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Numa sociedade de magros, o gordo é um estafermo

Quem não conhece, pelo menos, uma pessoa gorda que se atire ao ar! Quando não a conhece, é porque se é a própria pessoa gorda. No meu caso, calha-me a segunda opção. A gorda sou eu.

Cresci rodeada de gente magra. Até na família, a única gorda – bem gorda – sou eu.

Durante anos e anos e mais anos, chegaram os comentários jocosos: “Oh, gorda isto, oh, gorda aquilo” ou só mesmo “oh, gorda”. Seguiram-se as constactações do óbvio: “já viste que estás gorda?”, “como é que consegues ser assim tão gorda?” ou “o quê?! Não gostas de chocolate e és assim?” e, a piorizinha de todas, “és tão bonita, se fizesses dieta eras melhor”. Era melhor o quê? Pessoa ou só era mais agradável à vista? Claro que também existia quem tirasse nabos da púcara e me dissesse o que era o melhor para mim, de acordo com isto, aquilo e aqueloutro. É quando as pessoas dizem que são empáticas e colocam tudo em suposições que iniciam em “se eu fosse a ti”. E é precisamente neste ponto que tudo começa a falhar – a empatia é exactamente o oposto.

É maravilhoso ser-se gordo numa sociedade magra de empatia, emoções e respeito pelo próximo. Só que não!

Coisas tão simples como uma ida às compras ou sentar para fazer alguma refeição fora de casa podem tornar-se pesadelos num ápice.

Entrar em lojas de roupa que colocam um lugar meio escondido só para tamanhos grandes, pode ser algo difícil de aceitar. Está já na altura dos fabricantes de roupa entenderem que tanto gordos como magros precisam de se vestir e, por isso, apostar nas peças logo criadas para todos os tamanhos. É possível que todos ficássemos a ganhar com essa aceitação. O vestuário chamado oversize chega a ser medonho de tão feio e antiquado que é. E o preço? Em alguns casos, parece que se procurarmos bem, encontramos um poço de petróleo.

As refeições fora de casa podem tornar-se assustadoras, caso nos deparemos com cadeiras de plástico. Ao sentar, quase que se sente uma gota de suor a descer pelas costas, pelo medo gritante de vir a partir a cadeira.

Ser gorda não é pêra doce. É levar com olhares recriminatórios constantemente. É ter de ouvir perguntas estúpidas, umas atrás das outras. É ser discriminada, gozada e colocada à margem vezes sem fim, apenas e só porque se sai do padrão daquilo que, nas mentes mais tacanhas, é aceitável.

De todas as perguntas que me fazem, há uma que nunca me chegou aos ouvidos: nunca me perguntaram se sou feliz, embora isso se note claramente, quando alguém me vê.

Não! Foda-se! Aliás, fodam-se! Não é o meu peso que declara se sou ou não feliz. Se consigo ou não alcançar as metas a que me proponho. Não é sequer o que faz de mim aquilo nem aquela em que me tornei. Todos os gordos que conheço foram alvo de gozo constante na escola e eu não fui excepção. Uns acabaram por ser engolidos pelos complexos, uma vez acreditando no que lhes era dito, nos rótulos que lhes colocavam. Outros há, muito poucos, que deram a volta por cima e hoje estão no papel daquele ditado “quem ri por último, ri melhor”.

Eu aprendi a aceitar-me como sou e só daí partir para a mudança que eu sinto que me vá fazer bem e trazer mais qualidade de vida. Por mim e para mim. Nunca em função daqueles que me apontam o dedo. É uma falácia, querer agradar aos outros sem que antes nos respeitemos como queremos que outrem nos respeite primeiro.

Outro erro é acreditar que “se X conseguiu, eu também consigo”. Não! X conseguiu, porque trabalhou para isso, por acreditar ser possível e se colocou de corpo, alma, coração e vontade na meta que definiu. Não tomem o senso comum como sendo bom conselheiro, raramente o é e, neste caso, as comparações de nada servem. Fiquemos antes felizes, porque X chegou onde se propôs.

Numa altura em que numa sociedade de magros, o gordo é um estafermo, façamos também por mostrar à tal sociedade que somos válidos – a todos os níveis – que precisamos de respeito, em vez de reprovação. Mostremos que há gordos e gordas felizes, realizados e realizadas profissional e emocionalmente.

Ensinemos à sociedade que julgar logo só pelo peso é preconceito. Sê-lo-á sempre e isso nada de positivo traz a ninguém, muito pelo contrário.

Acima de tudo, que tenhamos sempre a capacidade de não permitir que o que nos entra ouvidos dentro e que nos diminui não tenha outro impacto, se não o de nos mostrar o quão importante é o alimentar e preservar a nossa autoestima, amor próprio e equilíbrio. Com peso a mais ou não.

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Sofia Fonseca Costa

Nasceu numa quarta feira de Novembro, no ano 1984, mas não gosta de meio termos. Desde que se lembra que quer ser escritora e mãe. Dizem que no canto do seu sorriso mora um arco-íris. Vive para as palavras e afectos. Não gosta de chocolate. É formada em jornalismo e fez teatro durante mais de uma década. Mãe de quatro filhos a quem chama de Soneto. É autora do livro Murmúrio Infinito. Chamam-lhe Sofes Marie.

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