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Não me restava mais nada

Restava algo assim como um cheiro. Como a impressão de ter visto, pelo canto do olho, os teus caracóis, ou como uma fotografia cortada que só te apanhou a metade de uma gargalhada. Uma sombra de ti, uma memória nas paredes.

Odeio domingos.

O rapaz sem alma chegou num domingo à minha terra. Depois de queimar a tua carta, tinha ido até à praia. Deixava o olhar pairar num pescador com a cabeça inclinada para ouvir melhor as notícias que lhe traz o vento que vem do mar. Por dentro, eu chorava por ti. Por fora, fazia desenhos na terra com o pé, sentado num muro. O rapaz sem alma surgiu de um lado da praia onde só havia rochas e água. Caminhava devagar e, mesmo de longe, o olhar estava perdido noutro tempo e noutra vida. Os pescadores correram a acolhê-lo e eu fiquei a olhar para toda a cena ao longe.

“Gabriel! Corre cá, rapaz!” gritou-me um deles. O braço escurecido pelo sal e o sol agitava-se para me chamar. “É o teu pai, rapaz!”

Não me mexi.

Eles aproximaram-se de mim, trazendo aquele rapaz sem alma às costas. O meu pai não era mais velho do que eu. A cara era a que eu reconhecia nas fotografias da minha mãe e da minha avó. Era a cara que eu via todos os dias ao espelho. “A cara-chapada do pai”. O meu pai não tinha voz, ou não ma concedeu. Depois de me deixarem olhar intensamente para ele e reconhecê-lo nas feições, correram a levá-lo à Natércia. A Natércia sabia tudo sobre tudo e era prima afastada da minha avó. Eu corri atrás deles, curioso e com a cabeça confusa. Nesse momento saíste-me do pensamento, como deves compreender. Só nesse momento.

“Oh, Gabriel!” A Natércia benzeu-se assim que o viu. Fumava à porta de casa, sabia que tinha de esperar alguém. O meu pai, que tinha o mesmo nome que eu, a mesma cara que eu e a mesma idade que eu. “Onde andaste estes anos todos, homem?”

Corri para chamar a minha mãe e a minha avó. Mesmo com os meus vinte anos, naquele instante transformei-me num rapaz pequeno. Despejei-lhes a verdade toda de uma vez e elas correram atrás de mim, transformadas em jovens recordistas de atletismo, correndo lado a lado comigo e pensando no meu pai. Mas assim que cruzámos a porta da Natércia, ela parou-nos as intenções com uma mão aberta e o braço esticado.

“O Gabriel não tem alma!”

Duvidei se ela falava de mim ou do meu pai.

“Então?” perguntou a minha avó, entre a ofensa e a necessidade de explicação.

“Não envelheceu nem um minuto” mostrou o meu pai como se fosse um mágico ou um vestido num atelier, com um gesto do braço para cima e para baixo, os dedos de bailarina e de bruxa a apontarem para ele. “Algo aconteceu no mar e levou-lhe a alma, sugou-lha e deixou aqui este saco de peles catatónico. Voltou assim, sem alma. Não fala, não come, nada. É um fantasma dele próprio.”

Levámos o meu pai para casa. A minha mãe esperou que as memórias contadas por ela lhe trouxessem o espírito de volta. Contou-lhe histórias de quando namoravam, mostrou-lhe a cama onde me tinham concebido, trouxe-lhe o álbum com as fotos. Ele nem olhava. O olhar dele parecia preso, bloqueado, virado para dentro.

“Olha o Gabriel quando era bebé” insistia ela. “E o nosso casamento, foi um dia tão feliz!”

Eu ouvia todos os dias aquelas memórias que também eram minhas e que já conhecia. A minha avó passava o dia a chorar quando olhava para ele. A minha mãe repetia, dia após dia, as histórias que esperava que o trouxessem de volta, entre o choro da minha avó e o seu próprio cansaço. Mas passado uns anos, a minha mãe desistiu. A minha avó morreu de tristeza por só ter recuperado uma sombra do seu filho. A minha mãe acabou por morrer também, de velhice e cansaço, com o coração frágil cheio de um amor que o meu pai não podia aceitar mais. E o meu pai não envelheceu nem um minuto.

Quando a minha mãe morreu, decidi render-me a uma ideia que me tinha martelado aqueles anos. Deixei que o pensamento e a desconfiança me invadissem e olhei fundo para o meu pai. Olhei como quem quer ver, entrar, explorar. Quis dizer o teu nome. Quis dizer o teu nome ao meu pai e ver a reacção dele. Tive medo que voltasse a si, tive medo que piscasse os olhos e me olhasse, que voltasse à vida com o som das letras que compõem o teu nome, com a música da palavra. Tive medo de ter finalmente a confirmação de que aquela não era uma sombra do meu pai, e sim a minha própria sombra. A minha própria alma, que se tinha separado de mim quando decidiste ir-te embora.

Mas não o fiz. Tive mais medo que coragem. Ou respeito pela minha mãe, pela minha avó, por terem morrido de amor. Preferi acreditar num pai-fantasma do que na minha sombra dorida. Na minha alma, ali, à minha frente. Mas sempre desconfiei.

Morreu no dia em que fazia 50 anos que tinha voltado. No dia em que fazia 50 anos que me tinhas deixado. Eu cuidei-o até ao fim.

Afinal, depois de ti, não me restava mais nada.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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