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O Assassinato de Roger Ackroyd

Já disse que adorava Sherlock Holmes, não já? Pois bem, Hercule Poirot é também outra grande personagem policial que adoro.

São, sem dúvida, diferentes e é impossível escolher um ou outro. Sherlock trabalha à base da observação, enquanto Poirot apela à psicologia. Poirot tem quase um transtorno obsessivo-compulsivo (fã da “ordem e método”, como ele diz), enquanto Sherlock não tem preocupações deste género. Fisicamente são quase opostos – Sherlock alto e magro, um perfeito gentleman inglês, e Poirot é baixo e gordo e sobressai em qualquer lado, não só pelo sotaque francês (Poirot é belga), mas também pelo bigode e a forma de andar tão peculiares. Há também diferenças culturais e de comportamento – certamente fruto das suas épocas e dos seus autores.

Porém, embora muito diferentes, partilham os dois uma mente absolutamente brilhante (e uma personalidade por vezes arrogante) e é uma delícia lermos os mistérios de ambos e vermos esse génio a ser posto em prática. E, tal como Sherlock, sinto que Poirot também poderia ter sido real, que é mais uma pessoa do que uma personagem. Não é à toa que a sua criadora, Agatha Christie, é conhecida como a Rainha do Crime.

OAssassinatoDeRogerAkroyd_2

Admito que conheci Poirot através das séries da BBC (David Suchet é perfeito neste papel). Tinha lido livros da autora, mas não com este personagem. Depois de ficar viciada nas séries (tanto de Poirot, como de Miss Marple),OAssassinatoDeRogerAkroyd_1 comprei vários livros e o primeiro que li foi O Assassinato de Roger Ackroyd (em inglês, The Murder of Roger ). Li que a autora tinha quebrado várias regras do The Detection Club (um clube de escritores de policiais, formado em 1930) neste livro, pelo que fiquei muito curiosa.

Sem dúvida que Dame Agatha Christie faz justiça à sua alcunha!

Já tinha comprovado noutros livros que a sua forma de escrever era fantástica, razão pela qual todos os autores deste género a mencionam como uma grande influência. A autora não se concentra só nos mistérios, ou nos personagens: é um todo. É a forma de narrar, a colocação das pistas, o leque de personagens, os segredos, chegarmos ao fim e vermos como todas as palavras se tornam necessárias para descobrirmos o mistério. Este livro (e percebemos especialmente no fim) é a prova disso – de que tudo faz sentido e de que a forma como somos enganados é sublime. Sim, somos enganados, mas ao fechar o livro as peças encaixaram todas perfeitamente e quase que sentimos que nós, leitores, é que não quisemos (soubemos) ver. Poirot olharia para nós e lançaria um qualquer comentário sobre não usarmos as nossas “pequenas células cinzentas”.

OAssassinatoDeRogerAkroyd_3Não quero dizer mais. Sei que falei pouco sobre o livro, mas tenho receio de desvendar qualquer coisa que seja interessante. É que vale mesmo a pena lermos na ignorância, porque a leitura é fantástica e a surpresa no fim é incrível. Pronto, só uma pista: ninguém está isento de matar. Ninguém. Nos livros de Agatha Christie, Poirot pode desconfiar até dele próprio.

Para finalizar, embora não tenha nada a ver com este livro em particular, quero falar um pouco mais de Poirot. Quem conhece este personagem sabe que existe um livro onde ele morre. Agatha Christie deixou escrita a morte de Poirot e um pedido específico que só fosse publicado após a sua própria morte. Um final duplo: não temos a brilhante autora e também já não temos a magnífica personagem. Entendo que ela tenha feito de propósito para não se apoderarem de Poirot e fazerem dele o que quisessem, mas conhecendo vários trabalhos com Sherlock Holmes (após a morte de Conan Doyle) e que são muito bons, não consigo evitar perguntar se não poderíamos ter desfrutado muito mais de várias versões do grande detective belga, Hercule Poirot.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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