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Não há saco!

A partir de 2015, os finos e leves sacos de plástico com que nos habituámos a transportar as compras até casa passaram a ser taxados e, por conseguinte, menos utilizados. As inúmeras opções já ao nosso dispor tornaram-se mais óbvias e acessíveis: carrinhos com rodas, sacos de pano, sacos de papel, etc. No entanto, ainda se compram outros sacos de plástico, mais resistentes e reutilizáveis. Espero que estes tenham em breve também os seus dias contados.

É que se este objecto é muito útil para pôr o lixo no balde – justificação mais comum para a desculpabilização imediata -, ou se foi objecto poético no inigualável American Beauty (Sam Mendes, 1999), não há muito mais lugar para um dos objectos mais poluentes do planeta, responsável por muitas mortes nos ecossistemas marinhos, mas não só. A posição do Geota – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, uma associação de defesa do ambiente, de âmbito nacional e sem fins lucrativos, com actividade desde 1981, não deixa margem para dúvidas. Quem ainda não sabe do que falamos, leia aqui, por favor. Esta consciência ecológica, que se propaga e chega mesmo a este cantinho da Europa, parece não vingar em todo o território nacional.

Uma “aldeia” povoada por irredutíveis portugueses ainda resiste, em nome da tradição e da identidade regional. Apresentemos o facto: em Ponta Delgada, São Miguel, Açores, as festividades carnavalescas contam hoje em dia com uma batalha de sacos de plástico, do tamanho de uma mão aberta que, cheios de água, são arremessados maioritariamente por homens que se encontram em cima de camiões, contra os adversários pedestres, ou do camião oposto. Terá sido há menos de 10 anos que a famosa Batalha das Limas deixou de contar com as ditas limas – bolas ocas de cera contendo água no interior -, tendo sido estas substituídas por sacos de plástico. Isto, porque as limas eram mais perigosas e podiam infligir sérios danos materiais e físicos, quando arremessadas com alguma força, como era suposto acontecer na referida batalha.

Ao ouvir na televisão, em Fevereiro de 2015, o presidente da câmara de Ponta Delgada defender que aquele milhão de sacos de plástico, que é deixado caído na Avenida Marginal, faz parte da tradição e constrói a identidade de uma região e que, por ser prontamente recolhido pelos serviços municipais, não tem qualquer impacto ecológico negativo, apenas me cabe dizer que tenho muita vergonha, mas mesmo muita vergonha de haver ainda tantas  pessoas ignorantes no meu país.

Não há saco!

27_02

 

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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