se encontravam sob pressão, não cediam… Em suma, elas conseguiam desafiar o estereótipo generalizado de adolescentes complicados, pelo menos aos olhos dos seus pais e professores.”

Então, o que fazer, quando alguém nos diz que podemos mudar o futuro, se fizermos um pequeno esforço no presente? Agimos como sempre agimos, já que, independentemente do número de evidências que sejam apresentadas, existe sempre uma voz que nos diz “isso não leva a nada e, mesmo que leve, não resulta comigo.” Se isto parece um discurso frustrado e um comportamento derrotista, é porque somos seres com um grande grau de frustração e derrotistas por natureza. Somos pessimistas e é normal termos estes pensamentos.

Contudo, penso que existe uma luz de razão nas palavras de Walter Mischel. Nesta última semana, depois de ter lido uma entrevista sua a recordar-me as suas teorias, dou por mim a usar a Técnica de Distanciamento, em que olho para a minha vida, como se fosse um narrador a contar a minha própria história. É algo que me permite desenvolver uma liberdade irónica de todas as situações stressantes em que me encontro, mas será que os seus métodos irão mudar a minha vida? Não sejam ridículos. Eu não sou esse tipo de ser humano.

Boas leituras, Leitores Sombra.

Tags
Show More

Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: