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O “11º Canto” dos GULA

Se a fome é uma necessidade primordial, o prazer provocado pelo açúcar é um luxo só explicado pelo excesso da gula. A gula é um vício que não costuma envergonhar quem o tem. Há até quem assuma a sua capacidade de devorar tudo sem qualquer timidez, de sorriso nos lábios. Ter gula chega mesmo a apresentar-se como uma qualidade. E isto é a mais pura das verdades, se estivermos a falar dos GULA e do seu mais recente “11º Canto”.

É inegável a competência demonstrada nos trabalhos de inúmeras bandas nacionais que nos últimos anos têm vindo a demonstrar que, apesar de vivermos num país pequeno com todos os obstáculos que daí advém, também é possível criar música de qualidade neste cantinho à beira-mar plantado. Os Gula são um dos mais recentes exemplos deste novo paradigma. O projecto foi criado em 2011 e conta com João Campos (guitarra ritmo e voz), Jorge Albuquerque (guitarra solo), Vitor Calado (bateria), Luís Santos (baixo) e Bruno Mota (teclados). Aqui ouve-se, sente-se e vive-se o Rock na sua plenitude.

À medida que a linguagem musical do novo século se torna cada vez mais entrópica, os GULA são a redundância que dá sentido à narrativa. Aquela palavrinha (Rock) reconhecível num país estrangeiro, onde nem o alfabeto é o mesmo. Consistentemente bons, consistentemente iguais a si mesmos. São donos de uma sonoridade livre e sem grandes comparações e “11º Canto” trouxe-nos uma sonoridade fresca e viciante, capaz de nos pôr a balbuciar pequenos sons ou frases simples, sem complexidade. Um banquete repleto de diferentes texturas e sabores, deixando de água na boca até os paladares mais esquisitos.

Este manjar é uma exploração que ocorre de várias maneiras. Não é um álbum simples, não é algo que nos transmita o mesmo em casa, ou no carro. Este disco é uma viagem alucinante pelo mundo da imprevisibilidade, que não segue padrões claros. Este álbum são os GULA e é essa a sua sonoridade. Com temas que cativam à primeira audição, o Rock destes rapazes mostra-se intenso, salteado com momentos de melodia e refrões orelhudos e criando uma mistura agradável ao ouvido. O que dá origem a boas músicas, que demonstram a existência de um bloco sólido, em que as guitarras proeminentes bem como a voz contundente de João Campos são sobejamente auxiliadas pelos pilares personificados na secção rítmica do grupo.

A energia musical dos GULA, tão poderosa e transparente, promove uma distanciação de um mundo inquietante, dos horários, da pressa, dos compromissos, das regras e da rotina. A sua química e coesão são hipnotizantes e explosivas, sem deixar margem para falhas. Com um som próprio, onde a procura de novas texturas e ambientes é a regra principal da ementa, estes cinco rapazes não conseguem passar indiferentes a quem os ouve.

No final, chegamos a casa e a viagem foi algo que nunca iremos esquecer. Este álbum dos GULA supera quaisquer expectativas. Confesso que estava bastante curioso quanto a este novo álbum dos GULA, tinha medo que simplesmente não conseguissem fazer algo tão bom quanto os EP’s já editados. A verdade é que “11º Canto” é uma melodia autêntica e invulgar que nos enfeitiça a cada guitarrada e que merece ser ouvida.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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