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Neste quarto escuro

O quarto está escuro, e ele está desperto. Não consegue dormir. No quarto escuro, o único som é o assobio constante que marca a sua respiração. Com os olhos abertos, olha sem ver, olha para as paredes, para a janela com os estores corridos, olha para o negrume do escuro.

Vira-se na cama, fecha os olhos, tapa-se até ao queixo. Abre os olhos. Com uma mão de fora, a enfrentar o frio do Inverno do mês de Janeiro, tenta tocar no telemóvel para ver as horas: 3 da manhã. Nenhuma chamada perdida, nem nenhuma mensagem Nada ainda. E ele não pode ligar, não quer incomodar. Mas quer saber. Precisa de saber, porque está a enlouquecer. Pega no comando da aparelhagem e liga-a. Assim talvez se consiga concentrar num som diferente que não seja a sua respiração asmática, o frio nervoso que sente na barriga proeminente. Não reconhece a música, mas não muda a estação de rádio. Esconde a mão e sente o aconchego de um arrepio que chega debaixo da manta. Sabe bem, este calor da manta. Sorri sozinho de olhos fechados.

Abre-os de seguida. Agora sim, uma música que conhece! Tenta cantar um bocadinho, baixinho, como se houvesse algo ou alguém para acordar – porque não há, porque está sozinho. Mas não é isso que interessa. Por isso canta e mexe os pés sincronizadamente, de um lado para o outro, lembra-se dela que tanto gostava de dançar, e por um momento esquece-se da sua preocupação e sorri um pouco, sozinho, nas suas memórias, nas suas melodias, sem medo do ridículo.

Relembra-se. Algo na música o relembra, e volta a sentir um frio na barriga e uns arrepios que não são do Inverno. Não consegue descansar, não consegue fingir que pode dormir. Não pode. Há já uns dias que se sente nervoso, preocupado, impaciente. Mas hoje é um dia diferente. Tem um pressentimento e não consegue mesmo dormir. Sabe que lhe vão ligar, não sabe porque sabe, só sabe que sabe. Vão ligar e ele quer estar acordado, preparado, quer saber logo como…

O telefone toca. Ele assusta-se e dá um pequeno salto debaixo da manta. Atende o telefone com o coração a bater muito rápido.

“Sim?”

“Pai? Pai, estamos no Hospital!” ouve a voz do filho no outro lado da linha.

Desliga o telefone e começa a chorar, sem querer, sem controle. É hora de ir. O seu primeiro neto vai nascer.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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