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No espírito da Road Trip

Finda Las Vegas e feitas as despedidas, um novo dia nascia com a minha individualidade a gritar alegrias. Chegava a fase da viagem em que eu iria onde queria, como queria, por onde queria. Tudo pensado por mim à minha medida. Não é todos os dias que podemos fazer uma viagem tão ambicionada, tão sonhada e planeada há tanto tempo.

Pouco passava das nove horas da manhã quando saí do centro de automóveis de aluguer do aeroporto. Um verdadeiro centro comercial em forma de silo automóvel, funcional e eficaz, com cada um dos quatro ou cinco pisos destinado a uma ou duas grandes companhias de aluguer. Ir aos Estados Unidos, especialmente ao lado oeste do país, pressupõe-se o aluguer de uma viatura. As distâncias a percorrer são imensas, tudo parece tão perto num mapa, mas na realidade fica-se a saber porque os americanos têm aquela ligação ao automóvel que por vezes parece ridícula aos olhos europeus. Pegar num carro para ir ao café comprar tabaco, ali tem que ser assim, caso contrário arrisca-se uma caminhada de meia hora ou mais em cada sentido. Também por isso os valores a pagar são tão acessíveis comparando com a realidade europeia. Fica relativamente barato alugar um bom carro e o preço da gasolina abaixo do euro por litro também ajuda. Enfim, a única maior preocupação a ter é aprender alguns truques de condução. Poder virar à direita com o sinal vermelho, parar com o sinal amarelo, inexistência da regra da prioridade mas parar sempre em cada cruzamento, etc. Truques e regras que se aprendem muito facilmente, mas que é preciso sabê-las.

Finalmente a viagem, o carro na estrada e espírito pronto. A auto-estrada era ali perto mas eu ignorei-a e comecei por percorrer as ruas dos bairros residenciais a sul de Las Vegas. Pude ver aquelas ruas largas ladeadas de vivendas e de uma forma de habitar tão própria da América, expressa nos longos subúrbios que se estendem por quilómetros. Não há comércio, não se vêm serviços, apenas habitações, moradias a estender de vista.

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Subúrbio sul de Las Vegas. Imagem do Google Earth.

Los Angeles esperava-me a oeste. Por fim, entrei na auto-estrada e segui para este. Tinha um caminho há muito escolhido, por uma única razão. Queria cruzar o Deserto de Mojave por velhas estradas sem movimento, longe das pessoas. Alguns quilómetros depois segui para sul, entrando na Interstate 95. Tive então o vislumbre da paisagem que perseguia. Uma longa descida, a estrada desenhada com uma régua e a perder-se num horizonte distante. Há volta, vestígios indistintos da presença do homem, montanhas douradas a fechar a planície e o calor do deserto, seco e violento. Viagem calma, capota descida e o vento a falar comigo, não deixava ouvir música, mas dizia-me que consegui. Estava ali, não era uma visão, um sonho ou um projecto. Eu estava ali ao volante de um Mustang descapotável e nos próximos 150 quilómetros quase não tinha curvas para fazer, podia descontrair e sentir o carro a devorar o alcatrão regurgitando-o para trás de si.

Por fim, entro na Califórnia. Vejo um polícia no seu enorme SUV e quase perdia a estrada que perseguia. Felizmente uma passagem de nível obrigou-me reduzir drasticamente a velocidade. Logo depois estava lá, as marcas no alcatrão não mentiam. Route 66 podia-se ler. Estava agora numa estrada estreita de piso envelhecido por décadas de uso, deserto de um lado, deserto do outro. E o prazer da condução tornou-se inigualável. Não sei precisar ao certo, mas foram cerca de 20 minutos naquela estrada, em rectas e curvas suaves, lado a lado com um comboio de mercadorias que parecia não ter fim, Depois cheguei ao primeiro local que queria sentir, Goffs Town.

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Na Route 66.

A primeira grande ambição daquela viagem estava conquistada. O sentimento da road trip esteve bem presente, condução sem pressas, a poder viajar por viajar, a sentir a estrada aberta. As estradas que encontrei corresponderam às minhas expectativas, em especial aqueles primeiros quilómetros da parte californiana da icónica Route 66. E principalmente sentir o calor e a solidão que grassa naquele deserto, tocado pelo homem sem excessos, como se o próprio Mojave o permitisse até se sentir invadido. Deu-me as boas vindas com um calor acima dos 40 graus. E eu agradeci.

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Ford Mustang Convertible. A melhor maneira de se sentir o espírito de Road Trip.
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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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