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[Novembro] Entre o Ser e o Não-Ser

A importância de qualquer eleição política só é evidente, quando o evento já faz parte da história de uma sociedade e é analisado como tal. A habilidade de medir o impacto de uma eleição depende muito da forma como as pessoas eleitas se comportam perante o desafio que a posição para a qual se candidataram apresenta. Durante as campanhas eleitorais, é possível ouvir promessas e planos que estão a ser criados para o caso de ser a escolha do eleitorado, mas é o resultado do termo da sua legislatura que, normalmente, irá ditar em que contexto histórico irá ser colocado. Nesse momento, não são as suas promessas que irão ser julgadas, serão sim as suas decisões e as suas acções que irão falar mais alto.

What we have already achieved gives us hope – the audacity to hope – for what we can and must achieve tomorrow.

(Barack Obama)

Barack Hussein Obama foi eleito o 44º Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), em Novembro de 2008, derrubando a última barreira racial presente na política norte-americana, com a força e a confiança de que o país o escolheu para ser o primeiro presidente afro-americano da maior economia mundial. Esta eleição representou, na altura, uma catarse nacional, demonstrando repudio por um presidente republicano historicamente impopular e pelas suas políticas internacionais e económicas e optando por abraçar a mudança de direcção proposta por Obama. Comparativamente, o momento teve um significado simbólico mais importante para a evolução da história racial deste país, uma grande conquista que, aparentemente, seria impossível dois anos antes.

If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible, who still wonders if the dream of our founders is alive in our time, who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.

(Barack Obama)

Horas antes das mesas de voto abrirem, o dia começou a construir-se de momentos históricos, com os cidadãos de várias cidades a fazerem fila para exercerem o seu direito de voto e fazerem parte do culminar de uma campanha que, durante dois anos, angariou uma extraordinária atenção por parte do público americano. À medida que os resultados foram sendo conhecidos e Obama foi alcançando marco histórico atrás de marco histórico, vencendo em Ohio, Pensylvania, New Hampshire, Iowa e Novo México, muitos americanos saíram para as ruas, para comemorarem o que muitos descreveram como o início de uma nova era num país onde, há 147 anos, o candidato eleito, um afro-americano, poderia ter sido um escravo.

Just a little more than 10 years ago, it was inconceivable to any of us that we would see an African American win a national party’s ticket and then compete effectively. It’s mind-blowing how much this means about the opportunities available to all people – Asians, Latinos, and other people who’ve historically been locked out of the system.

(Barack Obama)

A animosidade e a desconfiança entre raças continua a ser um dos maiores problemas que se vive nos Estados Unidos da América, sendo que a resolução dessas diferenças e o fim deste estigma o maior desafio que é enfrentado por esta nação. A maioria branca luta por manter todos os direitos que conquistou, enquanto que as minorias sentem que esses mesmos direitos são-lhes negados. Houve um tempo em que os norte-americanos viam no seu país um grande melting pot, onde as diversas culturas que compõem os EUA estão unidas sob as insígnias da liberdade e da independência. Apesar da população negra ser o exemplo mais visível da falha que é a promessa desta insígnia, qualquer emigrante já foi alvo de alguma forma de discriminação racial, à medida que foi assimilando na sua cultura as características da cultura predominante norte-americana. O país, durante anos, em vez de se construir como uma nação de pessoas unidas por laços comuns, transformou-se numa colecção de estados divididos por visões políticas, culturais e democráticas divergentes. Os norte-americanos vivem num mundo  composto de vermelho e azul, de preto e branco, de sexo ou raça, de democratas e republicanos, preferindo-se ver como um “nós e eles”, em vez de se verem na união de um “nós”.

[Ann Nixon Cooper] was born just a generation past slavery; a time when there were no cars on the road or planes in the sky, when someone like her couldn’t vote for two reasons – because she was a woman and because of the color of her skin.

(Barack Obama)

Aqui vivem-se as consequências de um pecado original com mais de 400 anos – a escravatura, que está tão bem retratada no filme de Steve McQueen, 12 Years a Slave. Exemplo disso é uma das cenas mais marcantes do filme, na qual é possível observar Solomon Northup, um afro-americano que nasceu livre e que foi raptado para ser vendido como um escravo, suspenso numa árvore, com um pé no chão enlameado. Por detrás dele, outros escravos continuam as suas tarefas no campo, num dia normal nas plantações no Louisiana, em 1840. Quase foi enforcado por se ter defendido dos ataques de um capataz, mas foi, antes, deixado a balançar com uma corda ao pescoço, no meio caminho entre a estabilidade e a aniquilação. É, exactamente, neste meio termo que irá viver durante 12 longos anos.

So we passed, hand-cuffed and in silence, through the streets of Washington – through the Capital of a nation, whose theory of government, we were told, rests on the foundation of man’s inalienable right to life, LIBERTY, and the pursuit of happiness.

(Solomon Northup)

O filme é baseado na história verídica de Northup, que narrou os seus 12 anos de cativeiro num livro publicado em 1853. Nascido nas montanhas Adirondack, nos EUA, em 1807, como um afro-americano livre, tornou-se violinista e viveu uma vida calma com a sua mulher e os seus filhos, em Saratoga, Nova Iorque. Depois de ter sido convidado para se juntar a um circo, para tocar numa digressão pelo país, é embriagado numa noite, em Washington D.C., e, ao acordar no dia seguinte, acorrentado a outros escravos, à medida que vai sendo levado para fora da cidade, apercebe-se que vai ser vendido como um escravo. Indo parar às plantações do Louisiana, acaba por ser trocado, emprestado e, em determinado momento, usado como moeda de pagamento de uma dívida. Durante todo este processo, tem de manter para si a sua consciência enraivecida de homem livre, porque corre o risco de despertar a fúria dos homens e das mulheres cuja auto-estima está assente na crença de que ele é um animal. O que mantém vivo na sua alma (a esperança de uma melhor vida) coloca a escravatura sob uma perspectiva muito negativa.

There have been hours in my unhappy life, many of them, when the contemplation of death as the end of the earthly sorrow – of the grave as a resting place for the tired and worn out body – has been pleasant to dwell upon. But such contemplations vanish in the hour of peril. No man, in his full strength, can stand undismayed, in the presence of the ‘King of Terrors’. Life is dear to every living thing; the worm that crawls upon the ground will struggle for it. At that moment it was dear to me, enslaved and treated as I was.

(Solomon Nothup)

O filme desenvolve-se num mundo em que a escravatura é um facto da vida e Northup não tem ao que recorrer para lutar contra a sua prisão, sendo agredido ferozmente de cada vez que tenta afirmar-se como o homem livre que era. O seu nome é-lhe retirado e é rebaptizado Platt Hamilton a caminho do mercado de escravos, onde é comprado, trocando de dono três vezes, ao longo do filme. Dois destes donos conseguem ter uma atitude tão decente como as circunstâncias o permitiam, ao encorajá-lo a continuar a fazer o que fazia para ganhar dinheiro em Nova Iorque, quando era um homem livre. Contudo, o seu terceiro dono, Edwin Epps, um homem que justifica os seus actos com as escrituras sagradas e que sente orgulho em “destruir” escravos desobedientes, torna-se no tormento da existência de Northup. Na sua plantação, “Platt” vê-se envolvido numa dança sexual angustiante, que envolvia Epps, a sua bela escrava, Patsey, e a sua mulher, Mary, num conjunto de cenas repletas de humilhação, repugnância por quem é diferente e de maus tratos selvagens.

The existence of slavery in its most cruel form among them has a tendency to brutalize the humane and finer feelings if their nature. Daily witness of human suffering – listening to the agonizing screeches of the slave – beholding him writhing beneath the merciless lash – bitten and torn by dogs – dying without attention, and buried without shroud or coffin – it cannot otherwise be expected, than that they should become brutified and reckless of human life… There may be humane masters, as there certainly are inhuman ones… nevertheless, the institution that tolerates such wrong and inhumanity as I have witnessed, is a cruel, unjust and barbarous one.

(Solomon Northup)

Não existe nada de ambivalente em Solomon, de cara redonda e convidativa e que, mesmo estando acorrentado como um animal, se recusa a acreditar no que lhe está a acontecer. Num momento, pouco depois de ter sido raptado, Nothup é acompanhado por mais dois escravos, que debatem sobre a hipótese de poderem lutar pela sua liberdade, mas acabam por sucumbir à ideia de que, para sobreviverem, têm de se rebaixar perante a sua situação. Ao ouvir esta conclusão, o protagonista de 12 Years a Slave abana a cabeça, demonstrando a sua discordância, já que, segundo o seu ponto de vista, a mera sobrevivência não é suficiente e que o que ele mais quer na vida é viver.

É com este pecado da escravatura a viver nas veias da história norte-americana que a eleição de Barack Obama, em 2008, ofereceu ao país a hipótese de refutar a imagem de que é governado por uma maioria branca. A sua eleição permitiu terminar com a percepção de que os afro-americanos são excluídos e silenciar as suas acusações de que são marginalizados perante a sua posição como americanos. O presidente americano, o primeiro negro a ocupar esta posição, tornou-se, assim, no elo de ligação das várias raças que compõem os Estados Unidos da América e ajudá-los a olharem para um futuro em conjunto, em vez de estarem presos a um passado de segregação.

I don’t want to survive. I want to live.

(Solomon Northup)

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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