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Nem Leonardo pintou apenas a Gioconda, como Picasso não despiu só as Demoiselles de Avignon

Hoje acordei muito bem-disposto e o dia correu-me lindamente, pelo que tenho de dizer mal de alguma coisa, não vá nascer-me um resplendor em torno da cabeça. Não porque possa ofuscar alguém, mas porque revelaria a coroa – a careca. Embalado na música de Ennio Moricone, o tema icónico do filme O Bom, o Mau e o Vilão, e encarnei a personagem de Clint Eastwood, mas, em vez de pistolas, tenho um teclado. É que música liga lindamente com vinho – esperem aí que já vos atendo.

O que é o bom e o que é o mau? Onde começa e acaba, ou “gosto” ou “não gosto”? O que significa “muito” e “pouco”? Questões que se colocam em tantos assuntos e que resultam numa tripla de Totobola.

As afirmações redondas – peremptórias – costumam criar inimigos e eu nem gosto de “definitivos”, nem de inimigos. Portanto, vão criticar-me por ser conciliador… banana, dirão os cáusticos. Para que seja fácil, vou escrever exemplos concretos e identificáveis, mas que não são únicos.Disse-me uma colega que o seu vinho preferido era o Casal Garcia. Disse-me com uma expressão de receio que a condenasse – como se eu tivesse esse direito – e justificou-se… Perguntou-me o que achava.Respondi-lhe com educação: se gostas, que tenhas bom proveito. Já afiaram os dentes? Não, não. A boa educação não foi por não a criticar, mas por “reconhecer-lhe”o direito a gostar do que gosta – entre aspas, porque há muitos doutores que não toleram.

Ponto de situação: o Casal Garcia é um mau vinho? Bem, custa cerca de 3,50 euros… E?… Questão do preço: o estabelecimento dum preço obedece a vários critérios, um deles pode ser o da qualidade. Porém, não é único, razão pela qual há zurrapas francesas caras e belíssimos alentejanos modestos no preço.Não sei quantos milhões de litros de Casal Garcia são produzidos. Sei que a marca é antiga – um ponto a favor da qualidade, ou já teria morrido. Sempre com grande consistência de géneroe bom resultado de vendas.Podemos enganar toda a gente. Podemos enganar algumas pessoas para sempre, mas não conseguimos enganar toda a gente para sempre. É claro que o Casal Garcia é um bom vinho. Como é o Mateus Rosé, ou o Lancers.

A enologia é uma disciplina técnica e um bom técnico faz bons produtos. A menos que o material que lhe dêem para trabalhar não preste. Pergunto-me várias vezes o que será mais difícil: fazer 3000 garrafas dum grande vinho – conseguido por causa dumas uvas encontradas num quintalinho, cuja quantidade não dava para mais – ou 3 000000 de litros com qualidade que justifique o preço e fidelize o cliente, conseguindo consistência final e durante anos? Não responderei, mas cito os nomes de dois homens que fazem milhões de litros todos os anos, para que o leitor interessado investigue e procure, nas prateleiras dos supermercados e das garrafeiras os seus néctares: António Ventura e Osvaldo Amado.

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Muita gente não sabe, mas os grandes mestres da pintura – até ao século XIX – eram directores de oficina. Eram mestres de ofício, como os ourives, os sapateiros, ou os carpinteiros. Razão pela qual puderam forrar palácios com as suas pinturas. Não é humanamente possível pintar numa vida o que os grandes pintores alegadamente pintaram.O jovem Leonardo da Vinci formou-se na oficina de Andrea Verrochio. Conta-se que um dia, o mestre ao ver um anjo pintado pelas mãos do aprendiz, se maravilhou ao ponto de prometer nunca mais voltar a pintar tal figura celestial.Nas grandes oficinas, caiam muitas encomendas. Os clientes sabiam o que queriam e encomendavam. O mestre – dono da loja – assentava o pedido e coordenava os trabalhos. Havia artífices especializados em mãos, nuvens, etc.

Alguém dúvida da qualidade das obras de Verrochio? Quantas delas não foram encomendas por medida (também em dimensões)? Pois, haja muitos Casal Garcia, Mateus, Lancers

Ah! O anjo do aprendiz e a Mona Lisa. Acontece, só algumas vezes, daí o seu valor, surgir algo fora de série. Mesmo com os grandes mestres. Picasso é paradigmático. Depois de toda a inovação e revoluções – provavelmente o mais inventivo pintor da história –, o mestre andaluz divertiu-se à brava a vender rabiscos (literalmente) a gente endinheirada que apenas queria a sua assinatura. Picasso sabia disso e servia-lhes o gosto: duas linhas em onda e a assinatura. Fácil!

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Bem, se um vinho de 3,50 euros é bom, o que é, ou o que valem o Barca Velha, o Torre do Frade, ou o Cavalo Maluco?

A enologia é uma disciplina técnica. Bom e muito é difícil, excelente ainda mais raro. O material – as uvas –, quando é bom, só se pede ao enólogo que, pelo menos, não estrague. Se há uvas excepcionais, que as separe e trate de modo a criar um objecto de arte. Se tem uvas boas, sem excelência, que crie um bom vinho, para que a empresa consiga vender bem, ganhar dinheiro, pagar a trabalhadores, funcionários, fornecedores e accionistas.

Não se vai desmoking para a praia e não se levam barbatanas para o baile de gala. Tudo tem um sítio e um momento. Num contexto de Verão, com churrasco e galhofas de férias o vinho tem de ser diferente do que se serve na Consoada, onde o alimento e o simbolismo impõem outra regra.

Há a questão da relação entre a qualidade e o preço, que todos querem saber, mas que evito. A exigência de qualidade, o conhecimento e cultura, a carteira e a disponibilidade de dela tirar notas varia de pessoa para pessoa, criam um padrão pessoal e intransmissível. A issosoma-se a questão do gosto, porque,claro, que há vinhos bons e baratos. A 3,50 euros, a 12 euros, a 30 euros e a 100 euros. Daí não gostar de indicar “escolhas acertadas”. Um Rolls Royce por 50000 euros será sempre uma pechincha, mas quem tem frescura para avançar (tendo em conta o custo de alimentar e manter o bichinho)?

Temos cinco «cores» no paladar: doce, salgado, amargo, ácido e umami – este último é uma “descoberta”“recente” e tão exótico que se adoptou o vocábulo japonês, que significa paladoso, ou gostoso. Todos começamos por gostar do doce e a idade leva-nos a apreciar o ácido e o amargo. Portanto, doce quer dizer básico? Doce é para principiantes? Para gente pouco exigente? Um vinho doce não é sinónimo de bom e de mau. Acontece que, por todo o mundo, muitos produtores optam pelos vinhos frutados e, depois, florais. São mais fáceis, às vezes gulosos. No entanto, uns são soberbos e outros não sobem acima de lixo, além dos que estão tecnicamente bem-feitos e os “perfeitinhos”. Confesso que detesto quase tanto um mau vinho como um “perfeitinho”.

O que faz um vinho ser simplista, ou subir a pódio é o equilíbrio de diversos factores: a acidez que dá frescura ao calor do açúcar, o modo como fica na boca, variedade aromática e de paladar, como se prolonga no tempo…

Todavia, o importante é o “gosto”, ou “não gosto”, sendo que a experiência e a diversidade criam referências e geram cultura. O patamar de exigência tenderá a subir. Ainda assim, um vinho bem feito nunca será um mau vinho e um fantástico tinto encorpado será péssimo de beber na praia.

Depois há os afectos e os seus momentos, que dá para mais uma crónica.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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