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No metro

Andar de metro era uma perdição para os mais novos, sobretudo se a estação tivesse escadas rolantes. Era brincadeira pegada e sem fim. Subiam pelo lado da descida e enfrentavam as leis da física, de frente, ainda sem o saberem. A adrenalina libertada era tão intensa que nunca queriam desistir. Só com as palavras “pedagógicas” dos funcionários do metropolitano é que as coisas acalmavam. Durante uns dias não apareciam, mas a malandrice e a pré-adolescência eram mais fortes e tudo voltava ao inicial. Não tinham emenda.

Uma das estações tinha um pequeno museu. Eram peças romanas e de períodos anteriores, que tinham sido descobertas aquando das escavações para a construção da rede subterrânea. Estavam em exposição, em vitrines, onde os vidros permitiam a sua completa visualização. A iniciativa era louvável, mas o público era muito desinteressado. Iam quase sempre a correr e não havia tempo nem disposição para apreciar aquele tesouro arqueológico. Era da história ancestral da cidade que se tratava, mas poucos queriam saber. Tinham o destino em vista e era isso que os motivava.

Naquele dia eles pararam a olhar. E viram. Repararam que eram taças, pedaços de cerâmica e tantas outras memórias dos tempos anteriores. Eram 2 rapazes e 1 rapariga. Os olhos dela deliciaram-se, mas os deles fecharam. “Para que é que eu preciso de ver isto?” Ela se sentiu atraída, não o sabia explicar. As peças pareciam falar com ela e visualizava romanos, iberos e celtas naquele mesmo local Eles queriam andar no metro, mudar de carruagem e de estação. Era legítimo para os seus 10 anos. Ainda faltava crescerem tanto!

Era a hora de almoço, quando o movimento é ainda mais forte. Entradas e saídas das carruagens, uns empurram, os outros fazem de propósito e ninguém repara em ninguém. É o imediato. Barulho, apito e o comboio continuava a sua viagem rotineira. São tantas as caras, todas impessoais. Como será a vida daquelas pessoas? De onde vêm e para onde vão? Que histórias é que viveriam? O olhar lançado não é de visão, mas de pressa, de chegar ao destino. Entram. Saem e continua o movimento que nunca termina.

Eles ficaram sentados a observar o movimento como se fosse um filme. A hora de almoço estava a acalmar e os horários eram mais espaçados. O último já ia ao fundo do túnel e a estação acalmava. Do outro lado estava um homem de mãos nos bolsos, olhava para um lado e para o outro, ansioso. Parecia ter um ar sofrido e triste. Ela levantou-se, subiu as escadas, atravessou a entrada, desceu as escadas e ficou ao lado do homem, que olhava com ar assustado. As mãos mantinham-se nos bolsos e, no chão, uns pingos de sangue, muito vermelho, fizeram com que a miúda lhe perguntasse se estava bem. Ele afastou-a de modo brusco.

Sem que ele desse conta, ela agarrou-lhe no braço, talvez para o auxiliar. Perguntou-lhe se estava magoado. Subitamente a mão dele sai do bolso e junto a ela 4 dedos, carregados de anéis, de uma mão feminina. Um grito! Que é isto? Ela recua, um passo, horrorizada e as outras pessoas rodearam-nos. Os rapazes já estavam ao seu lado, atónitos, como os outros, com o que viam.

A mão feminina, caída no chão da gare, ensanguentada, com os anéis a brilharem sob a luz eléctrica, era um cenário difícil de acreditar. Ela olha para ele e solta um “Assassino! Onde está a senhora?” O homem tenta fugir, mas é travado pela multidão. Do outro lado da estação o funcionário dá ordens para a encerrar e chama a polícia.

A rapariga pega na mão, sem saber o que fazer. Começa aos pontapés ao homem e foi preciso travá-la. As palavras que saíam da sua boca eram impróprias para a sua idade, mas tão adequadas para aquele destinatário. Chega a polícia e algema o meliante que negava tudo o que lhe perguntavam. Não foi chacinado, porque a miúda nem o permitiu.

Num dos túneis de acesso, caída a um canto, estava uma senhora obesa, branca como um lençol, trajando um casaco de peles, gritando baixinho, por socorro. Uma das mãos agarrava a sua mala, junto ao peito e na outra mão, um polegar e uma imensidão de sangue. Como é que ninguém viu nem fez nada?

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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