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O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago

Um mês depois da morte de Fernando Pessoa, em novembro de 1935, chega a Lisboa, vindo do Brasil, Ricardo Reis.

Uau. Só… Uau.

Quando se abriu na minha imaginação a possibilidade de os heterónimos de Fernando Pessoa viverem além dele, a minha mente quase que explodiu. Adoro Fernando Pessoa, o génio louco. Gosto dos seus poemas, da sua obra, da sua história, gosto de que tenha vários heterónimos com vidas diferentes, dos tons de cada um, gosto de toda a parte espiritual e astral de Pessoa. Curiosamente, já me perguntei se gostaríamos um do outro, tivéssemos vivido na mesma época e nos tivéssemos conhecido.

Adiante.

Depois de vários amigos e conhecidos me falarem deste livro, fiquei cheia de vontade de o ler. Achei maravilhoso e perigoso que Saramago tivesse dado (mais ou nova) vida a Ricardo Reis, tivesse pegado num dos heterónimos e na sua história e decidido torná-lo personagem principal de um livro. Contudo, compensou. Eu, pelo menos, adorei.

Começamos com a chegada de Ricardo Reis a Lisboa, depois de saber que Fernando Pessoa tinha morrido, e com uma visita ao túmulo do seu amigo. Nesta hipótese, havia tanto de extraordinário que fiquei presa a partir do momento em que comecei a ler. Acompanhamos depois a nova realidade deste médico do Porto que retornava ao seu país depois de dezasseis anos no Rio de Janeiro. Os seus amores, aventuras e desamores, a dúvida quanto ao futuro, e a luta com a sua escrita, com os seus poemas. Fazemos parte de conversas literárias e filosóficas, de pensamentos bons e maus, de ameaças e falsidades, personagens típicas, caricaturas e outras únicas, atravessando as barreiras sociais. José Saramago dá-nos a possibilidade de visitar a Lisboa dos anos 30, os mesmos lugares que pisamos hoje, mas diferentes, os costumes e mentalidades, o permitido e o proibido, o que foi e o que permaneceu. Vivemos a política portuguesa e europeia da mesma altura – as invasões de Hitler, Salazar e a PVDE, as eleições espanholas e o começo da Guerra Civil em 1936. Saramago permite-nos não só ter um pequeno vislumbre deste heterónimo e do mundo de Fernando Pessoa, como também uma viagem muito realista e natural ao passado. Nada parece forçado – a linguagem parece adequada, a época viva, Ricardo Reis parece ser natural à pena de Saramago.

Há muito mais, claro: além de tudo o resto, há Fernando Pessoa, sim, ele mesmo. Há até Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, embora brevemente. Também há Camões, claro – a maioria da acção passa-se na Baixa. Não quero dizer mais, porque seria revelar demasiado, mas eu achei delicioso. E há tanto, tanto neste livro! E o final, oh, o final! Sim, já esperamos pelo título, mas o final tem tanto de simbólico… Gostei mesmo, mesmo muito.

Nunca tinha lido nada de Saramago (eu sei, shame on me!) e já tinha ouvido falar bem e mal da sua escrita. Sim, tive de ler com mais atenção, ver se seguia bem todas as vírgulas, todos os diálogos, todas as trocas, não é uma leitura tão fácil e intuitiva. Contudo, deparei-me com um Saramago cheio de humor, que conseguiu um livro espectacular, e que não me defraudou em nada ao escrever sobre este tema – que poderia ter corrido muito mal, ser muito falso, altivo. Não, nada, foi muito fiel a quem gosta de Pessoa, creio eu. Só tive pena de uma coisa: que os outros heterónimos (e semi) não tivessem feito mais parte deste livro, embora imagine que isso sim, ficaria demasiado forçado; o pouco que ele fala deles é o suficiente para tremermos de alegria. Gosto de pensar que se Fernando Pessoa lesse este livro, pensaria «é isto mesmo!».

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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