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Ninguém a viu realmente

Arrumou os livros todos como se fosse uma despedida. Seria isso o que os colegas diriam quando falassem dela: que tinha deixado o trabalho todo feito como se soubesse que nunca mais iria voltar. Arrepiariam-se ao dizer aquilo, como se ela tivesse sentido algo que eles não souberam identificar. “Até estou arrepiado” mostrariam o braço nu ao jornalista que falasse com eles.

Clara saiu da Biblioteca numa quinta-feira às 20 horas e 3 minutos.

Ninguém a viu sair. Pelo menos, não realmente. Como tantas vezes no dia-a-dia, aconteceu tudo à base de impressões, de “acho que vi”, de meias medidas, de pedaços. Uma vida de esguelha, a parecer ver. Era normal não se conseguir prestar atenção a tudo e ninguém questionaria não a terem visto sair, mas eles guardaram segredo como se se tratasse de um erro fatal, de um pecado, de um crime. Todos se sentiram envergonhados e com um gosto amargo na boca. Tinha sido um tempo desencontrado. Um tempo desconcertado. Alguém se lembraria de um relógio atrasado, de uma unha negra.

Tinha tudo sido por um triz.

Uma das colegas, que arrumava uns caixotes que tinham chegado essa tarde com livros infantis doados à Biblioteca, ouviu Clara a acabar de arrumar os livros de autores portugueses e pareceu-lhe ver a blusa dela, azul clarinha, entre as prateleiras. Quando olhou melhor, como se a mente lhe tivesse pregado uma partida e ela quisesse ter a certeza que era real, não a conseguiu localizar. Outra colega, que tinha acabado naquele momento de arrumar os livros em espanhol e ia para o escritório buscar o casaco e telefonar ao marido, ouviu uns passos a correr para a casa-de-banho. Quando olhou para ver quem era, ouviu, ao mesmo tempo, o trinco da casa-de-banho a fechar. Percebeu que era Clara porque ela tossiu. O colega mais velho estava num pequeno escritório interior, com a chave em cima da mesa à espera que todos acabassem enquanto folheava um jornal qualquer. Ouviu-a a despedir-se com um “até amanhã” mas quando olhou para cima e repetiu a despedida, Clara já não estava. Pareceu-lhe ver o cabelo ruivo a desaparecer porta fora naquele momento. O colega das limpezas já tinha chegado, ia começar a fazer o seu trabalho quando espreitou para ver as horas no relógio por cima da porta principal – 20h03 – e já só ouviu a porta da Biblioteca a fechar atrás de Clara. Ou julgava que era ela, porque os outros colegas ainda lá estavam todos.

Ninguém a viu realmente depois de almoço, mas só eles sabiam. Nunca disseram que não a tinham visto. À polícia, aos familiares e aos jornalistas sempre falaram desses momentos como se lhe tivessem visto o sorriso na cara de menina feliz e eles lhe tivessem sorrido de volta: momentos importantes, momentos com tempo. Talvez ela já só fosse um produto da imaginação deles.

Clara saiu da Biblioteca e nunca mais foi vista. Desapareceu. Aquele lugar não tinha câmaras – a vida ali não era uma série policial. Na paragem, a apenas vinte passos da Biblioteca, as pessoas que a conheciam de vista não a tinham visto como era costume, nem a sair da Biblioteca, nem a chegar à paragem. Não estranharam porque não se lembraram dela. Não viram nenhum carro passar e não passava nenhum autocarro há uma hora. Alguém disse que talvez tivesse ouvido um grito. Alguém disse que talvez tivesse ouvido pneus a chiar, uma travagem, um arranque, uma mota?

Mas a verdade é que ninguém sabia e ninguém tinha prestado atenção. Como sempre, tinha passado o dia pelo canto do olho. Tinham vivido pelo canto do olho. E ela tinha desaparecido por um triz, muito antes de ninguém saber dela.

Ninguém a tinha visto, não de verdade. Não realmente. Por um triz. Só um menino de três anos, arrastado por uma mãe que falava ao telemóvel, diria que tinha visto uma senhora a desaparecer à porta da Biblioteca. Desaparecer no ar, insistia, como fumo ou uma nuvem. Tinha desaparecido como uma memória, diria ele de forma erudita. Mas rapidamente a mãe o calou com a desculpa de uma imaginação fértil e ninguém ouviu aquela história.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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