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ContosCultura

Não sei de onde vem este comboio

Levanto os olhos do livro que vou a ler. De repente, não sei onde estou. Por instantes sinto-me assustada, mas consigo pensar: é normal, quantas vezes não me perco nos livros e depois não conheço nada? E não era maravilhoso perder-se assim na leitura? Olho para fora para me localizar, ver se estou a chegar a casa. O vidro devolve-me o meu olhar, devolve-me a imagem do livro nas minhas mãos à espera de continuar a ser lido. A noite escura não me deixa ver nada lá fora. Não me preocupo; quando for a minha paragem, certamente vou ouvir no altifalante.

O comboio avança no seu ritmo normal. Sinto-me embalada e volto para a minha leitura, tão feliz e com o coração quente como se tivesse bebido o chá numa noite de chuva fria. A maioria das vezes gosto muito de andar de comboio, daquele barulho familiar dos carris, da calma que me traz o abanar leve, leve, leve. Já conheço os caminhos de cor, as curvas que faz, os túneis, às vezes até a velocidade. Perco-me de novo no livro. Até me aperceber que aquele comboio não está a parar em lado nenhum.

Olho em volta. Aproximo-me da porta, seguro o livro entre as pernas, e ponho as mãos em concha para tentar ver melhor. Encosto a cara aos dedos. Não consigo reconhecer nada.

Olho em volta. O comboio estava cheio, ainda há momentos atrás. Agora, só vejo um homem que me sorri, muito parecido ao James Dean. James Dean? As parecenças são extraordinárias. Bom, não pode ser James Dean, isso sei eu. Ou se calhar nem é parecido, a verdade é que não sou assim tão fã do actor para ter a certeza. Tento não olhar mais, já começa a ser embaraçoso. Viro-me; atrás de mim, ninguém. Ninguém. Só eu e aquele sósia de James Dean, sozinhos naquela carruagem daquele comboio. Os olhos fogem-me de volta para aquele rapaz, e ele sorri para mim, de uma forma tão encantadora e reconfortante quanto assustadora. Quem é aquela pessoa? Tiro o telemóvel para ver as horas – é assim tão tarde? Há quanto tempo apanhei o comboio?

Penso.

Não me lembro. Não me consigo lembrar. Ainda estava dia, quando entrei no comboio? Qual era a minha paragem? Onde é que tinha entrado? Que dia era? Porque é que não me lembrava de nada?

Começo a entrar em pânico. A sentir o coração a bater com muita força. O peito apertado. Custa-me respirar. Olho de novo para o telemóvel, a tremer. Olho fixamente, mas os minutos não passam. Como é que é possível? Guardo o telemóvel. Quero sair.

“Porque é que olha assim para mim?” quase que grito ao homem, mas não chego sequer a abrir a boca. Penso “está mas é sossegada, este é daqueles momentos em que fazes porcaria e depois te arrependes, em que nada está a acontecer a não ser a tua imaginação a trabalhar!”

Belisco-me. Não estou a sonhar.

E agora, qual é o plano?

Olho de novo em volta, e nada. James Dean continua a sorrir para mim, tranquilamente. Mas eu acho demais, acho assustador e não sei como sair daquela situação desconfortante, de um estranho a olhar para mim e eu estarmos sozinha com ele. Sinto o peso do livro nas mãos: se for preciso, arremesso-o. É pesado o suficiente para distrair, pelo menos. Pois, mas e depois fujo para onde?

Oiço algo, no meio do barulho de metal com metal, no meio dos guinchos e das faíscas do comboio a lutar nos carris. Alguém está na outra carruagem. Alguém está a abrir a porta e a passar de outra carruagem para a minha. Uma mulher, parece-me. Sinto-me subitamente aliviada. Não estou louca, há mais gente neste comboio. Nem estou sozinha com aquele psicopata, ou lá quem é aquele homem que não pára de me sorrir. A senhora fecha a porta e vira-se para nós, a sorrir.

Foi aí, quando olhei para a senhora e vi que era a minha avó, que me apercebi que eu tinha morrido.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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