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Crónicas

O adolescente de há 30 anos

Em trinta anos, passámos de frases como “o meu Tamagoshi morreu” para “em 3 dias gastei 10 Gigas de net”.
Há 30 anos, não existia nada dessas modernices de redes sociais, Youtubers, gigas de net e a minha maior preocupação era não deixar morrer o meu Tamagoshi, senão a minha mãe passava-se comigo, porque já ia no quinto pobrezito.

Trinta anos separam-me de frases como “pede à minha mãe para ficar em tua casa senão ela não me deixa” para frases como “mãe vou sair e não durmo em casa”. Algum dia eu dizia isto à minha mãe? Isso é que era bom. Olhava para mim a rir-se como se tivesse contado uma piada e ainda me dizia: “esta miúda é tão engraçada”.

A minhas saídas mais ousadas eram aos domingos à tarde nas matinés, lá na discoteca da aldeia, ao som das músicas “Pump it Up” ou o “Summer Jam”, com festinha da espuma das 15h até às 20h. E eram 20h, não eram 20:01. Porque se às 20h não estivesse pronta para entrar no carro dos meus pais, iniciava-se outro tipo de festa.

Os miúdos de hoje em dia falam de Snoop Dog, Kendrick Lamar e mais uns quantos nomes que não me ficam na memória, enquanto que o meu primeiro CD que comprei foi o da Shakira. As miúdas hoje vibram com o “Ele faz tão gostoso” e a “Mafiosa” e eu vibrava, na idade delas, com o “Whenever, Wherever” da Shakira e era a festa lá em casa.

Quanto a vocês, meninas, não sei, mas eu ia para a sala de jantar, agarrava no rolo do cabelo ou no comando e imaginava que estava a cantar no coliseu e, naquelas músicas slow motion, agarrava numa cadeira e uma vassoura, que era para fingir que estava a cantar ao microfone, e cantava como se fosse o Tony Carreira a cantar a mais ilustre canção de amor.

A minha sorte é que a casa dos meus pais é uma moradia e não um apartamento. Os “concertos” no coliseu/sala de jantar, eram realizados ao sábado à tarde, porque de manhã tinha de enfrentar o meu maior castigo: dia de limpeza geral em casa. Eu rastejava, fingia que estava doente, tentava dormir até tarde, dizia até que me doía a barriga, mas a minha mãe não caía nessas falinhas mansas. Punha-me o pano nas mãos e vai limpar como toda a gente. Odiava limpar a casa! A seguir ao almoço, a casa ficava limpinha e eu podia fazer o que queria, desde que não sujasse nada do que tivesse sido limpo de manhã.

Para além dos concertos no coliseu, existiam outras ocupações que me alegravam a alma a um magnifico sábado à tarde.

Um deles era, ir para a casa da minha avó paterna moer-lhe a cabeça. Vestíamos as roupas dela, calçávamos os sapatos dela, fazíamos bolos de terra completamente alagados e, no Verão, enfiávamo-nos naquele tanque enorme que para nós era simplesmente uma piscina olímpica. Ficávamos a tarde toda dentro de água, até que vinha lá a nossa avó com as tolhas e um lanchinho todo bom que ela colocava debaixo da cerejeira à sombra.
Os nossos grupos do WhatsApp era ir chamar os meus primos a casa, mas antes perguntar à minha tia se eles podiam vir para minha casa (que era mesmo, mas mesmo ao lado) para brincarmos. As nossas mensagens do Messenger era ir a casa dos meus primos e perguntar à minha tia se os podia chamar à porta para lhes perguntar uma coisa.

Mandar imagens pelo telemóvel? Sim, sim… Imprimíamos em casa e íamos à casa dos amigos mostrar, ou, então, tínhamos de esperar até segunda-feira e imprimir na escola. Contudo, atenção, a impressão era controlada pelos pais, para não abusarmos no gasto dos tinteiros e era a preto e branco! Que isto de imprimir a cores não era para qualquer um.

Os tempos eram outros e a Internet era, para mim, um mito tão grande como o monstro do Lockness. Aliás, acreditava mais que o bicho existia do que propriamente que algum dia iria existir Internet.

No entanto, recuemos mais um bocadinho, que isto de recordar as nossas tristes figuras vale sempre a pena.

Hoje em dia, os miúdos pedem aos pais para o Natal tudo o que é tecnologia. Eu? Eu, amigos, apenas pedia a quinta dos Pinipon aos meus pais. Só pedia a quinta deles! As vaquinhas, o celeiro, o feno, os cavalinhos, o agricultor… tudo aquilo me fazia ter vontade de ser uma quinteira e conduzir um trator, como os Pinipon faziam. Ainda hoje estou à espera que a minha mãe me compre a quinta. As Nancy’s davam lugar às Barbies e, na minha coleção de coisas sem nexo nenhum, existia um pote com os Tazos que saíam nas batatas fritas lembram-se? Era a disputa na escola para ver quem tinha o maior número de Tazos e era o maior tráfico que se fazia nas escolas. Os meus intervalos na escola eram simplesmente dedicados às Navegantes da Lua. Aquele Mascarado com a rosita na mão fazia delirar qualquer miúda.

As escolas eram dividas em dois grupos: os dreads e os betos. Os que vinham vestidos com o polozinho da Lacoste em cima do ombro com as mangas cruzadas à frente e com uns sapatinhos de vela, daqueles que vinham com as calças ao fundo do rabo, com as carteirinhas de corrente e com um boné de lado, que nunca percebi bem para que tinham o raio do boné, porque até em dias de chuva andavam com o raio do bonézito.

As aulas eram o mais simples possível, tão simples que ficava sempre com as mãos cheias de pó por causa do giz. As aulas de Ciência eram tão animadas que me lembro de uma vez fazer como trabalho um dossier com tudo o que era tubérculos, plantas e ervinhas, todos verdadeiros, colados nas folhas de cartolina. Malta, aquilo como é óbvio começou a ficar podre e a cheirar mal! Os trabalhos eram entregues todos em papéis com o WordArt mais bonito e color fun que havia no Word. O importante naquela altura era ter uma apresentação de Powerpoint digna de ser exposta no MAAT. Depois surgiram as disquetes e a coisa complicou, porque eu estragava tudo o que era disquete, mas ainda hoje tenho algumas guardadas com os trabalhinhos sagrados para passar de ano. Ah! Por falar em passar de ano, sabem como é que a minha professora da escola primária nos dizia se tínhamos transitado de ano? Quando era verão, vínhamos para a rua, punha-nos em fila e dizia um a um quem tinha passado de ano e quem tinha reprovado. Que nostalgia me deu agora!

E continuando… hoje a Netflix satisfaz a vida de quem é estudante e chega a casa e não tem nada para fazer. Pois bem, meus amigos, eu chegava a casa e tinha o meu roteiro feito. Fazer o mais rápido possível os TPC (para quem é da nova geração, isto chama-se “Trabalhos Para Casa”), ver o Batatton, ver o Dragon Ball, lanchar e ir brincar um bocadito com os primos lá fora e, a seguir ao jantar, o Henrique Mendes juntava-nos na sala para vermos o “Ponto de Encontro”. Aquela voz tão calma, tão pacifica e tão aconchegante fazia-me acreditar que ia encontrar qualquer coisa que tivesse perdido.

Eram tempos tão diferentes, mas éramos bem mais felizes.

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