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Negritude

Tenho uma negritude enorme dentro de mim. Como se diz, é negritude? É escuridão? Parece que em inglês é mais fácil. Darkness. Um furacão de caos que por vezes agarra como pedras no bolso e leva-me para debaixo de água, de uma água escura que me deixa desesperada e perdida. Não são poucas as vezes que tenho de respirar fundo para conseguir sentir um pouco de mim de novo.

Sinto-me cansada. Cansada e com frio. Deito-me na cama e fecho os olhos. Talvez devesse massajar as têmporas e pensar em coisas boas. Descansar a cabeça num qualquer pensamento alegre é um cliché que, por vezes, até funciona.

Penso que todos temos esse buraco negro dentro, essa ausência de alma e de positividade que, por vezes, toma conta sem haver motivo. Ou talvez haja um motivo, mas não seja um motivo que esperávamos – não tem de ser nada grande ou complexo, basta uma pequena recusa, um pequeno plano não correr como pensávamos. Mas eu não encontro ninguém com essa negritude. Não do tamanho da minha. Acabo por me sentir bastante louca e abandonada num mundo de pessoa felizes com demónios que conseguem vencer, embora saiba que não é bem assim. Mas quando essa escuridão me come o espírito, não consigo reconhecer as verdades que sempre soube.

Talvez precise de dormir. Ou de um banho. E, depois do banho, de dormir. Eu não quero mais estar cansada de estar constantemente em alerta, cansada de não poder descansar dessa batalha que borbulha dentro.

Levanto-me e ponho o pijama no aquecedor, para me sentir quente quando sair do banho. Chega-me uma memória com uma ternura enorme, uma lembrança nítida da minha infância e de quando a minha mãe colocava a minha roupa a aquecer em frente a um aquecedor a gás, de manhã cedinho antes de ir para a escola, só para que não passasse frio. Na altura não soube identificar aquela emoção quente e confortável que a minha mãe me oferecia. Hoje sei que era amor incondicional.

Nessa memória, existe um qualquer “click” que me traz de volta à tona. Um desejo que mantenho ao longo da minha hospedagem nessa escuridão – que algo me salve, que algo me deixe voltar a respirar. E essa memória chega. Essa memória solta-me a corrente que tenho agarrada aos pés e deixa-me sair daquele fundo escuro, em direcção ao vento e à liberdade. De repente, consigo respirar. Consigo sorrir. Até pensando em memórias mais tristes, que me fariam morder os dentes com força noutra ocasião qualquer, me consigo sentir repleta de esperança. De futuro. De amor.

De repente, a negritude está calma. Calma como o oceano, como um campo. Acabou o vendaval que me arrastava sem destino, a dualidade em mim que lutava entre ficar no desespero ou batalhar pela excelência. O meu corpo recupera feliz enquanto me deito para dormir. Consigo respirar. A escuridão não desapareceu, mas eu estou a respirar. Consigo senti-la no fundo da alma, quase a tocar o estômago ou os pés. Onde é o fundo da alma? Será fora de nós? Entretenho-me com perguntas filosóficas que me baixam a ansiedade de levar a vida tão a sério. Possivelmente, também a escuridão precise de descansar de mim, como eu dela. Hoje, permitimos tréguas.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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