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Não sejas como a Bárbara!

Sete horas da manhã. O despertador guincha e provoca uma dor aguda no alvo. Snooze… só mais um pouco, que ainda por cima é segunda-feira e o dinheiro na conta já secou. Novo guincho e a Bárbara salta da posição horizontal, como se fosse impulsionada por uma mola potente. Os olhos semiabertos, cabelo em modo ninho de rato, baba seca no canto da boca, calções de trazer por casa e meias brancas nos pés (é que os pés à noite arrefecem-lhe). Não encontra os chinelos junto à cama, por isso pragueja e arrasta-se, descalça, até à casa de banho. O espelho não devolve a imagem almejada, apenas a possível: a cara está inchada e as pálpebras recusam o arregaçar que se impõe.

Os preparativos matinais sucedem-se entre correrias e contratempos, mas a “pessoa” lá veste uma roupa aceitável para se apresentar na fila da forca. Já mais composta por fora, que por dentro não há arranjo que lhe valha, prepara um pequeno-almoço saudável (e bonito). Isto merece uma selfie. Escolhe o plano que mais a favorece e, graças a Deus, os olhos já abrem. O sorriso rasga-se e “clak”. Falta o embelezamento automático e o filtro. Tudo pronto para “postar” a imagem no Instagram, que até nem ficou mal. “Bom dia, alegria!”, lê-se na legenda.

Tudo pronto por fora, nada pronto por dentro. A pessoa arrasta-se penosamente pelas ruas até à estação de combóio. O dia está cinzento. Espreita o “Insta” para ver se, ao menos, a manhã se torna mais leve. Quase convence – e acredita – que é feliz quando vê o número de “gostos” aumentar. Tem centenas de seguidores, amigos terá uma mão cheia e nem esses sabem do negrume que lhe devora as entranhas. Jamais algum deles saberá das meias brancas e da baba seca, da conta bancária a zeros e do cabelo embaraçado, ou em vez de uma mão cheia passará a ter duas mãos vazias.

Seria mesmo assim? Esta pessoa ri quando lhe apetece chorar, pelo menos para as fotos. Esta pessoa perdeu a espontaneidade e vive duas vidas: a que criou para as redes sociais e o oposto dessa. Esta pessoa mostra o que os outros esperam ver, mesmo quando todos sabem que as redes sociais são como as montras das pastelarias: atrativas, mas onde ninguém a vê cozinha.

Se ao menos ela pudesse deixar o emprego que odeia, aquele sobre o qual partilha fotos de alegre e indesejado convívio entre colegas. Os mesmos colegas que se atraiçoam por mais cinquanta euros ao fim do mês. Se ao menos tivesse coragem de deixar o casamento adormecido em camas separadas, que exibe em fotos felizes. Se, ao menos, aquele casaco que lhe realçou a cor dos olhos na foto de perfil, não lhe tivesse roubado duas refeições completas.

O que fazer? Os seguidores admiram-na e invejam-na e disso não abdica. Se não pode ser feliz, fica feliz porque os outros pensam que é. No entanto, sabe que é uma fraude. Não é a ela que invejam e admiram, mas sim à personagem que criou. E isso, afinal, não a deixa feliz.

Não sejas como a Bárbara!

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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