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No hospício

Tudo era escuro naquele edifício, até a luz. Amarela, muito fraca, nem aquecia a claridade. O bloco era tão grande que parecia não ter fim. As janelas, gradeadas, todas iguais, faziam lembrar olhos que não viam, mas que miravam com atenção. Cheirava a mofo, a fechado e a final de qualquer coisa. Os andares eram todos iguais e facilmente se perdia a noção da realidade.

Após a passagem pela porta grande, a chamada porta principal, uma enorme sala mostrava tantos e tão variados rostos, uns envelhecidos e outros esquecidos de si. Sentadas, em pé, a rebolar, havia todo o tipo de pessoas, novas e velhas, largadas naquela casa que parecia dormir para sempre.

A um canto, num sofá muito velho, um homem olhava para as mãos e falando com elas contava segredos de outros tempos. As palavras eram audíveis, mas não faziam sentido. Mirava uma mão, depois a outra e o diálogo continuava até que as duas intervenientes se pousavam no colo. Depois olhava pela janela, perdido em algo que só ele sabia.

No lado oposto uma mulher, de totós no cabelo e pintura garrida nos olhos, brincava com uma boneca. Pegava ao colo, dava-lhe beijos e embalava-a como se fosse uma criança. Cantava baixinho, canções de embalar e dançava como se a vida fosse um baile. Usava uma saia com folhos e tinha um babete a proteger a blusa. Da boca soltava-se a baba, livremente, em catadupa.

Junto a outra janela estavam duas cadeiras ocupadas por duas senhoras, muito compostas e muito direitas. Comentavam as últimas novidades e admiravam-se com a ousadia da nova geração. No tempo delas não era nada assim. Claro que essas atitudes justificavam as críticas. Ajeitavam os joelhos, puxavam as saias e rodavam os ombros. Esperavam sentadas por alguém que nunca viria.

Quatro homens tentavam jogar às cartas. Colocavam-nas na mesa, mas cada um fazia um jogo diferente. Atiravam as cartas, com força, para o centro e gritavam palavras que nada tinham a ver com o que estavam a fazer: bingo! xeque-mate! golo! toma! Uns riam, mas outros tinham ar furioso e desapontado. Uma parceria estranha e peculiar.

Três senhoras faziam crochet e tricot. As linhas, agulhas e lãs circulavam como se tivessem vida própria. Uma camisola, um cachecol, umas meias, qualquer coisa que servisse para entreter. Chegando ao fim era desmanchado e transformado numa outra peça que ninguém iria usar. Falavam animadamente sem perceberem que eram prisioneiras delas próprias.

Uma sirene fez virar a cabeça a alguns dos hóspedes. Hora do lanche meninos. A voz ecoava na sala, mas não chegava a todos. Uma batalhão, vestido de azul claro, avançava e distribuía fatias de pão e copos com café com leite. Eram crianças grandes que precisavam de toda a ajuda para se alimentarem.

Vá lá querida, abra a boca. Este é um avião e quer aterrar. Só mais um pedacinho. Vamos lá a mastigar. Só um golinho. Viu? Não custou nada. Mais outro. Já falta pouco. Outra senhora partia o pão em pedaços pequenos e fazia bolinhas. Está a ver minha linda? Vamos brincar com as bolinhas. Quem ganhar pode comer todas!

Junto à mesa grande, um auxiliar alinhava na brincadeira. Vamos andar de barco e dar de comer aos patos? Primeiro temos que beber tudo para ter forças para remar. Fazia o gesto e o velhote imitava-o. Que forte! Depois bebia o leite e mastigava a côdea, mesmo sem dentes. Remava outra vez. Estamos quase, não estamos? Sim. Os patos estão à espera. E a tarefa ficava concluída.

Outros viravam a cara e recusavam-se a comer. Sabiam que tinham chegado ao fim da linha e queriam parar. Não se sabiam explicar, mas sentiam-se gastos. De nada servia o alimento. A sua alma já estava morta há muito. Uns atiravam com os copos ao ar e o líquido entornava-se. Então meus amores, que é isto? Os meninos têm de se portar bem.

Eram tantas as variantes que se tornava difícil entender. Como tinham ido para ali? Adultos que tinham ficado crianças e outros que nunca o tinham deixado de ser. Os dias eram iguais, com a mesma cor do edifício, com a mesma alma destroçada e retalhada de dores avulso e perdidas. O tempo tinha-se ecoado e deixara de ter valor. Horas a seguir a horas e dias que se seguiam a outros.

Poucas visitas recebiam e faziam nenhuma diferença. Quase não se lembravam de quem tinham sido ou o que faziam. O tempo nunca tinha existido, somente o ser e não o viver. Que vidas eram aquelas, vazias e monótonas que não irradiavam luz? Teriam existido ou eram meras sombras da realidade?

Quem os cuidava ia definhando, colando-se a esta ausência de vida, de brilho, de energia que se dissipava sem que dessem conta. Morriam aos poucos, os olhos deixavam de ver e a alma de sentir. O tempo e o espaço perdiam a sua norma e a luz e a escuridão seriam tão amarelas como a luz que ainda os iluminava.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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