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(Não) Habemos cultura

Quando o despertador toca, estamos mais perto de saber que o novo dia chegou. Abrimos os olhos e nesse momento que é vagaroso, tiramos a roupa de cima de nós, provamos a temperatura mais fria do quarto e sentamo-nos, na beira do colchão que é o abrigo das noites. Depois, há a casa de banho, o chuveiro, o pequeno-almoço. Há o rádio que se liga para se cantarem refrões enquanto o secador imprime um som contínuo no ar que se intercala com as notas musicais. O mundo acordou e nós, dentro dessa pequena atmosfera, constituímo-nos por pedaços de informação recolhida e gerada dentro do nosso sistema.

De olhos postos no mundo, ouvimos as notícias. Fala-se de tudo e de nada, revelam-se detalhes pouco interessantes das famílias com cinco apelidos e volta a referir-se que a Troika pode voltar, que a crise vai continuar e que as missões de salvamento dos bancos podem não resultar da maneira que se espera. Com os combustíveis a aumentar de preço questionamo-nos acerca do motor da nossa sociedade e é aqui que todos os rios de conhecimento vêm desaguar, para provarem a essência do que é ser pessoa.

Numa altura em que os padrões de consumo se afiguram como tópico de debate até à exaustão, questionamo-nos sobre eles, (quase) todos os dias. Para nos sabermos gente, vamos lendo as capas dos jornais e podemos, até, folhear livros que prometem dicas Kafkianas, acompanhadas por Sérgio Godinho a perguntar-nos, do fundo dos phones do mp3, “que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer?” E obedecemos. Dizemos que sim às músicas repetidas do espectro FM e aceitamos que os livros bestseller sejam sobre os casais que superam distâncias ou sobre amores impossíveis. Se queremos mergulhar por nichos mais alternativos a nossa voz será, provavelmente, calada. Se admiramos um cantor pop, rock ou indie mais polémico é-nos apontado o dedo. Se vamos a uma exposição de pintura cujo autor é completamente anónimo mas, ainda assim, muito bom, são-nos atirados pontos de interrogação.

Os padrões de consumo mudaram e as tendências culturais tendem a ser seguidas por milhares. E nesta produção em massa parece que só importa saber dos que somam milhões nas vendas. Deixa de haver uma selecção e o critério é a moda. Recorde-se o episódio recente de um dos mais brilhantes músicos de jazz da actualidade: foi tocar para uma estação de metro de Nova Iorque e quase ninguém parou para o ouvir. Na semana anterior, tinha esgotado salas de espectáculos a bilhetes de preços exorbitantes. Mais uma vez, o analfabetismo cultural é comprovado e, enquanto tabu, a cultura ainda se afigura como área de pouco interesse aos olhos de muitos. Quantos pais não influenciam os filhos na hora de escolher um curso superior e os atiram para longe do monstro das letras e da cultura? Quantas páginas são ignoradas, nos jornais, das secções que nos falam sobre os artistas?

Interrogarmo-nos sobre a cultura ou debater sobre ela começa a deixar de ser tabu. Mas nem todos concordam com esta afirmação e, sem deixar que o tema se torne polémico, atenuamos esta verdade com o facto de, actualmente, presenciarmos o nascimento de muitos movimentos culturais. São gente com fibra, têm ideias e querem ver o mundo crescer. O adubo que semeiam nas ruas nasce nas salas de discussão, nos cafés e nos blogues. E é urgente que isto aconteça. No seio da discussão política fala-se dos efeitos da crise na economia, conjecturam-se planos para garantir que os aposentados recebam as reformas e implementam-se mais horas de ciências exactas para os alunos da nação. Tudo o resto fica esquecido, junto dos fragmentos que poderiam enaltecer o desenvolvimento da área da cultura junto dos mais novos e educar as gerações mais velhas neste sentido.

Se as naus voltassem aos mares, era na cultura que os descobrimentos se focariam, provavelmente. Preencher as lacunas desta área e da discussão da mesma representa essa terra a conquistar, para que se possam edificar ideias concretas, concebíveis e alicerçadas em estruturas bem sedimentadas. A base daquilo que somos existe na oposição de ideias, na crítica e no conhecimento de áreas onde, podendo não nos sentir tão à vontade, precisamos de mergulhar. Falar sobre cultura e sobre as suas mais variadas manifestações é dar espaço ao aparecimento deste tipo de movimentos. Se há quem confunda isto com a superficialidade, desengane-se ao conceber essa ideia.

As exposições existem para aliar o abstracto à manifestação de quem somos; a música canta-se ao vivo para aproximar multidões; os livros escrevem-se na esperança de educar as gerações para as letras, para a imaginação e para a capacidade criativa; a fotografia existe para garantir que os bilhetes de regresso ao passado existem; o design e a arquitectura concebem-se na certeza de garantir que o mundo é contornado pela beleza dos detalhes. O acesso à cultura tem sido, nos últimos tempos, alvo de um lápis que, não sendo jamais azul, se assume semelhante a este. A opinião pública deve rever-se nos termos que lhe dão nome e abrir espaço ao diálogo construtivo na área da cultura, sem se pensar que somos pretensiosos ao abordá-la.

Para que a dimensão cultural tenha espaço na nossa sociedade, é preciso cumprir-se a constituição quando esta afirma que é tarefa do Estado “Proteger e valorizar o património cultural do povo português”. A protecção não implica que não se toque no assunto, pelo contrário, este deve ser levado, todos os dias, à praça pública onde os corpos se encontram e as ideias se debatem. Se a criação cultural e artística é livre, que se eleve a debate todas as questões à volta desta dimensão e se cumpra, efectivamente, a “democratização da educação”, para a igualdade e a integração de todos numa das esferas mais importantes e, ainda assim, mais renegadas, do panorama nacional.

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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