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Não preciso de velas

Não preciso de acender velas para te ver caminhar ao meu lado. Nem preciso de luz ou de reflexos. Nem sequer preciso de olhos. Às vezes creio que os olhos atrapalham a vista; perdemo-nos na luz e nas mentiras, enganados, porque a verdade é sempre mais real quando somos cegos que se encontram no escuro. Na noite conseguimos ver o cru do silêncio e do medo, pensar em loucuras de forma mais lúcida, longe do dia e da ilusão dos arco-íris e da beleza efémera. Ou não; se calhar de dia é que vemos bem, é que conseguimos ver os problemas pequenos, pequeninos e insignificantes, quando os comparamos com o sol e a felicidade da vida numa tarde de Verão, ou com os beijos apaixonados debaixo de uma chuva fria de Inverno. Dizem-me que à noite os monstros parecem mais reais e a luz mais longe, com todas as metáforas que se entendam.

Mas eu não preciso de sol, nem de velas. Talvez nem sequer de escuridão, nem do branco de uma parede inocente de cal, nem do quente da areia nas mãos. Talvez só de silêncio. Porque me sussurras ao ouvido, quando eu te quero ouvir – sim, egoisticamente, assim mesmo, como uma rainha. Tantas mais vezes me faria falta ouvir-te, mas raramente consigo calar a mente e todos estes impulsos de alma selvagem e concentrar-me numa só voz. Na tua. Só que quando te oiço… oh, como se me acalma o espírito. Quando te oiço a sussurrares-me para ter calma, o coração bate mais forte porque de repente me sinto feliz, numa estranha epifania que só me toca a pele, mas que basta. Sussurras-me, preocupado, porque sabes que essa epifania geralmente passa rápido e está-me rente, não se interioriza em mim, mas eu asseguro-te que oiço as tuas palavras. Oiço-te a ralhar-me que a energia gasta em infelicidade é um segundo, minuto, dia de vida perdido, que nunca mais regressará. Dizes-me que eu não sou amarga nem cega, que consigo pensar para além do que corre mal, para além do negro e da escuridão, porque há tanto na vida que vale a pena, há tanto sol que nos queima a pele quando dançamos. E, já com os olhos cansados a fechar, sinto-te dizer que tenho de dormir e que há sempre um amanhã.

Os dois sabemos que nem sempre há um amanhã, mas podemos fingir que sim. Vamos fingir que sim, pelo menos hoje. Afinal, podemos ter esperança que sim, que haverá. Que será melhor e que eu conseguirei aproveitar cada segundo, minuto, dia de vida, coberta de sorrisos e cócegas. E, se tivermos sorte, haverá um qualquer amanhã que nos vai encontrar a beber um vinho juntos, enquanto falamos da vida, do passado, do mundo, e acabaremos a rir, na nossa anciã calma, do complicada que eu costumava ser com esta idade, e do esforço que tinhas de fazer para me tocares na mente porque estiveste sempre morto.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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