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ContosCultura

O Ajudante do Pai

Faltavam poucas semanas para mais uma jornada quando o Pai percebeu que o seu querido e indispensável tractor estava desaparecido. Ou pelo menos não estava onde seria suposto. A verdade é que fosse qual fosse o motivo, só o simples facto de não saber dele era o peso da lua pousada no seu peito. Preocupado percorreu todos os cantos do seu domínio, todos os abrigos reconfortantes, todos os esconderijos que construíra para ele. Pensou em todas as rotas de fuga sem conseguir visualizar essa hipótese. Pediu ajuda e um batalhão de voluntários apressou-se na procura.

O Pai estava preocupado. Ele acompanhara-o desde o início em todas as jornadas que fizera até então. Os céus azuis de todo o mundo os viram sorridentes, todas as estrelas do céu os conheciam. Que podia ele fazer sem aquela companhia? Além de ser uma força para si, uma ajuda indispensável, pesava-lhe o coração por não saber dele. Os longos anos idos cimentaram uma amizade inigualável que sempre vencia todos os obstáculos, jornada após jornada, ano após ano.

Sentado num momento de pausa, os anos também em si já pesavam, entrelaçava os dedos gastos na longa barba branca quando gritaram na sua direção.

– Pai! Pai! Encontrei-o.

O Pai correu tanto quanto conseguiu. Perseguiu o pequeno ajudante que o chamara respirando esperança até chegar a já meio quilómetro fora do seu domínio. Num canto, junto a uma rede moribunda, o entristecido tractor tentava em vão esconder-se sob uma lona verde sem vida. Sentia-se como a lona, cor e alma esbatidas, vida ausente, vontade a extinguir-se. As ervas altas e secas em sua volta eram um testemunho de abandono quando deviam ser alimento. O Pai depressa se abeirou dele e pousou a sua mão sob o metal frio e empoeirado, acariando-o, aquecendo-o, acarinhando-o. Sem voz, em silêncio, olhou-o e viu a idade estampada na pele e na alma. Soltou uma lágrima e disse num sussurro.

– Rodolfo, onde ias? Porque fugias de mim? A tua idade não é maior que a minha e ainda temos longos anos e muitas jornadas para percorrermos.

Rodolfo olhou-o e sentiu o amor em forma de calor. Levantou-se nas suas patas ainda a tremer. Pausou por um pouco para depois levantar o seu pescoço e respirar fortemente. A insistencia daquele homem que tinha milhões de renas ao seu dispôr eram raios de sol numa vida cansada. Vagarosamente regressaram a casa, lado a lado. O Pai tratou dele. Limpou-o e devolveu-lhe a cor, alimentou-o e restitui-lhe as forças. Em pouco tempo Rodolfo retribuiu com um sorriso. Elevou-se na sua pose magnífica de animal amado por milhões, respirou e sentiu o seu nariz a ganhar a cor vermelha que era mais que a sua identidade. Era a sua razão de viver e paixão por todos.

Passadas poucas semanas, Rodolfo sentia-se em pleno, como em jovem no início de mais uma jornada. O tempo parara e o Pai subia a bordo para tocar cada casa deste mundo com felicidade, paz e amor. Ainda e sempre puxado pelo seu mais fiel ajudante.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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